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A relação dos condomínios e loteamentos fechados com a história e o urbanismo de Paulínia

Rua deserta entre dois loteamentos fechados em Paulínia.
Rua deserta entre dois loteamentos fechados em Paulínia.

Entrevista concedida pelo arquiteto e urbanista Jean Tosetto para Laura Peternela, estudante de jornalismo da PUC de Campinas, a respeito de Paulínia ser considerada uma cidade dormitório. Uma conversa franca sobre urbanismo, planejamento, cultura e história da cidade de Paulínia, na região de Campinas, interior de São Paulo. Confira a transcrição editada do vídeo gravado em 25 de novembro de 2019:

- A grande quantidade de condomínios fechados em Paulínia tem influência direta para que a cidade se torne uma "cidade dormitório"?

O primeiro ponto a deixar claro, é separar o que é o condomínio do que é loteamento fechado. Tirando os edifícios de apartamentos, a maior parte dos condomínios residenciais, na verdade, são loteamentos fechados. Qual é a diferença? É que o condomínio é uma área privativa em 100%, até o arruamento e as praças internas são particulares. Já o loteamento fechado é uma concessão da prefeitura, para controlar acesso.

A diferença para quem mora em condomínio é que a casa do condomínio é uma fração ideal de uma área grande, e no loteamento fechado a pessoa é dona da própria casa e tem a própria matrícula do lote. A rua, teoricamente, é pública. Qualquer pessoa que se apresenta na portaria poderia frequentar o loteamento fechado. Isso não acontece na prática, mas é uma concessão que a prefeitura faz e que, a qualquer momento, ela pode retirar.

Agora, dizer que os condomínios e loteamentos fechados são esteio para a cidade de Paulínia ser uma cidade dormitório, eu não vejo dessa forma. Isso é um reflexo de Paulínia já ser uma cidade dormitório, desde a sua origem. Não é porque tem condomínio e loteamento fechado em Paulínia que Paulínia virou cidade dormitório: é pelo fato de Paulínia ser uma cidade dormitório que o município atraiu esses empreendimentos.

- Você acredita que o número de áreas de lazer e outros estabelecimentos na cidade têm diminuído como consequência do foco na construção de moradias?

Paulínia possui diversas áreas de lazer e áreas de cultura já construídas. Qual é o grande problema? A prefeitura não está fazendo a manutenção desses espaços. A gente pode dividir isso na conta da incompetência ou na conta da corrupção. Infelizmente, nessa parte, não posso opinar, porque é dever do Ministério Público fazer a investigação para dizer se realmente teve corrupção nesses anos todos de abandono.

A verdade é que hoje, em Paulínia, você não tem muitas opções de lazer porque você não tem acesso ao espaço. O antigo zoológico de Paulínia está com acesso vetado. O ginásio de esportes está comprometido e precisa de reforma. O ginásio do João Aranha precisa de reforma. O Parque dos Trabalhadores está vetado para uso da população e as piscinas estão abandonadas. A biblioteca de Paulínia não é frequentada.

Então, esse não é um problema dos loteadores. Esse é um problema de gestão pública que não afeta só os moradores de condomínios e loteamentos fechados, mas toda a população, que deve cobrar a efetiva liberação para uso público. Isso não pode ser colocado na conta dos empreendedores.

O que os empreendedores fazem? Eles querem ter um empreendimento que seja atrativo para quem vai morar. O que chama atenção no loteamento fechado ou no condomínio? Existem regras e as pessoas que vão morar no loteamento fechado aceitam essas regras, e uma fiscaliza o cumprimento em relação ao vizinho.

No loteamento aberto as regras também existem, mas o que acontece no loteamento aberto? Infelizmente não tem fiscalização por parte do poder executivo. Paulínia tem quatro ou cinco fiscais: todos eles cabem num Fiat Uno. Eles são esforçados, só que eles não conseguem cobrir toda a demanda que existe.

Então, você mora no loteamento aberto e o seu vizinho resolve abrir uma lanchonete na garagem de casa. Teoricamente não pode: só pode ser uma residência ali, mas ele vê que não acontece nada e no próximo domingo juntam pessoas para ir na lanchonete. O outro vizinho fica aborrecido, vai na prefeitura e a prefeitura não toma providência. No outro dia, o outro vizinho pensa: “Se ele montou uma lanchonete aqui, eu vou montar uma marcenaria”. Ele começa a fazer barulho. Então, no outro dia, aparece um muro pichado.

