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Multipotencialidade: você ainda vai precisar dela

Multipotencialidade: você ainda vai precisar dela

No período da Renascença, grandes artistas transitavam pela Arquitetura, Escultura e Pintura com notável desempenho. A Revolução Industrial fez surgir o profissional especialista. Agora, pessoas dotadas de múltiplos potenciais voltam a ser valorizadas.

A jovem Camila, do Rio de Janeiro, escreve para o Professor Ênio Padilha em 03 de fevereiro de 2017:

"Olá Professor Padilha! Tudo bem?

Vim pedir um conselho para você nesses tempos difíceis.

Tenho 26 anos, me formei em engenharia civil em abril de 2014, pela Universidade Estadual do Maranhão. Logo que recebi o diploma vim para o Rio de Janeiro cursar engenharia urbana que era meu grande sonho. Estou na fase final do curso. Nesse tempo que moro no Rio, tentei vagas de trabalho de diversas formas, mas sempre me falavam que, com a crise, não estavam contratando. 

Como minha rede de contatos aqui é pequena, sempre lutei muito para conseguir alguma coisa, e-mail, telefone de empresas, contatos... Hoje estou passando por momentos bem complicados, tenho ajuda financeira dos meus pais, mas essa situação não me deixa confortável. Em abril, se nada conseguir no Rio, passarei um tempo em São Paulo, à procura de trabalho. Mas não tenho muitas esperanças, devido a falta da rede de contatos lá e pela crise que ainda deixa sequelas. 

Tenho consciência das minhas qualificações e aptidões, gostaria muito de trabalhar com urbanização de favelas. Há um tempo, entrei em contato com uma arquiteta que tem um projeto de reforma habitacional em uma favela do Rio. Trabalhei em uma dessas reformas com ela, realizando projetos de engenharia. A reforma ainda não aconteceu, pois ainda não houve captação de recursos por parte do grupo financiador. Ela disse que ainda precisará de mim para continuação da obra, mas é tudo muito demorado e sem datas estipuladas.

Eu estou em busca de alternativas, entrei em contato com empresas que trabalham com outros ramos da engenharia urbana. São empresas de reciclagem e reutilização de materiais, área que gosto bastante. Sou muito empenhada em estudar questões de sustentabilidade.

Recentemente fiz um curso de bioconstrução com dois arquitetos que trabalham na área. Foi muito importante esse contato com eles, pois pude confirmar uma característica minha muito forte: a de querer construir de forma sustentável e com contribuição social. Mas não sei como fazer isso, pois não vejo oportunidades.

Estou em exaustão na procura por trabalho em todas as áreas. Não tem vagas ou não respondem.
Na área do empreendedorismo, me falta ter acesso aos locais onde gostaria de atuar e não acho pessoas que queiram participar. Precisaria de uma arquiteta ou arquiteto para realizar alguns dos projetos.

Se você puder me aconselhar de alguma forma eu agradeço muito, estou perdendo as esperanças de continuar na engenharia e sem perspectivas."

A resposta do Professor Ênio, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, no dia 12 do mesmo mês:

"Prezada Camila

Estou encaminhando seu e-mail para o arquiteto Jean Tosetto, autor do livro ARQUITETO 1.0 -talvez ele possa ajudar com a sua dúvida."

Nosso complemento, no dia seguinte:

Camila, bom dia

Uma das qualidades que todo profissional deve ter, independente do ofício, é a capacidade de fazer a leitura do mercado de trabalho, e se posicionar antecipadamente, de acordo com o cenário a se apresentar.

Quando você ingressou na faculdade de Engenharia Civil, o mercado imobiliário estava aquecido e ensinavam para os mais jovens que eles deveriam buscar uma especialização para poder se destacar perante os demais e, de fato, com a grande demanda por engenheiros e arquitetos, aqueles que tinham conhecimento específico em determinada área tendiam a ganhar mais.

Neste momento, em que você tem poucos anos de formada, a economia brasileira está no meio de uma recessão profunda e o mercado imobiliário está quase congelado. Ainda assim existem oportunidades de trabalho, mas para pessoas com outro perfil: não mais o especialista, mas o dono de potenciais diversos. Os italianos chamam esse profissional de "Multipotenziale". Se puder, leia este breve artigo.

Neste ponto, você está bem posicionada: poucas faculdades formam alunos com tanta capacidade para ser "multipotenciais" quanto Arquitetura e Engenharia Civil. O que desejo afirmar com isso? Talvez não seja o momento adequado para você buscar especialização em Bioconstrução, se o mercado está valorizando aqueles que, além de noções de cálculo estrutural, hidráulica e elétrica, sabem fazer maquetes, acompanham obras, falam inglês, sabem escrever, dominam a burocracia para aprovação de projetos legais e, se precisar, vão trabalhar com segurança do trabalho (esta sim, uma especialidade que continua valorizada no mercado de trabalho em geral).

Se mesmo assim você deseja seguir com a Bioconstrução, resgate os contatos que você já tem no ambiente universitário - aqueles professores que lembram que você foi uma ótima aluna. Peça para eles te colocarem em contato com professores de alguma universidade paulista, para os quais você pode apresentar uma proposta para tese de mestrado em Bioconstrução que lhe renda uma bolsa da Fapesp. Será um caminho árduo? Sim, mas você terá uma renda para estudar e ser uma profissional valorizada quando o mercado imobiliário reaquecer, dentro de alguns anos.

Atenciosamente,
Jean Tosetto 

O retorno da Camila, em 02 de março de 2017:

"Olá Ênio e Jean!

Muito obrigada pelos conselhos. Me ajudou muito a refletir sobre onde posso chegar e as escolhas que devo fazer.

Vou analisar minhas opções e buscar oportunidades.

Suas palavras me deram muita esperança e vontade em continuar na carreira com muito gás!

Agradeço pela atenção!"


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Raio X de uma profissão desafiadora

Raio X de uma profissão desafiadora

Independente de crises e momentos de economia aquecida, as pessoas vão continuar nascendo, crescendo, se casando, tendo filhos e precisando de moradia. Acredite: pouca coisa nesta vida dá um sentimento de realização tão grande quanto construir a casa própria e, para tanto, os arquitetos são necessários.

A jovem Amanda, de Porto Velho, capital de Rondônia, escreve para o Professor Ênio Padilha em 21 de fevereiro de 2017:

"Olá Ênio, tenho 18 anos, terminei o ensino médio em 2016 e ainda estou confusa se eu realmente quero cursar Arquitetura. Tenho medo de não gostar e PRINCIPALMENTE de terminar o curso e não conseguir emprego. Me inscrevi no Prouni e passei na UNIVALI - ela teve no máxima do MEC para o curso de Arquitetura em 2015. 

Mas como eu havia dito anteriormente, tenho medo de me dedicar durante cinco anos e depois não ter um bom emprego, que pague bem. Pois não quero depender dos meus pais, quero poder pagar minhas contas com o meu dinheiro, com o meu esforço. Enfim, eu pesquisei sobre o curso e estou com o pé atrás, o piso salarial não é lá essas coisas, a não ser para um arquiteto autônomo, que aí aumenta um pouco. Mas para se tornar autônomo é preciso ter uma certa quantia em mãos e eu não teria esse dinheiro. Não sei o que faço, só não queria ficar parada, sem começar a faculdade, esse ano."

A resposta do Professor Ênio, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, no mesmo dia:

"Estou encaminhando suas dúvidas e angústias para a pessoa certa: o arquiteto Jean Tosetto.
Ele é o autor do livro "ARQUITETO 1.0 — um manual para o profissional recém-formado”. Ele certamente saberá o que dizer."

Nosso complemento, de Paulínia, São Paulo:

Prezada Amanda,

Atendendo ao pedido do Professor Ênio Padilha, lhe respondo que poderia ir pelo caminho mais fácil e escolher palavras de incentivo - ou de auto ajuda - para que curse Arquitetura. Não farei isso por uma simples razão: não existe caminho suave neste ramo de atividade.

O mercado da construção civil é sempre um desafio: quando está super aquecido, você não consegue dar conta de todas as encomendas e se vê obrigado a recusar um serviço ou repassá-lo para terceiros, sob o risco de se prejudicar caso estes não cumpram as expectativas. Por outro lado, quando o ciclo está em baixa, você se vê concorrendo com novatos e veteranos que passam a ter algo em comum: eles abaixam severamente o valor dos honorários, lhe obrigando a demonstrar que pode fazer algo melhor, mas por um preço justo, que sempre será maior do que a maioria apresenta na praça.

