Arquitetura vale a pena?

Quando chega o fim do ano uma onda de angústia invade os corações dos mais jovens. Gente adolescente que é chamada para tomar decisões pelas quais nem sempre elas estão preparadas para tomar. Faço esta afirmação baseado na própria experiência: meus primeiros dias na faculdade transcorreram quando eu ainda tinha apenas 17 anos de idade.

Lembro de, no primeiro semestre, ter sido interpelado por um professor de projeto que, ao saber de minha pouca idade, disse em alto e bom tom que faculdades de Arquitetura não deveriam aceitar alunos com menos de 21 anos. Para ele, tais pretendentes deveriam antes amadurecer, conhecendo o mundo e viajando para lugares de culturas diversas.

O ofício da Arquitetura retratado pelo artista renascentista Andrea Pisano.
Não posso endossar um conselho tão utópico para a realidade brasileira, onde os pais se esforçam para que seus filhos se tornem independentes financeiramente o quanto antes. Isto só aumenta a responsabilidade daqueles que precisam escolher uma profissão sem ter certeza de nada.

Para ajudá-los, faço a reprodução de uma breve correspondência que mantive com uma jovem em agosto de 2010. Obviamente vamos preservar seu sobrenome, como reza o bom senso. Dentre os pormenores inerentes de seu caso, fica o exemplo que pode ajudar outras pessoas em situação semelhante.

As dúvidas:

"Me chamo Isabelle e sou estudante de Fortaleza. Prestarei vestibular neste ano e pretendo fazer Arquitetura, pois é um curso que sempre me interessou, já que sempre gostei de desenhar, e de exatas e humanas também. Visito muito o seu blog e acho muito interessante a maneira que você ressalta a Arquitetura, e por isso resolvi tirar minhas dúvidas com você, claro, se você quiser."

É um prazer constatar que os meus escritos sobre arquitetura ultrapassam as fronteiras do meu estado. Gostar de escrever ajuda muito em qualquer profissão e percebi que você tem esse dom. Parece que foi ontem que eu tinha as mesmas dúvidas que você. Também procurei por pessoas mais experientes para conversar a respeito, de modo que é uma satisfação te responder.

"Primeiramente, eu sempre gostei de desenhar, e como citei, isto foi um fator relevante na minha escolha. Acontece que, sempre que eu penso no curso, penso também como seria no futuro, como estarei daqui a muitos anos. E certamente você, como um arquiteto, deve ter escutado que ''não dá dinheiro'', ''não vale a pena'', entre outras frases."

Certamente ouço muito essa ladainha de que Arquitetura não dá dinheiro, com o agravante de morar numa cidade pequena que, na época, não tinha os empreendimentos imobiliários necessários para dar trabalho para todos os engenheiros e arquitetos da cidade já formados - imagine para alguém sem experiência. Ocorre que o dinheiro não pode ser um objetivo em si. Quem trabalha por dinheiro nunca fica satisfeito, pois o dinheiro é somente um meio para realizar outras coisas, mais importantes. Resumindo: é fundamental fazer o que você gosta, com entusiasmo. Se você for competente, a saúde financeira será uma das conseqüências.

"Aqui em casa eu ouço isso todo dia - só quem me apóia é meu pai - e ainda não eliminei a possibilidade de fazer Direito, um curso que me interessa (não tanto como Arquitetura,claro!), e que apesar de estar saturado (pelo menos aqui no Ceará), poderá me dar certa estabilidade financeira, já que meus familiares têm um escritório. Penso que isto, de fato, pode me ajudar de alguma forma. E aqui na minha família, não existe nenhum arquiteto."

Isso funciona na Europa: se você é filho de padeiro, sua grande chance é ser padeiro. Se seu pai tem uma sapataria de 200 anos herdada do tataravô, seu negócio é ser sapateiro, e por aí vai. Por isso o Brasil, apesar dos pesares, é um país de oportunidades, onde o filho do operário pode se formar engenheiro. Veja meu caso: meus dois avós trabalhavam com madeira, um era carpinteiro e o outro marceneiro; meu pai trabalhava numa fábrica e hoje eu sou arquiteto. Agora posso ajudar meu pai se ele desejar construir uma casa para alugar e complementar sua aposentadoria. Colocamos os ovos em cestas diferentes.

"Pode ser que eu me decepcione com Arquitetura, e isso será frustrante pra mim, já que me interesso demais, e pesquiso muito sobre o assunto. Sabe, eu tenho muito medo, como qualquer pessoa, com relação ao profissional liberal. Quando você se formou, ou na época de faculdade, você tinha medo de não conseguir atingir suas metas como arquiteto? Exemplo: faltar clientes, faltar dinheiro, essas coisas que afligem um profissional liberal."

O medo do futuro é um atributo exclusivo da condição humana. Os pássaros não pensam nisso, e mesmo eles tem o que comer, voando sobre campos de lírios. É assim que eu lido com o futuro: com fé. Mas não adianta esperar tudo Dele. Todos nós recebemos um talento. Muitas pessoas enterram seus talentos na terra, com medo de perdê-los. Outras usam seus talentos e descobrem que eles podem se multiplicar.