As pessoas acabam sendo empurradas para o loteamento fechado. Você passa a portaria dele e existe um ordenamento, que seria a cidade ideal. A cidade é idealizada lá dentro. Esses empreendimentos também tem áreas de lazer privativas, mas é interessante notar: eu como arquiteto, visito os loteamentos e as pessoas acabam não usando essas áreas de lazer privativas. Elas acabam buscando o lazer na própria casa. A gente faz projetos e muitas pessoas pedem a piscina no quintal. Elas valorizam muito a varanda gourmet, que é um espaço que fica ocioso a semana inteira, mas teoricamente no domingo a família vai lá.

Então, mais uma vez, não é uma coisa relacionada com o fato de ter loteamento fechado que inibe as áreas públicas de Paulínia, que já tem várias. As que estão abertas funcionam bem. No Parque Zeca Malavazzi, o que é curioso notar? Você vai passear no domingo e presta atenção nas placas dos automóveis: poucos são de Paulínia. A maior parte é de Sumaré e Hortolândia porque lá, sim, está faltando o equipamento público de lazer. Então a pessoa vem fazer o lazer em Paulínia.

Para você entender o que é uma cidade dormitório: as pessoas vão trabalhar onde? Em Campinas e São Paulo, que são os polos de atração das pessoas. Só que, por alguma razão, elas também não querem morar nesses grandes centros.

- Na sua opinião o número de condomínios tende a aumentar ainda mais?

Essa é uma tendência irreversível, no meu entendimento. Temos que entender que o mercado imobiliário é regido por ciclos econômicos. Existe o ciclo econômico do mercado financeiro também. Esses ciclos são alongados: duram cinco, seis, sete anos.

Na verdade, Paulínia passou por um ciclo de baixa, que coincidiu com a recessão econômica do país. Paulínia teve um grande crescimento nos condomínios entre 2007 e 2013, depois interrompeu um pouco e agora está com indício de retomar. Nos próximos anos deve ter alguns lançamentos e depois vai estacionar um pouco.

O que acontece, também? A gente tem que pensar na origem de Paulínia, que poucas pessoas sabem que era uma região que tinha fazendas de café. Você tinha uma estrada de ferro chamada Funilense. Ela saia de Campinas, a partir da Estação Mogiana, e chegava até a região de Conchal.

Os fazendeiros de café eram muito ricos. Eles financiaram a própria estrada e as estações em cada fazenda deram origem aos distritos e cidades nesse alinhamento. Então, você tem o distrito de Barão Geraldo em Campinas. Barão Geraldo era um fazendeiro de café. Você tem Paulínia, que era a fazenda de José Paulino. João Aranha tinha uma estação de trem, também. Mas onde estão as estações? Elas foram demolidas.

A emancipação de Paulínia, nos anos de 1960, coincidiu com o desligamento dessa estada de ferro. Eles começaram a tirar os trilhos da Avenida José Paulino naquela época. O que fizeram com a estação ferroviária? (Que ali era o ponto central da cidade. O marco zero de Paulínia é a estação de trem.) Eles demoliram e aí fizeram uma pequena estação rodoviária no lugar. O que aconteceu com essa estação rodoviária, depois? Ela foi demolida. Se você vai naquele lugar, hoje, que você vê lá? Um estacionamento improvisado e um ponto de ônibus improvisado, no marco zero de Paulínia. Então, Paulínia nasceu sem identidade cultural.

O primeiro ganho populacional de Paulínia foi com a implantação da refinaria de petróleo. Paulínia virou uma cidade dormitório basicamente de quem construiu e começou a operar a refinaria. Tinha três classes nessa época: a classe dos funcionários que recebiam salários maiores morava em Campinas, a classe média da Replan veio morar em Paulínia e os operários que ganhavam menos foram morar em Cosmópolis.

A Avenida José Paulino é comercial, hoje, mas é uma avenida improvisada para o comércio. Ela era uma avenida residencial que aos poucos foi se tornando uma avenida comercial, sem estrutura de transporte coletivo.

A maioria das cidades que têm identidade cultural, essa identidade é relacionada ao que, basicamente? A uma missão católica. Em quase todas as cidades do interior, o ponto zero delas é a igreja matriz e a praça. Em Paulínia não tem isso, porque a matriz de Paulínia não é no marco zero da cidade. A matriz de Paulínia foi construída depois. A igrejinha junto da origem de Paulínia é a igreja de São Bento e poucas pessoas sabem disso, porque a praça que tem na frente é o canteiro central da avenida onde passava a linha de trem. Porém, você não tem nenhum pé de café para contar a história.