Você notou que abordei o mercado pela ótica do arquiteto autônomo ou titular do escritório? Não tratei do tema pelo ângulo dos empregados pois, para estes, as condições sempre serão ainda mais complicadas. Nos ciclos de baixa eles perdem as vagas e nos ciclos de alta eles se esforçam a ponto de exigir salários melhores, nem sempre sendo atendidos.

Se você optar por cursar Arquitetura, considere como meta complementar ter seu próprio escritório. Você pode ser estagiária e empregada num primeiro momento, mas tenha em mente seguir o próprio caminho a ponto de gerar empregos - e não para pedi-los.

O problema de muitos recém-formados é que antes de procurar o primeiro cliente eles procuram um contador. De cara já constituem pessoa jurídica e assumem compromissos  mensais com taxas e impostos antes mesmo de assinar o primeiro Registro de Responsabilidade Técnica para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Não há problema algum em ser autônomo, com uma estrutura bem enxuta e trabalhando na própria casa: muitos profissionais começaram assim e sou um deles. O escritório constituído pode vir depois, quando você já estiver tarimbada no trabalho.

Independente de crises e momentos de economia aquecida, as pessoas vão continuar nascendo, crescendo, se casando, tendo filhos e precisando de moradia. Muitos vão comprar apartamentos entregues sem acabamento. Outros vão reformar casas velhas e outros vão sonhar em construir a casa própria. Acredite: pouca coisa nesta vida dá um sentimento de realização tão grande quanto construir a casa própria e, para tanto, os arquitetos são necessários. Fora as lojas, fábricas, escolas, igrejas, edifícios públicos e uma infinidade de equipamentos urbanos que precisam ser construídos, reformados, ou ter a correta manutenção. Não fosse assim e eu recomendaria: não curse Arquitetura.

O que você precisa fazer para ter sucesso nesta concorrida profissão? Ser a melhor estudante que puder ser, e depois ser a melhor profissional que puder ser. Deste modo, a sociedade vai ganhar muito com você.

Luz no seu caminho!
Jean Tosetto

O retorno do Padilha:

"Não falei, Amanda, que o Jean Tosetto teria a sua resposta?

Muito bem. Fique atenta. Estude muito e não esqueça de ler o artigo CARTA A UM CALOURO (DE ARQUITETURA OU DE ENGENHARIA) que eu publiquei no meu site, em 2011. Ano em que a minha filha entrou na faculdade de Arquitetura. Ela seguiu esses conselhos e muitos outros conselhos importantes do Jean Tosetto. Hoje está formada ha um ano. Tem seu próprio escritório e parece ter um futuro interessante e promissor.

Boa sorte."


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Onde estudar Arquitetura?

O prédio da FAU USP visitado em meados da década de 1990: projeto icônico do mestre João Batista Vilanova Artigas.
O prédio da FAU USP visitado em meados da década de 1990: projeto icônico do mestre João Batista Vilanova Artigas.


O mercado de trabalho, num país como o Brasil, se ajusta e se aprimora constantemente diante das questões políticas e econômicas. Mas algo não muda: ele absorve somente os melhores profissionais, independente da origem do diploma.

Mensagem recebida em 12 de janeiro de 2017:

"Olá, meu nome é Amanda, vi um artigo seu falando sobre Arquitetura e vi algo que me deu muito alívio, que é o fato de muitos arquitetos começarem a trabalhar aos 26, 27 anos. 

Hoje tenho 22 anos, tentei a USP umas quatro vezes, e sempre tinha uma evolução. Nesse último ano, por causa de três pontos, não passei para a segunda fase.

Hoje estou em um dilema: penso em fazer Senac por ser perto da minha casa, e por ser no período da manhã, o que me dá a chance de trabalhar. Caso eu faça Senac eu faria um parcelamento onde no final do curso eu devo pagar 80% do valor do mesmo, o que equivale a ter uma dívida de 50 mil reais - dinheiro esse que temo não ter...

O curso de Arquitetura no Senac é muito novo e mal possui pessoas formadas ainda. É um curso em constante transformação.

Não sei se já começo a minha vida acadêmica ou se me dou mais uma chance de seguir meu sonho de ingressar na USP, acha que tentar pela quinta vez compensa? Ou devo desencanar de vez e começar fazendo Senac? Conhece algum profissional do Senac que tenha conseguido seu lugar no mercado de trabalho?

Qualquer resposta ou conselho ficarei muito agradecida."

Nossa resposta:

Prezada Amanda Seabo,

A USP é uma das universidades públicas mais renomadas no Brasil e, assim como a Unicamp, uma das mais reconhecidas no exterior. Logicamente um diploma da USP tem grande peso. Mas, atentando para o curso de Arquitetura e Urbanismo, vejo na USP um foco maior em questões teóricas que favorecem o aluno que deseja prosseguir na carreira acadêmica ou pleitear cargos no serviço público, dado o alto grau de politização da faculdade.

Não conheço as instalações do Senac em São Paulo. Porém, a despeito do curso de Arquitetura e Urbanismo ser relativamente novo nesta instituição, ele claramente é direcionado para o mercado de trabalho, ou não seria um curso do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial.

Leve em consideração que o mercado de trabalho para arquitetos em São Paulo capital é muito distinto do mercado praticado no interior. Na capital do estado o tecido urbano está quase completo, levando os arquitetos a trabalharem mais com reformas, restaurações, Arquitetura Corporativa e Arquitetura de Interiores. Nas cidades do interior ainda há muito espaço para construções novas, sempre que um loteamento residencial é lançado ou um parque empresarial é anunciado.

Respondendo pelo mercado do interior - especificamente na região de Campinas - noto que arquitetos formados por instituições privadas realizam mais projetos do que profissionais diplomados por universidades públicas. A constatação é baseada nas placas de obras e no convívio com outros profissionais em eventos organizados por associações de classe. Com isso não estou querendo direcionar você para o curso em"A" ou "B". Estou apenas revelando uma percepção.

Não sei como estará o mercado de trabalho dentro de cinco anos quando, em tese, você terá um grande compromisso para começar a saudar com o Senac. Mesmo os analistas financeiros mais tarimbados costumam errar previsões para o dia seguinte. O que posso afirmar é que o mercado de trabalho, num país como o Brasil, se ajusta e se aprimora constantemente diante das questões políticas e econômicas. Mas algo não muda: ele absorve somente os melhores profissionais, independente da origem do diploma.

Pense no mercado de trabalho como um bife assando na grelha. O gaúcho experiente sabe que pode jogar o sal grosso que quiser nele, pois na primeira virada o sal excedente se juntará ao carvão da churrasqueira. A carne absorve somente o sal que lhe tempera. O que temos que fazer - você e eu - é sermos o sal da terra, numa comparação mais erudita.

Luz no seu caminho,
Jean Tosetto - Arquiteto

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Arquiteto 1.0: a resenha de uma estudante

Quem viaja quieto não ganha livro de presente. (Arquiteto 1.0)
Quem viaja quieto não ganha livro de presente.

"Nesta fase da vida, em que o estudante de Arquitetura está a se desmembrar de uma categoria de amparo para assumir atividades da vida real, o livro é de suma importância para orientar o novo arquiteto."

Mensagem recebida em 03 de fevereiro de 2017:

"Boa noite, Jean Tosetto!

Recebi seu livro por meio de minha irmã, Ellen. Ela me contou que te conheceu enquanto retornavam do Terminal Tietê para Campinas. 

Fiquei muito feliz em receber seu livro, ainda mais porque este ano me formo! 

Apreciei muito a leitura. O manual, por certo, será revisto no decorrer de minha carreira.

Como tenho enfoque para a arquitetura sustentável e edifícios inteligentes, apaixonei-me pela frase: "Não precisamos de egoarquitetos, precisamos de ecoarquitetos." Jaime Lerner. 

Observações:

Página 61: Achei o segundo parágrafo meio confuso. Na segunda parte do parágrafo, a leitura parecia levar à adversidade da primeira parte.

