AC/DC em São Paulo - 1996

Em 1996, eu havia acabado de ingressar na casa dos vinte anos, e não imaginava que todo aquele entusiasmo e energia perante a vida iriam ser colocados à prova com o tempo. Estava feliz com meu Fusca azul 1972, que me levava para a faculdade, com uma trilha sonora bem diversificada: Creedence, Police, Beatles, Queen, e acreditem, Alphaville! O som mais pesado - pelo menos para mim - era Black Sabbath alternado com Led Zeppelin. Nada muito contemporâneo ou patriota, mas naquelas fitas cassete não havia a publicidade excessiva das rádios.

Meus amigos de então preferiam Deep Purple, Mettalica, Nirvana,Titãs, entre outros grupos. Obviamente quando surgiram os boatos de que o AC/DC iria se apresentar no Pacaembu, em São Paulo, ninguém ficou inerte! Mas confesso que, na ocasião, a lembrança que tinha da banda era bem vaga e distorcida, de quando eles tocaram no Rock in Rio de 1984, talvez por isso não mostrei muito interesse pelo show.

Dos quatro caras que andavam juntos, pelo campus da faculdade de arquitetura em Campinas, era de longe o mais comportado. O fato de preferir os Beatles não me deixava com muita moral para conversar sobre rock pesado com eles, por isso fiquei surpreso quando também fui convidado para a festa.

Você sabe, nessa fase da vida é muito importante sentir-se parte de algo, e se não éramos uma banda de rock e sequer um time de futebol de salão, pelo menos éramos “sócios” nos momentos de diversão. Resolvi aceitar. Até porque era o único que não bebia, e isso conta muitos pontos se você precisar dirigir mais tarde.

Seguimos para São Paulo. Coloquei uma botina preta, para não destoar do pessoal que estaria na Praça Charles Muller, esperando os portões do estádio se abrir. Um amigo me emprestou uma camiseta do Iron Maiden, para completar a “caracterização”. Depois li nos jornais que comentaram o espetáculo, que isso não era muito apropriado, pois Iron e AC/DC não são necessariamente da mesma praia. Tudo bem, ninguém se importou mesmo, e aliás tinha muita gente vestida com a mesma estampa...

Fiquei surpreso com a variedade de “tribos” que estavam misturadas naquele dia, não eram só adolescentes trajados de bermuda e gravata ao estilo colegial de Angus Young: havia muitos motoqueiros, punks, góticos, rebeldes sem causa, e até mesmo senhoras e senhores. A única decepção foi ao passar pelos portões do estádio, e ver os seguranças rasgarem nossos bilhetes bem ao meio (mas não eram serrilhados?), ficando com as letras “A” e “C”, deixando apenas o “DC” para lembrança.


Pisar sobre aquele gramado - desconsidere os compensados de madeira - foi uma experiência interessante, afinal de contas por ali passaram alguns craques do futebol que o brasileiro não esquece: Pelé, Rivelino, Ademir da Guia - só para citar os mais famosos. E lá estava eu - goleiro cuja trajetória felizmente foi interrompida pelos estudos - admirando aquela arquitetura erguida para ser o palco paulista da Copa do Mundo de 1950. Uma pena que a concha acústica tenha sido substituída no começo dos anos setenta pelo tobogã, apenas para aumentar a capacidade da torcida.

Mas o cenário estava adiante, tratava-se da turnê Ballbreaker, e ficou evidente que aquele castelo de pedras seria demolido pela bola de aço do guindaste à nossa esquerda. Isso ocorreu logo no início do show, e dentre os escombros, a banda surgiu! Comecei a entender o motivo de tanta ansiedade dos colegas, na semana anterior. Contagiada pelos primeiros acordes das guitarras, a platéia começou a pular num ritmo frenético. Ficar parado naquela hora seria suicídio, pois ser pisoteado num show de rock não costuma ser uma idéia sensata.

“Angus!... Angus!... Angus!...” Foi o nome mais pronunciado em cada interlúdio. Ele parecia sobre-humano naquele palco - uma leve brisa que batia contra sua face e resvalava em sua cabeleira, encobrindo parcialmente aquele olhar cortante, acentuava essa impressão. Seu modo de alternar o balanço das pernas incessantemente, e a sinergia entre ele e sua guitarra, prendia a atenção na maior parte do tempo. Já Malcolm Young e o baixista Cliff Williams pareciam os Irmãos Rocha da Corrida Maluca, tamanha semelhança de comportamento e modo de vestir, com os cabelos cobrindo os rostos.

Phil Rudd, o baterista, impressionou pela sua constância, da primeira até a última música. Brian Johnson, apesar do carisma comum aos vocalistas, não suplantou a estrela de Angus Young, mas ao contrário do que acontece em outros conjuntos, todos faziam bem o seu papel: há de se concordar que ser coadjuvante no AC/DC não é pouca coisa. Se há uma guerra de egos entre os integrantes do AC/DC, eles parecem disfarçar muito bem - tamanho o entrosamento demonstrado.

Não era preciso ser fã convicto - e num show como este você acaba se tornando um - para cantar os refrões, mais do que clássicos, da banda. “For those about the rock, we salute you”, é um exemplo. Os canhões explodindo em seus ouvidos são inesquecíveis. Parece que você sairá dali com a mesma carga, pronto para responder ao menor estímulo. Para aqueles que são adeptos da terapia do grito primal, recomendo não desperdiçarem uma próxima - e remota - oportunidade de ver um show deles aqui no Brasil.

O espetáculo acabou e lentamente nos retiramos daquele recinto, com a certeza de que tudo havia passado muito rápido. Até a faculdade, agora, já é passado! Cada um seguiu seu rumo e nos reencontramos muito pouco depois disso. Não serei hipócrita em afirmar que hoje o AC/DC é a minha banda favorita, mas fico orgulhoso ao mostrar um álbum do AC/DC para um amigo, numa loja de CDs, dizendo: “Você tem que ouvir isso, meu! Fui ao show deles!”.

Publicado originalmente no site acdc.hpg em julho de 2003.

4 comentários:

  1. Bom dia meu amigo Jean!

    Como é bom ler coisas boas e motivadoras. Achei muito jóia seu texto sobre este Show do ACDC de 1996, não só pela incrível experiência relatada, mas principalmente para prestar o serviço de apresentar o ACDC para todos que aqui visitarem e saber que estes caras representam muito alegria e adrenalina para o nosso bom e velho Rock. Parabéns pelo site.
    Abraço!

    Rogério N.Arantes

    ResponderExcluir
  2. Muito bom esse texto. Sou do site www.acdcbrazil.com e queria saber se posso postar ele no site.

    ResponderExcluir
  3. Diogo Fogaça04/04/2009 01:58

    Jean, muito legal seu depoimento sobre esse show. Me identifiquei muito com seu texto por 3 motivos básicos: 1º- Sou estudante de arquitetura; 2º- AC/DC é disparada a banda que mais curto; e 3º- Pelos rumores de que os caras podem voltar ao Brasil no fim do segundo semestre desse ano...
    É claro que se isso realmente acontecer, não vou perder de jeito algum! rs
    Sucesso no seu trabalho Jean!
    Abraço!

    ResponderExcluir
  4. Muitooo foda seu texto! Você escreve bem cara.

    Agora é a vez da minha geração! Hoje estou com exatamente 19 anos, e daqui 3 meses farei 20 no final do ano.

    O show será no dia 27 de novembro no grande estádio do Morumbi.


    Concerteza fará parte da minha história!

    E meus amigos vão juntos \o/

    ResponderExcluir