Aí você chega no ponto que os prefeitos mais recentes (os megalomaníacos, vamos falar assim) fizeram um teatro majestoso em Paulínia. E olha que engraçado: o teatro de Paulínia dá as costas para a maior parte da cidade. Ele foi feito numa avenida onde é mais fácil você morar no Alphaville (em Campinas) e chegar no teatro de Paulínia, do que você morar no Marieta Dian (em Paulínia) em chegar no teatro de Paulínia. Então, a identidade cultural de Paulínia também se perdeu, mesmo com esse projeto majestoso. Para reverter isso é um processo de longo prazo.


A fachada do Theatro Municipal de Paulínia é voltada para a sede da Prefeitura. Ambas as edificações estão numa avenida de fácil acesso para outras cidades, como Campinas, Sumaré e Hortolândia.
A fachada do Theatro Municipal de Paulínia é voltada para a sede da Prefeitura. Ambas as edificações estão numa avenida de fácil acesso para outras cidades, como Campinas, Sumaré e Hortolândia.

- Como esse número (de empreendimentos) pode afetar pessoas que não tem condições de morar em condomínios fechados? Pode levar a marginalização de uma parte da cidade?

O reflexo de você ter vários loteamentos fechados e condomínios, todos eles murados ou cercados (você tem até dois loteamentos fechados onde um é vizinho do outro e a rua central é deserta, porque são duas fortalezas), é uma discrepância social, com certeza.

Mas esse fenômeno não pode ser visto isoladamente, em Paulínia. Tem que puxar na região de Campinas para compreender o contexto. Se você observar os bairros centrais de Campinas, como Botafogo e Guanabara, eles foram muito povoados nos anos de 1970 e as pessoas foram deixando essas áreas centrais, primeiro para morar nos loteamentos fechados de Campinas e depois que estes ficaram preenchidos, foram para Valinhos e Vinhedo. E elas acabam vindo para Paulínia. Se você passar de carro, hoje, no Guanabara e no Botafogo, você verá muitas casas vazias, muitas casas para vender, muitas casas para alugar e algumas casas virando comércios ou clínicas.

O que aconteceu? Campinas não tem a arrecadação que tem em Paulínia. Campinas não tem uma refinaria de petróleo. O que eles fizeram nos últimos anos? Aumentaram muito o IPTU. Isso foi expulsando a classe média de Campinas para outras cidades e Paulínia recebeu muita gente de Campinas neste processo.

Quem não pode ir morar no loteamento fechado, acaba se sujeitando a morar na periferia de Paulínia, nos loteamentos abertos. O que acontece muito em Paulínia? Num lote que só pode construir uma casa, por lei, as pessoas acabam construindo duas casas, às vezes três casas. Mas existem cortiços com quatro casas num lote e as famílias vão se aglomerando nessas regiões. E como não tem aquela infraestrutura planejada, isso é propício para a marginalização, primeiro do ambiente urbano e depois do comportamento das pessoas.

Aí você tem dificuldade de fiscalizar e a polícia tem dificuldade para fazer o policiamento. Não é por acaso que, nos bairros mais afastados de Paulínia, os índices de criminalidade estão aumentando. E não só na periferia, pois eles acabam indo para o centro, também. É uma questão complexa.

- De que maneira a quantidade de condomínios pode afetar o comércio local?

O que acontece com quem mora em condomínio ou loteamento fechado? São pessoas que dispõem de carro. O carro é visto, hoje, como vilão da sociedade – eu não vejo assim. Mas muitas pessoas que tem carro podem escolher onde vão consumir. E aí acontece outra coisa: a concorrência do Shopping Center com o comércio de rua.

Você vai num Shopping Center, é tudo organizado: tem estacionamento, tem uma pseudo segurança, tem um clima controlado pelo ar condicionado e as lojas que respeitam o gabarito. E no comércio de rua, seja em Campinas, seja em Paulínia, você tem dificuldade para estacionar carro, você tem sol e chuva interferindo no deslocamento dos pedestres, você não tem uma estrutura de transporte coletivo que facilite. Você tem um improviso na cidade: a cidade não é planejada, a cidade é improvisada.

Então, isso colabora para as pessoas procurarem por Shoppings de Campinas, principalmente, mas também em outras cidades da região.

- Existe a possibilidade de Paulínia não se tornar uma cidade dormitório? Quais medidas ou projetos urbanos poderiam ser implantados para que isso não ocorra?

A gente tem que, nesse sentido, resgatar a história do Império Romano. Qual era o ditado, antigamente? “Todos os caminhos levam à Roma”. Por que Roma construiu um Império? Porque ela fazia trocas comerciais frequentes.