Página 160: Estado de Santa catarina.

Segue em anexo a resenha.

Deus continue te abençoando! 

Não digo que o prazer é todo meu, porque estaria sendo egoísta, mas foi muito boa a experiência!

Atenciosamente,
Mayla Graepp"

Nossa resposta:

Prezada Mayla Graepp,

Sua irmã Ellen sentou ao meu lado no ônibus entre São Paulo e Paulínia. Naquele dia tive uma reunião com um senhor muito importante do mercado financeiro - o que aprendi com ele me deixou um sentimento de gratidão que foi o motivo de presentear você com um exemplar do livro "Arquiteto 1.0" que carregava na mochila. Acredito que gratidão é algo que passamos para frente, pois se apenas retornarmos favores para quem nos ajuda, o mundo fica sem girar.

Estou surpreso por ter lido o livro em pouco mais de uma semana e agradeço que tenha redigido uma breve resenha sobre o mesmo, que faço questão de publicar em meu site. Agradeço também por seu olho de lince em encontrar um erro de digitação: Santa Catarina é com "C" maiúsculo mesmo.

Sobre a passagem que lhe deixou um pouco confusa, esclareço: o dinheiro é importante, independente de questões ideológicas, mas somente quando o dinheiro deixa de ser uma preocupação, é que nos sentimos livres para fazer aquilo que realmente apreciamos, que no caso é trabalhar com Arquitetura.

No mais, lhe desejo sucesso na conclusão da faculdade e que o mesmo lhe acompanhe sempre no desenvolver de sua carreira.

Atenciosamente,
Jean Tosetto - Arquiteto

Segue a resenha:

Arquiteto 1.0: um manual para o profissional recém-formado

TOSETTO, J.; PADILHA, Ê. Arquiteto 1.0: um manual para o profissional recém-formado. 1. Ed. Balneário Camboriú, SC: Oitonovetrês, 2015. 192p. ISBN 978-85-67657-02-8.

Ambos os autores são profissionais que já estão há algumas décadas no mercado de trabalho na referida área. Na obra literária, a dupla apresenta um manual para estudantes de Arquitetura, com enfoque especial à categoria de formandos.

Nesta fase da vida, em que o estudante de Arquitetura está a se desmembrar de uma categoria de amparo para assumir atividades da vida real, o livro é de suma importância para orientar o novo arquiteto.

Com uma leitura dinâmica, o leitor é direcionado ao conhecimento das diferentes áreas na Arquitetura e Urbanismo em que pode atuar, com a descrição crítica de cada uma delas. Os autores prosseguem com a apresentação do sistema de apoio ao profissional, o que inclui Conselho, Federação, Institutos, Associações, e outros. Neste ínterim, ressalta a importância da imagem pública do arquiteto, a ética profissional e as características fundamentais para o desempenho da função.

Os autores levam a conclusão de que o arquiteto precisa ampliar seu campo de visão. Estar aberto às novas tecnologias. O profissional não deve se prender a exemplos do passado, já que estes atendem uma sociedade diferente, que hoje já não existe. A ética profissional, aliada à administração eficaz dos projetos, sem comprometer a vida particular do arquiteto, proporciona o desenvolvimento ascendente da carreira do profissional.

Resenha do livro por:
Mayla Graepp, estudante de Arquitetura e Urbanismo (2013-2017)
Centro Universitário Adventista de São Paulo (Engenheiro Coelho – SP)

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Arquitetura, prevenção e combate a incêndios

Facilitar o trabalho de prevenção e combate a incêndios é uma das atribuições dos arquitetos.

Arquitetos e engenheiros precisam se impor como atores decisivos nos processos construtivos, transmitindo noções de responsabilidade para seus clientes e para os usuários das obras que projetam e executam.

Mensagem recebida em 17 de novembro de 2016:

"Olá Jean, boa tarde.

Parabéns pelo seu site, estive lendo hoje com calma e possui vários artigos importantes para quem atua na área da construção civil.

Estive lendo o artigo “Arquiteto ou Engenheiro” e gostei muito, principalmente na parte que diz o que deve ser combatido pelos conselhos profissionais CREA e CAU.

Uma coisa que me chama muita atenção é o fato de que alguns arquitetos não possuem o mínimo de conhecimento sobre segurança e proteção contra incêndio, principalmente a proteção passiva que é algo inevitável de se pensar ao desenvolver um projeto arquitetônico.

O que se ouve muito é "precisamos aprovar o projeto no bombeiro" e a questão e os conceitos básicos de segurança muitas vezes são deixados de lado, como podemos ler nessa matéria

As universidades dão pouca importância para o assunto da segurança e incêndio dentro da grade do curso de Arquitetura.

Qual seria seu ponto de vista com relação a esse assunto?

Atenciosamente,
William Vieira - WHL Engenharia"

Nossa resposta:

Caro William,

Grato pelo contato e por ler os artigos que compartilho com prazer. Sobre sua questão, não respondo pelos arquitetos que você conhece, mas apenas por mim: não me considero especialista em projetos de prevenção e combates a incêndios, por isso conto com uma parceria que desenvolve este tipo de trabalho, sempre que seja necessário em algum projeto arquitetônico que eu esteja envolvido.

Logicamente não posso ser um leigo no assunto, e preciso dominar conhecimentos técnicos na área, sem os quais não tenho como fazer a compatibilização dos projetos complementares. Eis uma dificuldade no ofício da Arquitetura: ser um profissional generalista com capacidade de dialogar com especialistas numa ponta e com leigos - eventualmente os contratantes - na outra.

Os arquitetos precisam ser didáticos com seus  clientes. É comum que eles reclamem da largura excessiva de corredores de circulação, em detrimento do tamanho das salas comerciais ou institucionais que estes alimentam. Também há reclamações sobre as portas com barras anti-pânico que só abrem para fora e não podem ser de correr. Já passei pela experiência de explicar para um empresário que sua academia de ginástica, no pavimento superior de um sobrado, deveria ter uma segunda escada para atender casos de emergência, sendo bem compreendido.

Por outro lado, já tive que recusar um trabalho onde o cliente em potencial queria fazer tudo ao seu modo, amparado numa consultora de interiores que simplesmente ignorava aspectos básicos de acessibilidade universal, que também tem reflexos positivos na segurança passiva de uma edificação. Não sei se algum concorrente aceitou o serviço nestas condições - se o fez, provavelmente recorreu às brechas das normas e procedimentos de aprovação dos projetos para seguir adiante. Reside aí um grande perigo para a sociedade: quantos projetos são feitos "para inglês ver" e são executados de modo distinto?

Mais do que temer as eventuais fiscalizações dos conselhos profissionais, arquitetos e engenheiros precisam se impor como atores decisivos nos processos construtivos, transmitindo noções de responsabilidade para seus clientes e para os usuários das obras que projetam e executam. Não creio que profissionais que centralizam demais as decisões de seus projetos sejam os mais eficientes e reside aí a importância dos especialistas em cada área, não só para prevenção e combate a incêndios, como para instalações hidráulicas e elétricas, estruturas diversas e outros sistemas.

Neste ponto a professora da FAU USP, Rosaria Ono, que concedeu a entrevista para a Revista Techne que você mencionou, tem razão quando afirma que o projetista tem que dar, em linhas gerais, as condições para o especialista propor soluções de prevenção e combate a incêndios, minimizando a eventual incompatibilidade do projeto. Para tanto, o entrosamento entre os profissionais é fundamental: engenheiros e arquitetos precisam conversar muito bem, superando eventuais rixas que só os mais ingênuos alimentam.

Grande abraço,
Jean Tosetto - Arquiteto

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Saber priorizar é fundamental para cursar Arquitetura

Entre prioridades e distrações, quem faz uma faculdade de Arquitetura se vê na obrigação de fazer "tudo ao mesmo tempo, agora". Mas não precisa ser assim.

Entre prioridades e distrações, quem faz uma faculdade de Arquitetura se vê na obrigação de fazer "tudo ao mesmo tempo, agora". Mas não precisa ser assim.

Mensagem recebida em 11 de novembro de 2016:

"Boa noite Jean, 

Sou estudante do segundo ano Arquitetura e Urbanismo e estava vendo o seu site e seus textos. Resolvi te enviar um e-mail a fim de que pudesse me dar alguns conselhos sobre a graduação.