Considere que possa acontecer o pior: não poder trabalhar com aquilo que sonhou. Só que você ainda poderá fazer outras coisas. Chico Buarque foi estudante de Arquitetura. Fernando Meirelles também. Eles não são arquitetos hoje, mas são bem sucedidos na música e no cinema. O Brasil está repleto de arquitetos que trabalham em lojas, abrem restaurantes, ou mesmo vão para cidades pequenas, para realizar o sonho de muita gente: construir a própria casa. Acredite: o brilho no olhar das pessoas ao ver um desenho de como vai ser a fachada de sua casa, compensa todos os duros anos de estudo na faculdade.

Chico Buarque cursou alguns semestres de Arquitetura em São Paulo, na década de 1960, antes de se tornar popular com os festivais de música.
"E com relação à faculdade? Você acha que se formar em uma universidade pública traz mais reconhecimento que uma universidade particular, na hora de conseguir um emprego?"

Como optei por ser um profissional liberal, só fui redigir um currículo vários anos depois de formado, apenas para formalizar minha contratação como professor convidado numa outra faculdade. Estudei numa universidade particular e poucas pessoas perguntam isso no momento de encomendar um projeto. Quem faz a universidade é o aluno, e não o contrário.

"Agradecida!"

Não há de que. Independente de sua escolha - Arquitetura e Direito são ótimos cursos - só posso recomendar o seguinte: leia muito, escute boa música, veja bons filmes e boas peças de teatro, viaje sempre que possível. Não perca tempo com futilidades. Pergunte o que você pode fazer pelas pessoas e conte com seus pais. Tente fazê-los orgulhosos de você, pelo caminho que você escolher.

Dias depois, outra mensagem:

"Muito obrigada pelos seus conselhos, que diminuíram minha insegurança. Acho que, com saúde financeira, todos se preocupam de certo modo hoje, até demais. Aqui em Fortaleza pelo menos, aprova-se cada vez mais em Direito e Medicina. Aprova-se ''em massa''. A concorrência no vestibular de Medicina chega a ser de 17 pessoas para uma vaga, na UFC (Universidade Federal do Ceará). Hoje, ''a moda'' é fazer Direito, e depois prestar concurso, já que este transmite uma estabilidade financeira muito boa, além de uma boa remuneração.

A partir daí que surgiu o medo de ser uma profissional liberal. Minha mãe é profissional liberal - ela tem sua própria clínica de psicologia. Apesar de ter quase 20 anos de experiência, sinto que ainda existe nela certa insegurança. Medo dos clientes não aparecerem, principalmente em épocas de ferias, quando todos viajam. Ela não é contra a decisão do meu curso, mas ela também não apóia. Mas entendo o motivo."

Respondemos novamente:

Pessoas com aspirações artísticas - e todo arquiteto é um pretenso artista - tem dificuldade em abordar os assuntos financeiros.

Não passo orçamentos por telefone ou e-mail, nem na primeira visita do cliente em potencial. Somente após desenvolver um estudo (que as vezes é de risco, as vezes é mediante um sinal) é que apresento uma carta proposta. Mas, antes, mostro os desenhos, explicando cada pormenor. Então as pessoas entendem que eu tive envolvimento real com o sonho delas. Não trabalho abaixo da linha do capricho. Quando chega o momento de apresentar os valores, são poucos os que questionam algo.

A deusa da Arquitetura (Minerva para os gregos, Palas Atenéia para os romanos) em escultura de Giambologna.
Realmente não tenho bola de cristal para ser taxativo com você e dizer: "faça Arquitetura". Poderia escrever um livro sobre minha carreira e ainda assim seria apenas uma referência. Só posso desejar boa sorte e torcer para que "a força" esteja com você.

Que a força esteja com todos nós!
Jean Tosetto - Arquiteto

Veja também:

Biblioteca básica do jovem arquiteto
O valor do estudo na Arquitetura
Dez anos de paixão por um ofício
Projetar é preciso...
33 & 1/3

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3 Comentários:

Em 01/11/10 15:48, Anonymous Anônimo escreveu:

Que sirva de ajuda aos outros estudantes!
Abraços, Isabelle.

 
Em 15/07/11 11:18, Blogger Sr escreveu:

Estou pensando seria mente em fazer arquitetura...
estou terminando o ensino médio esse ano..
e meus maiores medos são :
*Não entrar em uma boa Universidade.
*A estabilidade financeira.
*E não conseguir meu espaço... já que sou de família muito pobre, e não tenho condições assim que terminar a faculdade, montar meu próprio escritório ou algo do tipo.

Por favor se puder me ajudar!
com conselhos, dicas... desde já agradeço.

 
Em 15/07/11 12:04, Anonymous Jean Tosetto escreveu:

Olá Sr,

Para entrar numa boa universidade é preciso se dedicar aos estudos, não tem outro jeito. Mesmo uma universidade particular, ou distante dos grandes centros, irá exigir dedicação ao curso. Lembre-se que quem faz a universidade é o aluno, e não o contrário.

O Brasil está vivendo um momento econômico favorável para a construção civil em geral. Está faltando engenheiros e arquitetos no mercado. Com isso, os bons profissionais certamente terão mais chances de ter uma renda melhor.

Ser pobre ou de família pobre não deve ser encarado como uma desculpa para o fracasso. Entenda isso como um desafio a mais para superar. Quem gosta do que faz, tem um mínimo de vocação e se dedica com empenho ao ofício, encontrará seu espaço, de um modo ou de outro.

É muito mais barato montar um escritório residencial de arquitetura do que um consultório odontológico, por exemplo. No começo você pode atender a domicílio e basta um computador para tanto, além das habilidades pessoais para se relacionar com os outros.

No mais, boa sorte!

 

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