Então, qual é o problema de Paulínia? Paulínia tem as grandes indústrias, como a refinaria e a Rhodia. A Rhodia também tinha uma vila de moradores própria, depois ela desligou essa vila. Mas você tem que fortalecer o comércio de Paulínia e estruturar novos vetores de crescimento.

Retomando, qual é o grande problema de Paulínia? É uma cidade cortada pelo o Rio Atibaia. Isso, por si só, não é um problema. O problema é que só tem uma ponte integrando o centro de Paulínia com a região do João Aranha, e esse vetor, que já está completamente preenchido, está improvisado e congestionado.

Você precisaria ter mais duas pontes ligando o centro de Paulínia com região do João Aranha, e a partir dessas duas pontes – não só para carros, mas prevendo o transporte coletivo, como trem e metrô – você estruturaria dois eixos novos com planejamento para a instalação de comércios e mesmo indústrias. Dessa forma você conseguiria segurar a população na cidade e atrair a população para consumir dentro do próprio município.

O segundo ponto é que Paulínia precisa melhorar a integração com as cidades vizinhas, porque isso também é benéfico para todas as cidades. Se você olhar hoje, Paulínia tem uma ligação muito boa com Campinas e uma ligação boa com Sumaré. Mas em Americana, que é uma cidade importante e vizinha de Paulínia, você tem uma estrada vicinal precária para chegar lá, praticamente intransitável.

O outro absurdo: você tem Paulínia fazendo divisa com Jaguariúna, na ponta do Circuito das Águas, que é uma região turística importante de São Paulo. E os rios que passam no Circuito das Águas se encontram onde? Na divisa de Paulínia com Cosmópolis, na Fazenda do Funil – eles formam o Rio Piracicaba. E você não vê Paulínia explorando esse lado turístico.

O que falta entre Paulínia e Jaguariúna? Uma estrada asfaltada. Essa estrada já existe: é uma estrada de terra e há muitos anos a prefeitura colocou um portão nela, para bloquear o tráfego de automóveis. Então, você teria uma ligação de Paulínia com Jaguariúna, sem pedágio, na ponta do Circuito das Águas. Olha o fluxo de pessoas que iria favorecer um novo vetor de crescimento na cidade...

Então, Paulínia tem que olhar para a própria cidade e tem que olhar para as cidades vizinhas. Você precisa de políticos com essa visão de planejamento. Infelizmente, isso falta na nossa cidade: as pessoas têm um foco distinto quando elas querem se eleger como prefeito ou vereadores, elas querem resolver demandas pessoais, na maioria das vezes. Elas não pensam na cidade como um todo e não pensam no longo prazo.

Paulínia não tem uma elite intelectual pensante. Paulínia tem alguns radicais livres que não atuam em conjunto para influenciar nesse processo, infelizmente.



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Por que o brasileiro gosta tanto de imóveis?

Família de colonos gaúchos e suas posses na região de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, em fotografia de 1974, sem autor conhecido, pertencente ao acervo do arquiteto.
Família de colonos gaúchos e suas posses na região de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, em fotografia de 1974, sem autor conhecido, pertencente ao acervo do arquiteto.

Comprar a casa própria ou investir no mercado de capitais? Esta dúvida volta e meia cerca os investidores e os educadores financeiros. Sem impor vereditos, é preciso compreender os motivos que levam as pessoas a valorizar ativos palpáveis.

Por Jean Tosetto *

A cada dia mais brasileiros descobrem os benefícios de investir em renda variável, através da Bolsa de São Paulo que, entre diversos tipos de aplicações, permite ao investidor individual comprar ações de empresas de capital aberto e cotas de fundos imobiliários.

Um grande esforço está sendo empregado por parte de educadores financeiros que, através de cursos, livros e principalmente vídeos no YouTube, professam as vantagens de investir no mercado de capitais ao invés de confiar as economias ao sistema bancário tradicional e mesmo ao mercado imobiliário.

Neste ponto, ainda existe uma grande resistência por parte do brasileiro médio (que consegue poupar para investir), em migrar seus recursos empregados nos imóveis para os ativos do mercado financeiro.

Em um de seus vídeos, Tiago Reis, fundador da Suno Research, conversa com Jacinto Santos, especialista em fundos imobiliários e editor do site Funds Explorer.



A questão que vale um milhão

Ele propõe a seguinte situação: se alguém tivesse um milhão de reais disponíveis para investir e as alternativas fossem comprar a casa própria ou montar uma carteira de fundos imobiliários, para receber os rendimentos mensais, morando num imóvel alugado; o que seria melhor?