O curso de Arquitetura e Urbanismo não é nada fácil, mas eu sempre me dei ao máximo, me esforço, fico noites sem dormir e muito tempo sem comer (as escolas de Arquitetura são um tanto cruéis), mas o pior é que parece que não tenho resultados desses meus esforços. Vou bem na maioria das matérias, a maior dificuldade está na disciplina de Projeto de Arquitetura, certamente é a mais exigente. O meu maior vilão é o tempo, e essa é uma reclamação que vejo por parte de inúmeros alunos. Sempre coloco toda minha energia para desenvolver um projeto, minhas notas não são as melhores da classe mas consigo ficar acima da média. Porém, como sempre não consigo entregar tudo no tempo, sou prejudicada.

E esse é o motivo para eu estar vivendo uma crise com o curso que eu escolhi e gosto. Provavelmente terei que fazer novamente a matéria de Projeto, sendo que meus projetos receberam notas boas mas por causa de atrasos perdi nota. Terei que fazer um ano inteiro novamente, não porque eu não sei mas porque o tempo sempre é curto demais e eu não peço maquetes por encomenda (para ter tempo de entregar tudo), logo minhas maquetes são incompletas.

Tenho a impressão de que meus esforços estão sendo em vão e os esforços dos meus pais também, porque a faculdade de Arquitetura exige muitos gastos. Eu não quero trancar minha faculdade por conta disso, por isso procurei o senhor, que talvez ao longo da graduação e da vida profissional tenha passado por algo parecido.

Muito obrigada pela atenção,
Amanda Torres"

Nossa resposta:

Prezada Amanda Torres,

Passei pelas mesmas aflições que você: estive entupido de trabalhos para fazer na faculdade, especialmente no fim de cada semestre, e já varei noites fazendo maquetes pessoalmente enquanto alguns colegas iam para festas, pois haviam terceirizado a tarefa. E no momento em que lhe escrevo, lembro de cada um de tais colegas que hoje não trabalham com Arquitetura.

Porém, serei duro agora: não espere que as pessoas tenham dó de você. Seus professores sabem que muitos alunos ficam perdidos na faculdade. Seus pais devem ser compreensíveis com isto. No mais, os outros não querem nem saber. Ter autopiedade não vai tirar você do enrosco: para sair dele estabeleça prioridades e se organize para cumprir um cronograma de atividades que você precisa concatenar tão breve acabar de ler esta mensagem.

Se a reprovação em "Projeto" lhe custar um ano de faculdade, dê foco para sanar a matéria. Se isto significa sacrificar outra cadeira que apenas lhe renda uma dependência, mas  que seja possível cursar em paralelo no ano seguinte, então vá em frente, dado que não será o fim do mundo e não impedirá que você se forme e seja uma ótima arquiteta.

Se você observar disciplina por disciplina, verá que elas não são muito complicadas. O que dificulta é resolve-las ao mesmo tempo. É por isso que você precisa montar um grupo de trabalho eficiente, com alunos que tenham afinidades distintas para cobrir cada matéria. Neste grupo não adianta todos gostarem de "Projeto" e detestarem "Planejamento" - alguém precisa ter prazer em estudar "História da Arquitetura", por exemplo. Com um grupo bem estabelecido, de quatro a seis alunos, a divisão das tarefas será mais eficiente, pois alguns vão se dedicar mais do que os outros em cada disciplina. Em alguns trabalhos você se empenhará para valer, ao passo que em outros você fará pouco mais do que assinar a capa - e não se sinta culpada por isto.

Ou seja, você precisará confiar em seus colegas e vice-versa. E lá vem a moral da história: na sua vida profissional acontecerá algo parecido! Nenhum professor te ensinará a montar um bom grupo de trabalho, pois é você que tem que aprender na prática, uma vez que recorrerá a este expediente em toda a sua carreira.

Pior para um arquiteto, do que ter poucos projetos para fazer, é ter projetos demais e não conseguir dar conta deles. Ser individualista e centralizador neste ofício é o caminho mais curto para a cova do mercado de trabalho. Se você não se cercar de bons profissionais a quem poderá recorrer, dependendo da complexidade de cada projeto, passará por momentos de sufoco sucessivos, até se estressar num ponto de abandonar a carreira.

Encerro fazendo um comentário sobre notas e sobre estar acima da média. É sempre bom tirar notas altas e se destacar, mas você precisa fazer isso pelo motivo certo, que é adquirir conhecimento sólido e duradouro. Fazer isso para se comparar com outros alunos não deve ser sua motivação, pois cada um tem aptidões e dificuldades distintas. Você não está competindo com seus colegas de classe. Lá na frente você não será remunerada para ser melhor que outra profissional - senão, ela mesma seria contratada. Você será remunerada para resolver da melhor forma as necessidades do seu cliente e acredite: ele não vai perguntar a nota que você tirou em cada matéria da faculdade.

Luz no seu caminho,
Jean Tosetto - Arquiteto

O feedback:

"Muito obrigada pela mensagem e atenção, Jean.

Pode acreditar que ela foi muito importante para mim e levarei esses conselhos ao longo da minha formação acadêmica e profissional.

Abraço,
Amanda Torres"


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Sobrados pequenos e charmosos

A fachada cenográfica em Holambra atesta que lotes de apenas 150 m² podem ser considerados como "latifúndios" nos centros urbanos dos Países Baixos.
A fachada cenográfica em Holambra atesta que lotes de apenas 150 m² podem ser considerados como "latifúndios" nos centros urbanos dos Países Baixos.

Mesmo em lotes pequenos é possível desenvolver projetos inteligentes, práticos e acessíveis, sem descuidar do viés estético. A presença do arquiteto neste processo é fundamental desde o princípio.

Mensagem recebida em 16 de setembro de 2016:

"Caro Jean Tosetto, bom dia.

Passeando pela internet em busca de novidades na área de arquitetura e construção civil, tive a felicidade de encontrar sua página, que, muito além de desenhos e obras realizadas, que demonstram domínio de técnica apurada, criatividade e inteligência, passa-nos também exemplos de amor ao que faz, que vale a pena fazer bem feito, honestidade, sobretudo, de altruísmo, que transcende ao próprio ramo no qual é graduado, a Arquitetura.

Não pare, continue trilhando por esse caminho.

Aproveito para perguntar a sua opinião sobre projetos de sobrados em áreas de 6 x 25 metros, com duas vagas na garagem, muito procurados na região onde moro.

Gostaria de construí-los, contudo, que fossem elegantes e práticos.

Um abraço,
Luís Antônio"

Nossa resposta:

Caro Luís Antônio,

Agradeço suas palavras sobre o meu trabalho relacionado à página, que vão atuar como um incentivo para que eu possa continuar.

Sobre sua questão, tenho que reconhecer que um terreno de apenas 6 por 25 metros (150 m²) é relativamente pequeno, mesmo para os padrões brasileiros atuais. São áreas de tal porte que representam os grandes desafios para os arquitetos, pois nestes casos não há margem para qualquer devaneio.

É possível sim, desenvolver um projeto elegante e prático de um sobrado nestas condições, mas é preciso reunir mais informações, como a topografia do lote, a posição dele em relação ao percurso solar, a possível existência de construções vizinhas, a largura da calçada (e se ela tem árvores, postes ou mesmo um telefone público na testada do lote).

Também é preciso analisar as leis municipais de uso e ocupação do solo, para saber os limites de construção no bairro, se há recuos frontais ou afastamentos laterais obrigatórios (e quais as medidas dos mesmos). Em certas cidades é permitido estacionar os carros na faixa de recuo frontal, ao passo que em outras, os automóveis devem ter espaço garantido além desse recuo.

Enfim, são muitas variações com as quais só um profissional residente na sua cidade teria condições de lidar de imediato. Razão pela qual recomendo que procure por um escritório de Arquitetura radicado na sua região, que lhe apresentará um orçamento competitivo em relação aos profissionais mais distantes.

Saudações de apreço,
Jean Tosetto - Arquiteto

O feedback:

"Caro Jean, boa tarde.

Agradeço-lhe a atenção. Desejo-lhe felicidades e a certeza de continuar acompanhando seus trabalhos.

Um abraço fraternal,
Luís Antônio"

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Arquitetura e materiais recicláveis

O pneu careca transformado em balanço: modo rudimentar de converter o uso de um artefato.
O pneu careca transformado em balanço: modo rudimentar de converter o uso de um artefato.

O uso de materiais reciclados na construção deve ser incentivado por arquitetos, mas sozinhos eles não irão muito longe, a não ser que sejam também empreendedores, construindo seus projetos para potencializar a divulgação dos resultados práticos.

Mensagem recebida em 16 de outubro de 2016:

"Boa noite Sr. Jean Tosetto!

O meu nome é Manuela Martins Pinho e estudo arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, em Portugal. Estou no último ano do curso, e preparo-me para entregar a Dissertação, onde abordarei o tema da reciclagem na construção e formas inteligentes de transformação de entulho e materiais considerados "lixo" em materiais para construção, usados tanto na sua forma inicial como após transformação em outros materiais. Tentarei ainda reunir informação suficiente que me permita fazer uma abordagem ao tema da construção para todas as classes econômicas, relacionando assim os dois temas.

Tendo em conta um artigo seu, que encontrei online, "Novidades sustentáveis para construção", gostaria de lhe pedir algum apoio para melhor compreender e defender o tema, para o qual me falta ainda a tão importante experiência prática.

Pedia-lhe então alguma informação acerca dos materiais que já utilizou, e de que forma os utilizou, qual a sua experiência com novos métodos construtivos neste âmbito, assim como, se possível, alguma informação sobre a durabilidade e a resistência destes materiais face aos elementos naturais e ao tempo. De que forma podemos construir uma arquitetura mais social, para que todos tenham acesso a ela, e ao mesmo tempo, chamando a atenção das diversas culturas que, na sua maioria ultrapassam uma fase de crise a vários níveis, para a necessidade de mudança de percurso do ser humano no planeta, provando que o chamado "lixo" e "entulho" tem o seu valor e deve ser reutilizado.

Qualquer informação é bem-vinda.

Grata pela atenção,
Manuela Pinho"

Nossa resposta, dois dias depois:

Prezada Manuela Pinho,

Parabéns pela escolha do tema da reciclagem de materiais na construção civil para a sua dissertação. Os pioneiros nesta área de necessidade premente da sociedade colherão os frutos de tal iniciativa, tão breve as entidades governamentais e reguladoras das atividades correlatas despertem para a questão - e isso é questão de tempo, pouco tempo.

Realmente auxiliei uma jornalista numa matéria sobre as novidades sustentáveis para construção, e talvez tenha deixado a impressão de que faço uso recorrente de tais práticas em meus projetos.

De fato, tenho incentivado o uso de cisternas coletoras de águas pluviais para uso posterior não humano. Nos projetos de instalações hidráulicas que desenvolvo, mais de 90% já prevê o sistema de aquecimento solar da água, e estamos ingressando, junto com o engenheiro eletricista que trabalha comigo, na era das placas solares para alimentação de energia elétrica dos imóveis.

Mas, para ser intelectualmente honesto, devo reconhecer que o uso de materiais reciclados nas obras que acompanho ainda é muito ocasional, sendo irrelevante na minha produção arquitetônica - não por minha vontade, mas por imposição do mercado imobiliário, ainda conservador neste sentido.

Compreender as razões para tanto pode ser de alguma utilidade para a sua dissertação, então vejamos onde há a maior necessidade de construção para suprir o déficit habitacional no Brasil, dado que não conheço a realidade de Portugal.

Tapumes que isolam canteiros de obras e compõem barracos para guarda de ferramentas e produtos, usam madeira picotada oriunda de restos de outras obras.
Tapumes que isolam canteiros de obras e compõem barracos para guarda de ferramentas e produtos, usam madeira picotada oriunda de restos de outras obras.

As classes menos abastadas dependem basicamente de financiamento bancário para aquisição da casa própria. O banco estatal Caixa Econômica Federal detém as melhores condições para os empréstimos em função de juros menores e prazos alongados para quitação dos imóveis. Porém, mesmo uma entidade pública - teoricamente mais caridosa - necessita de garantias de que os imóveis serão construídos a contento e que os financiamentos serão pagos. Para tanto, a instituição impõe regras que engessam os projetos e os métodos construtivos, restringindo as práticas inovadoras e as possibilidades para maiores experimentações.

Para um casal obter financiamento para a construção da casa própria, é preciso entregar para o gerente da agência uma série de documentos pessoais e comprovantes de renda. Já o projeto arquitetônico deve ser apresentado junto com memoriais descritivos e planilhas orçamentárias que especificam marcas e valores dos materiais que serão empregados na obra. Propostas que resultam em obras muito baratas, ou muito caras, caem numa espécie de malha fina dos analistas, que invariavelmente pedem correções até que se atenda um padrão convencional aceitável.

Se os materiais reciclados tem o atrativo dos custos mais baixos, fica difícil comprovar os valores reais quando não há referências estabelecidas no mercado. E mesmo que o projeto seja aprovado deste modo, durante as fiscalizações mensais por parte de engenheiros ou arquitetos enviados pela instituição financeira, notas fiscais podem ser exigidas por amostragem. Sabemos que boa parte dos materiais reciclados ainda é operada de modo informal, o que dificulta a emissão de notas fiscais comprovatórias das origens de cada componente.

Para que o uso de materiais reciclados fosse mais difundido, seria necessário que o governo liberasse linhas de crédito voltadas para obras de pequeno porte, de iniciativas familiares. A realidade, no entanto, é diferente: a maior parte do dinheiro disponível para o financiamento de obras residenciais acaba em poder de grandes construtoras de casas populares e prédios de apartamentos, que se valem dos mesmos projetos de norte a sul do país, independente das diferenças culturais e climáticas de um território continental. O agravante é que tais projetos já eram considerados ultrapassados na década de 1960, mas como geram lucros exorbitantes para as incorporadoras, continuam sendo difundidos indiscriminadamente.

A maquete virtual apresenta o projeto da nova sede administrativa da NTA em Paulínia, se destacando em relação a sua fábrica, uma das quatro no Brasil que utiliza borracha triturada de pneus usados como parte da composição do asfalto.
A maquete virtual apresenta o projeto da nova sede administrativa da NTA em Paulínia, se destacando em relação a sua fábrica, uma das quatro no Brasil que utiliza borracha triturada de pneus usados como parte da composição do asfalto.

Na outra ponta do espectro social, vemos que as classes mais abastadas são propícias às novidades do mercado, mais por modismo do que propriamente por idealismo - quando o idealismo entra na pauta, atua mais como uma válvula de escape para o sentimento de culpa que alguns ricos sentem, do que como uma vanguarda a ser difundida.

Como reflexo dessa abordagem mais emocional do que racional para uso de materiais reciclados nas obras, os mesmos possuem os seus conceitos e utilidades distorcidos, quando muito deles deixam de ser estruturais, por exemplo, para ser meramente decorativos. É o caso dos adobes - grande tijolos de argila prensada - comprados em depósitos de materiais de demolição por um alto preço por unidade - que ao invés de sustentar uma parede externa da casa, se convertem em revestimento de balcões de churrasqueiras, cada vez mais presentes nas varandas dos quintais brasileiros.

Lembro de ter visto uma reportagem na TV, num quadro com dicas de decoração, que mostrava a suíte de um casal onde a cama tinha como cabeceira uma antiga folha de porta social, feita com madeira de lei toda entalhada. Obviamente o custo daquela cama era muito superior ao custo de uma cama convencional, distorcendo a razão econômica original do uso de materiais reaproveitados. E deste modo os exemplos se sucedem, com peças descartadas como lixo por uns, sendo rearranjadas como artigo de luxo por outros, sem que isso alcance uma gama maior de consumidores conscientes.

O revestimento cerâmico acima desta pia imita a estampa de antigos ladrilhos hidráulicos.
O revestimento cerâmico acima desta pia imita a estampa de antigos ladrilhos hidráulicos.

Por vezes, os modismos geram reproduções industrializadas das peças, quebrando a lógica da reciclagem dos materiais. É o caso dos antigos ladrilhos hidráulicos portugueses, vendidos originalmente em peças pequenas, cujas estampas foram copiadas e rearranjadas em grupos impressos em peças maiores. O resultado visual é parecido, mas estamos tratando de uma decoração totalmente fake.

Creio que o uso de materiais reciclados na construção deve ser incentivado por arquitetos, mas sozinhos eles não irão muito longe, a não ser que sejam também empreendedores, construindo seus projetos para potencializar a divulgação dos resultados práticos.

Empreendedores natos são bem vindos nesta equação. Neste âmbito, tive a oportunidade de desenvolver o projeto de uma fábrica de asfaltos em Paulínia, estado de São Paulo, que usa pneus picotados de automóveis como parte da matéria prima de seu produto para pavimentação de ruas e rodovias. A armazenagem deste componente é de alto risco, pois trata-se de um material facilmente inflamável, cujo incêndio, se iniciado, é praticamente impossível de ser contido até que se queime todo o depósito.

Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer pessoalmente uma fábrica que produz máquinas para trituração de restos de madeira em Itapetininga, também no interior de São Paulo. Os picadores da Nicoletti são de pequeno porte e podem ser facilmente levados para canteiros de obras, para cuidar das sobras das madeiras usadas em formas de componentes estruturais e escoramentos de lajes. Inicialmente o produto resultante de tal processo era usado meramente na composição de tapumes que isolam outras obras, mas já existem painéis de madeira picotada em motivos decorativos numa grande rede de academias de ginástica e até mesmo como revestimentos acústicos em igrejas e salões de convenções.

As arquibancadas do velho estádio do Palestra Itália ocupadas pela última vez, em partida amistosa do Palmeiras com o Boca Juniors disputada em julho de 2010.
As arquibancadas do velho estádio do Palestra Itália ocupadas pela última vez, em partida amistosa do Palmeiras com o Boca Juniors da Argentina, disputada em julho de 2010.

Para encerrar, cito um caso pitoresco, envolvendo a rivalidade de dois grandes clubes de futebol de São Paulo e do Brasil. Há alguns anos o Palmeiras demoliu seu antigo estádio para construir, no local, uma moderna arena multi-uso. Boa parte do entulho de suas velhas arquibancadas foi processada numa usina de Guarulhos, gerando agregados que foram aproveitados na construção do estádio do Corinthians, onde foi disputada a partida inaugural da Copa do Mundo em 2014.

A divulgação de um exemplo emblemático como esse ajuda a difundir o conceito da reciclagem dos materiais na construção civil, com dividendos em prol da sustentabilidade.

Desejo sucesso para você em sua dissertação.

Atenciosamente,
Jean Tosetto - Arquiteto

Veja também:

Empreender para ajudar

Arquitetura de Interiores: Jean Tosetto
"So I start a revolution from my bed 'cause you said the brains I had went to my head" - Noel Gallagher.

Como ingressar na política partidária sem se comprometer com o sistema? Não tenho a resposta para isso, mas se você quer fazer a diferença na sociedade, terá que enfrentar este cenário. Por isso te lembro para não perder o idealismo.

Mensagem recebida em 18 de maio de 2016:

"Sou Larissa, tenho 17 anos e estou no meu último ano do ensino médio. Acredito que a escolha de uma carreira na adolescência é extremamente desgastante, porém nessa procura insana me deparo constantemente com o desejo de ajudar a população mais carente, e ainda assim fazer o que me traz prazer! 

Adoro desenhar e organizar, a ideia de criar projetos é extremamente agradável, tenho pesquisado muito e continuo sem respostas. Gostaria de saber se é possível, na carreira de Arquitetura, seguir um viés social e ainda assim permanecer criando projetos, e como faria isso.

Obrigada desde já!"

Nossa resposta, no dia seguinte:

Prezada Larissa,

Em primeiro lugar, não perca seu idealismo, mas não deixe que ele turve suas escolhas. Se você deseja seguir com a nobre tarefa de ajudar a população mais carente, esteja preparada para suportar todas as adversidades.

É plenamente possível conciliar a carreira em Arquitetura com seus objetivos sociais. Ainda estudante, e depois na condição de recém-formada, você pode atuar como voluntária em organizações não governamentais ou entidades religiosas - quais entidades ou quais ONGs escolher será um desafio para você, pois entre iniciativas sérias e duvidosas existem vários tons nebulosos.

Os jovens arquitetos, que já possuem as dificuldades imediatas para se estabelecerem no ofício, podem recorrer à Lei Federal 11.888/2008, que prevê assistência técnica em habitação de interesse social, para atender famílias de baixa renda cadastradas pelos municípios. Neste caso você seria remunerada por entidades públicas, desde que o município em questão esteja em dia com a referida lei - e para tanto, vale pressionar as autoridades municipais através das entidades que representam a profissão.

Se você for arquiteta, perante o CAU - Conselho de Arquitetura e Urbanismo - você será também uma urbanista, e como tal poderá favorecer as classes mais humildes se conseguir galgar um cargo decisório nos organismos responsáveis pelo planejamento urbano das cidades. Saiba desde já que isso não acontecerá meramente por sua capacidade técnica, então cogite ingressar na política partidária, dado que até aqui tratamos de política em geral o tempo todo.

Como ingressar na política partidária sem se comprometer com o sistema? Não tenho a resposta para isso, mas se você quer fazer a diferença na sociedade, terá que enfrentar este cenário. Por isso te lembro para não perder o idealismo.

Há alguma alternativa para tudo o que escrevi até aqui? Sim: além de ser arquiteta você pode ser empreendedora! Foque seus esforços em se estabelecer na profissão, desenvolva uma carreira de sucesso, crie uma empresa, gere empregos e tenha renda suficiente para, depois de certa idade, dedicar parte de seu tempo e de seus recursos para aqueles que mais precisam. Os mais ricos estruturam fundações para este fim. Esta seria a aposta de uma vida - se você ganhar, muitos ganharão com você.

E se você não quiser se envolver com nada disso e ser apenas uma arquiteta, não se preocupe: fazendo bem feito o seu trabalho você já estará ajudando uma corrente de pessoas, direta ou indiretamente. Pense em quantas pessoas vão trabalhar nas obras de seus projetos, e que levarão recursos para as comunidades onde vivem. Pense no servente que recebe uns trocados por dia do empreiteiro, e que uma vez por mês envia parte de seus ganhos para a mãe que ficou na cidade natal.

Se você se tornar uma ótima arquiteta, a sociedade já lhe será grata.

Que seu caminho seja iluminado,
Jean Tosetto

O feedback:

"Jean,

Muito obrigada pela resposta! Você foi extremamente esclarecedor, em meio à tantas incertezas me sinto mais segura quanto a escolha de uma profissão!     

Imensamente grata,
Larissa Oliveira"


Veja também:


Arquitetura de Interiores: campo aberto para jovens profissionais


Estudo de projeto para escritório de profissional liberal.
Estudo de projeto para escritório de profissional liberal.

A Arquitetura de Interiores vai muito além de escolher cores e texturas para paredes, mobílias e utensílios práticos ou meramente decorativos. O estudo do layout dos ambientes pode implicar em intervenções nas instalações hidráulicas e elétricas e até mesmo em questões estruturais, nas quais o arquiteto, diferentemente do decorador, terá autoridade para discutir soluções com os engenheiros envolvidos no processo.

A Mariana Maciel adquiriu i livro "Arquiteto 1.0" e nos escreveu em maio de 2016:

"Olá Jean, bom dia!

Finalizei seu livro tem um mês. Inclusive o indiquei a algumas amigas recém formadas.


Quero lhe parabenizar pelo conteúdo: tópicos importantes para nós, jovens arquitetos, que nos fazem questionar o HOJE fazendo uma reflexão pelos tempos de vida acadêmica.

Foi muito importante para mim, ler os exemplos de profissionais e os nichos em que tiveram a oportunidade de explorar.

É justamente nesse ponto que gostaria da sua ajuda.

Me formei em 2014, e em 2015 fiz um intercâmbio para Londres. Sonho antigo que por diversas questões pude realizar apenas no final da faculdade. O que achei muito bom.

Desde os tempos de Graduação, penso muito sobre os nichos de mercado em que poderia me inserir como profissional; visto o amplo leque da Arquitetura neste sentido.


Por preconceito, sempre tive um certo distanciamento em relação ao mercado de Interiores. O pensamento que estudei durante anos uma gama de assuntos que partiam desde Desenho, passando por Conforto Ambiental, Topografia, Urbanismo dentre outras, que essa parte me convinha certa "futilidade". Já mudei um pouco minha concepção em relação ao assunto, inclusive tenho muito interesse de estudo na área hoje em dia.

Por outro lado, sempre compreendi que a Arquitetura tem o poder de transformar vidas, cidades e integrar pessoas. Desta maneira, tenho um grande interesse na área de Acessibilidade.

Ao mesmo tempo, me sinto confusa e me cobro em fazer a escolha de uma especialidade dentro da área. 

Não quero me tornar uma profissional que faz de tudo um pouco, não conhecendo na verdade nenhum assunto profundamente.

Tenho muita necessidade em voltar a estudar, venho pesquisando cursos de especialização, e no futuro gostaria de fazer Mestrado fora do país.

Sei que pontuei diversas questões e estou confusa e sedenta por uma área a seguir. Mas quero me tornar uma ótima profissional no que eu optar.

Agradeço se puder me ajudar com uma opinião e conselho como profissional.


Muito obrigada,
Mariana Maciel"

Nossa resposta:

Prezada Mariana Maciel,

Agradeço que tenha apreciado a leitura do livro "Arquiteto 1.0", corroborando a expectativa que eu tinha, em conjunto com o professor Ênio Padilha, a respeito da eficácia da obra para os profissionais recém-formados e mesmo os estudantes universitários.

Parabéns pelo intercâmbio feito em Londres. Tenha a certeza de que esta experiência lhe será válida em todos os sentidos, não apenas os profissionais, mas sobretudo os pessoais. A vivência de outras culturas nos prepara para enfrentar eventuais adversidades em nosso meio. E como Londres é uma cidade realmente cosmopolita, você escolheu bem o destino de seu primeiro ano como formada.

Realmente, o preconceito com relação à Arquitetura de Interiores é veladamente estimulado por alguns professores de disciplinas mais tradicionais da faculdade, com seu grau variando de universidade para universidade. Não tenho dados científicos para avaliar a questão, mas acredito que as instituições particulares, mais voltadas para o mercado de trabalho, tratam a Arquitetura de Interiores com mais objetividade, ao passo que nas instituições públicas as questões teóricas, e mesmo as ideológicas, são mais valorizadas.

Em verdade, é na Arquitetura de Interiores que muitos profissionais jovens vão encontrar o caminho de suas carreiras, especialmente nas grandes cidades que estão no ciclo de revitalizar os centros históricos, onde o tecido urbano está composto e não há muitas possibilidades para a atuação convencional dos arquitetos. Adequar o que já existe é fundamental e, para tanto, o profissional deve aplicar também as questões de Conforto Ambiental, Acessibilidade e até de Urbanismo, nas eventuais intervenções da obra com o espaço público. Note que este campo de atuação não é mera competição com a Decoração de Interiores.

A Arquitetura de Interiores vai muito além de escolher cores e texturas para paredes, mobílias e utensílios práticos ou meramente decorativos. O estudo do layout dos ambientes pode implicar em intervenções nas instalações hidráulicas e elétricas e até mesmo em questões estruturais, nas quais o arquiteto, diferentemente do decorador, terá autoridade para discutir soluções com os engenheiros envolvidos no processo.

Não se engane: para deslanchar neste ramo de atividade, é preciso muito estudo e dedicação, tanto quanto nas demais especialidades, e neste ponto discordo do pensamento corrente que afirma que um arquiteto não pode fazer de tudo um pouco: se ele quiser ser um sobrevivente no mercado brasileiro ele deve sim, ter abertura para aprender e trabalhar em tudo o que lhe é de direito.

Deixo como exemplo a minha própria carreira: por muitos anos trabalhei primordialmente com projetos residenciais na minha cidade. Ao perceber que o novo plano diretor do município acabou com as restrições para construção de edifícios de apartamentos com vários andares, percebi que teria menos demanda para projetos a longo prazo e passei a observar outros campos de atuação. Atualmente desenvolvo, também, projetos para empreendimentos industriais e comerciais, que vão desde galpões de logística até instalações fabris. E, como você é testemunha, comecei a escrever livros também.

Na Arquitetura os profissionais devem ser maleáveis e faz parte da natureza dos mesmos ter a capacidade para atuar em áreas paralelas. Desenvolva isso, pois o especialista em perspectiva feita na prancheta com caneta nanquim de ontem, está desempregado hoje.

Com relação ao mestrado, não vou dizer que me arrependo de não ter feito. Assim que me formei tive a possibilidade de seguir na carreira acadêmica, mas fiz a escolha consciente de seguir como profissional autônomo, na minha pequena cidade que estava "explodindo" com novos loteamentos.

Mas hoje, entre cursar uma especialização e fazer um mestrado, eu escolheria seguir direto com o mestrado, pois me possibilitaria ingressar na docência. Há alguns anos tive uma experiência como professor convidado e, se tivesse tempo e foco na época, teria continuado neste campo que me deu muito prazer.

Continue lendo e se aperfeiçoando. Você é jovem e tem muitos desafios pela frente. A carreira de uma arquiteta é longa e permite correções de rumo, sempre que elas forem necessárias. Não se prenda aos paradigmas de sua origem e esteja aberta para novas experiências, pois o sucesso vem naturalmente para aqueles que estão ocupados querendo fazer algo relevante para a sociedade.

Que a luz esteja com você!

Jean Tosetto

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Veja também:

Arquitetura, felicidade & realização

"Fico muito contente em dias de concretagem de lajes, dado que isso é simbólico e representa que uma família acaba de ganhar um teto."
"Fico muito contente em dias de concretagem de lajes, dado que isso é simbólico e representa que uma família acaba de ganhar um teto."

Nós, arquitetos, servimos a alguém enquanto pessoa física ou jurídica. Nós servimos (ajudamos) pessoas, empresas, cidades, a sociedade. Parte da beleza da profissão reside na seguinte pergunta: "o que posso fazer por você?"

Mensagem em itálico recebida em 13 de maio de 2016, e respondida na manhã seguinte:

"Olá Jean, boa noite! Sou estudante do 3°ano do ensino médio, e como muitos estou naquela fase de dúvidas: 'O que vou fazer da minha vida'. Atualmente venho me debatendo com inúmeras perguntas, medos e inseguranças em questão do curso que pretendo escolher, que no caso é, Arquitetura e Urbanismo. Acho que os meus medos são baseados no pensamento de não dar conta do recado, das críticas alheias (nada construtivas) ou até mesmo da falta de incentivo da minha família. Tenho medo de não me adaptar ao curso, confesso que não sou a rainha das exatas e tão pouco sei desenhar muito bem, mas me esforço como posso e ainda assim sou apaixonada pelo curso. Na realidade não sei o verdadeiro sentido desse e-mail, entrei em seu site e vi um pouco do seu trabalho, dos seus conselhos aos estudantes e resolvi lhe escrever, talvez na vontade de receber um conselho ou até mesmo um incentivo."

Estimada Thaisa, presumo que você tenha entre 17 e 18 anos de idade e nessa época da vida a nossa cabeça está sendo chacoalhada o tempo todo por um turbilhão de emoções, pressões, informações. Nem sempre temos por perto pais compreensivos, pois eles são de outra geração e parecem não entender bem os nossos anseios - ou a gente acaba pensando que eles não podem nos ajudar, quando no fundo podem. Não é todo mundo que tem um tio maneiro para trocar umas ideias sem ressalvas, ou mesmo um irmão mais velho, que já apanhou um pouco mais da vida e pode nos dar uns toques preventivos.

Sei o que você está passando, pois de certo modo me vejo em você, nos seus questionamentos, e para mim é sempre um prazer tentar ajudar. O incentivo para estudar Arquitetura você já tem. Com relação aos conselhos, ainda penso que seria pretensão minha querer cravar eles para você. Portanto, não aceite minhas palavras como verdades absolutas, apenas como referências. Tenha senso crítico acima de tudo.

"O que é ser um arquiteto para você?"

Ser arquiteto, para mim, é antes de tudo ser um prestador de serviços. Nós, arquitetos, servimos a alguém enquanto pessoa física ou jurídica. Nós servimos (ajudamos) pessoas, empresas, cidades, a sociedade. Parte da beleza da profissão reside na seguinte pergunta: "o que posso fazer por você?"

A motivação de um arquiteto não é ganhar dinheiro, embora isto seja uma consequência, mas primordialmente atuar pelo bem de cada um, com reflexos positivos em todo o contexto.

"Em que ou quem se espelhou para ser tornar o profissional que é?"

Na sua idade não tive um arquiteto como referência. Apreciava o trabalho do quadrinista Will Eisner, criador do personagem The Spirit, em histórias carregadas de expressionismo em perspectivas muito bem elaboradas, com um apelo visual cativante. Gostava também das Aventuras de Tintim, do cartunista Hergé, em álbuns minuciosamente planejados. Pensei que, ao cursar Arquitetura, poderia trabalhar com artes visuais no futuro. Somente durante o curso tomei gosto pelas atividades convencionais de projeto, estudando grandes arquitetos como o americano Frank Lloyd Wright e o finlandês Alvar Aalto. No tocante ao modo de trabalhar, minhas referências foram meus pais e tios, que sempre agiram com respeito à ética e ao próximo.

A novela gráfica "O Edifício", de Will Eisner, foi publicada em português pela Editora Abril em fevereiro de 1989.
A novela gráfica "O Edifício", de Will Eisner, foi publicada em português pela Editora Abril em fevereiro de 1989.

"Valeu a pena?"

Sim, está valendo a pena. Esta pergunta não tem uma resposta definitiva, pois no final da vida, vamos repassá-la em perspectiva. E se deixar de valer a pena, não existe compromisso perpétuo com um diploma. A carreira de um arquiteto não é uma brincadeira de autorama, onde os carrinhos só podem correr nas fendas eletrificadas. Nós temos a liberdade de escolher outros caminhos.

"São tantas perguntas, mas que apenas uma resposta já me deixaria satisfeita: dizer que é feliz com a profissão que escolheu, porque é isso que quero ser, feliz! Independente de qual carreira seguir."

A pergunta correta é se eu me sinto realizado e neste caso vou dizer que sim: encontrei um ofício que é parte importante da minha vida. Com relação à felicidade, ela nunca será plena, pois ela é experimentada em contraste com momentos que não são felizes, e não se iluda: na Arquitetura as agruras também estão presentes.

Trabalha-se muito e dorme-se pouco, pois os projetos se abrem na sua mente mesmo quando você está na cama querendo pregar os olhos. Fico triste ao lembrar que arquitetos e urbanistas não tem espaço nas prefeituras das cidades brasileiras, para atuar no correto planejamento das mesmas. Também me entristeço em saber que certas entidades, que representam a profissão, na verdade defendem ideologias com as quais a maioria dos arquitetos não concorda.

Porém, é claro que existem momentos de intensa felicidade, sempre que uma obra é concluída com sucesso, ou quando seus contratantes saem sorrindo de uma reunião no escritório, ou mesmo quando eles recomendam seu trabalho para seus amigos. Fico muito contente em dias de concretagem de lajes, dado que isso é simbólico e representa que uma família acaba de ganhar um teto.

"Enfim, obrigada pela atenção e desculpe pelo tempo que lhe roubei e talvez pela indelicadeza de fazer tantas perguntas e até mesmo um desabafo."

Não se preocupe. Esse tempo não foi roubado, foi ganho. Ao escrever para você, reforcei as minhas convicções na necessidade de, sempre que possível, colaborar com as pessoas. Estamos aqui neste planeta justamente para tanto. Lhe desejo toda a felicidade que possa caber em seu coração. Portanto, priorize fazer as coisas que aumentem o tamanho dele, metaforicamente.

Saudações cordiais,
Jean Tosetto

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Faculdade não é campeonato de Fórmula 1

Faculdade não é campeonato de Fórmula 1 - por Jean Tosetto

Saber captar o cliente e depois saber apresentar o projeto é tão fundamental como saber desenvolver o trabalho dentro do escritório. Para tanto, ter jogo de cintura é mais importante do que ser perfeccionista.

Mensagem recebida em 09 de maio de 2016:

"Primeiramente quero parabenizá-lo pelo seu blog, onde tantos jovens recebem sua atenção quanto às suas dúvidas ao ingressar ou não na futura profissão de arquiteto.

Tenho lido as perguntas, dúvidas e suas respostas.

Tenho uma filha que acabou de completar 18 anos e ingressou na faculdade de Arquitetura e Urbanismo na UFRGS. Quando mais nova falava em fazer Biologia, mas após eu ter feito o curso de técnico em segurança do trabalho e ter feito uma cadeira de desenho técnico, ficou simplesmente encantada me ajudando a realizar uma planta de um banheiro e sala de aula, foi aí que ela decidiu que quando terminasse o ensino médio faria o vestibular para Arquitetura.

Agora. ao ingressar na faculdade, está fazendo as sete cadeiras e está tendo uma certa dificuldade de administrar o tempo tanto na realização dos trabalhos como quando nas provas com desenhos, pois é perfeccionista, se exigindo para que tudo fique perfeito e assim andou se atrapalhando na primeira prova, não conseguindo terminá-la e não tirando uma nota muito boa, o que a deixou muito triste, pois se preocupa com o histórico escolar, que sempre o teve com notas altas e pretendendo num futuro próximo conseguir bolsa para fazer intercâmbio. 

Fico angustiada em vê-la entrando madrugadas adentro, fazendo trabalhos, maquetes, não se alimentando direito, dormindo muito pouco e não poder ajudá-la.

Também teve uma certa dificuldade com a cadeira de cálculo ficando também com uma nota não tão boa. 

Não rodou em nenhuma cadeira, porém deseja melhorar suas notas, pensou em consultar com um psicólogo pois anda muito irritada por não saber administrar o tempo com trabalhos, estudo para as provas.

Gostaria se possível da tua opinião quanto a como orientá-la.

Passei teu blog para ela ver, ela achou muito bacana.

Desejo que Deus continue te abençoando com muita saúde, luz. 

Abraço, 

Elisa"

Nossa resposta, compartilhada com você:

Prezada Elisa,

Agradeço as palavras de carinho pelo meu trabalho relacionado ao blog, que há muitos anos escapou da proposta original, que era apresentar os meus projetos.

Com relação ao seu questionamento, fique tranquila e tranquilize sua filha. O que ela está passando na faculdade de Arquitetura é exatamente o que muitos estudantes enfrentam nos primeiros anos do curso.

Uma coisa é tirar notas boas no colegial, feito em meio período, outra é conseguir repetir o feito na universidade, que por isso mesmo recebe o nome de universidade, pois tem um universo de conhecimentos circulando pelo campus e pelas cabeças dos alunos.

Eu mesmo passei por isso e fiquei triste com algumas notas baixas no primeiro semestre. Também tive dificuldade em cálculo diferencial, até que percebi algo importante, fazendo duas comparações da faculdade com um campeonato de Fórmula 1.

A primeira é que um piloto, para ser o campeão do ano, não precisa ganhar todas as corridas: seu carro pode ser muito bom em pistas de longas retas, mas ser apenas regular em circuitos travados de rua. O importante é marcar pontos nas provas mais difíceis e debulhar nas pistas mais favoráveis.

Então veio veio a segunda e mais importante constatação: nós, enquanto alunos, não estamos competindo uns contra os outros, pois o objetivo comum é que todos se formem com honras. A competição, para valer, acontece lá fora e, acredite, nenhum cliente vai perguntar as notas que sua filha tirou na faculdade.

Sua filha será competitiva no mercado de trabalho se tiver uma boa base na faculdade e reunir atributos que não se ensinam nas universidades, como relacionamento interpessoal e noções de administração do escritório e da própria carreira.

Em suma: saber captar o cliente e depois saber apresentar o projeto é tão fundamental como saber desenvolver o trabalho dentro do escritório. Para tanto, ter jogo de cintura é mais importante do que ser perfeccionista.

Arquiteto 1.0: um bom livro é um investimento para a vida.
Arquiteto 1.0: um bom livro é um investimento para a vida.

No mais, recomendo a leitura do livro "Arquiteto 1.0 - Um manual para o profissional recém-formado" que escrevi em parceria com o professor Ênio Padilha, disponível para encomenda em vivalendo.com

Atenciosamente,
Jean Tosetto - Arquiteto

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