Reis e Santos demonstram, por “A” mais “B”, que comprar cotas de fundos imobiliários, receber os rendimentos mensais e usar parte deles para pagar aluguel é a solução correta para o dilema apresentado.

A ressalva para os argumentos da dupla é que eles compõem uma “análise fria, desapaixonada e meramente financeira”. Sob este aspecto, sim, eles estão cobertos de razão. Só tem um problema: o brasileiro, assim como todo cidadão latino-americano, não toma decisões puramente frias e desapaixonadas.

O brasileiro é apaixonado

Para o bem da verdade, nenhum povo do mundo, incluindo aqueles que vivem na Europa Setentrional, é formado por gente que toma decisões puramente racionais. O ser humano é um animal essencialmente emocional. Ocorre que o lado emocional é mais forte em povos de origem latina e, especialmente, entre os brasileiros.

Não é por falta de educação financeira que o brasileiro gosta dos imóveis: é por causa de costumes enraizados no processo de miscigenação que formou um povo e uma nação.

Se compreendermos as origens dessa mistura, encontraremos a chave que explica a predileção dos brasileiros por adquirir a casa própria antes de investir em outras frentes.

A nação brasileira é composta basicamente por imigrantes de todos os continentes. Os índios nativos, atualmente, respondem por uma fração pequena da nossa população. Os primeiros a chegarem aqui foram os portugueses e espanhóis, ainda no século XVI. Depois vieram os africanos que, infelizmente, aportaram em terras brasileiras como escravos.

Após a abolição do trabalho escravo, uma grande leva de imigrantes italianos, alemães e de outras regiões da Europa, veio para o Brasil no fim do século XIX, mediante promessas de terras acessíveis e pela possibilidade de ascensão social. Na sequência, vieram povos do Oriente Médio e da Ásia.

A vida não era fácil na origem e no destino

Como era o cotidiano desses imigrantes em suas regiões de origem, uma vez que o próprio conceito de país estava sendo reorganizado naquele tempo?

Em geral, era uma rotina difícil e baseada num sistema econômico agrícola falido, entre aqueles que não aderiram precocemente aos avanços da Revolução Industrial – uma das razões pela qual os poucos ingleses que vieram para o Brasil, durante o auge do ciclo do café, se concentraram na construção e manutenção de ferrovias.

Enquanto Itália e Alemanha se unificavam tardiamente, por exemplo, boa parte da população passava fome, cultivando tradições feudais ultrapassadas, diante do fracionamento extremo das terras voltadas para a Agricultura.

O patriarca de uma família tinha um pedaço de terra e, para viver dela, era incentivado a ter um grande número de filhos, pois estes lhe ajudariam na lavoura. Quando o chefe da família morria, sua terra era dividida entre os herdeiros. Após sucessivas gerações este sistema entrou em colapso, empurrando um grande contingente para a mendicância ou para o trabalho como meeiro.

Novo continente – velhos costumes

Logo, quando países do mundo novo como Canadá, Estados Unidos, Austrália, Argentina e Brasil acenaram para os europeus com grandes quantidades de terra ou mesmo doações para aqueles dispostos a desbravar territórios; muita gente não pensou duas vezes.

 “Fazer a América” significava vencer na vida e isso passava por adquirir terra nova que, em última instância, são imóveis. Em suma, o Brasil só foi ocupado integralmente em função da replicação do sistema de divisão de terras entre herdeiros.

Colonos gaúchos migraram para o norte do Paraná, para que seus filhos pudessem ter as próprias colônias. Isso se repetiu com a ocupação do Mato Grosso (do Sul e do Norte) e ainda vemos os últimos resquícios dessa prática em Rondônia, no limiar da Amazônia, que atualmente é a última fronteira de expansão do país.

Com a urbanização e a industrialização tardia da economia brasileira, acentuada após a Segunda Guerra Mundial, o país viveu o êxodo rural, que afetou principalmente os estados da Região Nordeste.

Um teto é como um pódio

Para o sofrido povo nordestino, ir para São Paulo ou Rio de Janeiro, conquistar a casa própria e depois melhorar as condições de vida de quem ficou no sertão, era o novo significado de vencer na vida.

Mais do que uma obsessão, morar sob o próprio teto era uma questão de honra: uma prova de que o emigrante que veio para o Sul é um vencedor.

Neste processo, muita gente foi além, construindo imóveis para alugar e obter renda extra ou mesmo renda integral. Muitos destes empreendedores não querem saber de investir dinheiro por meio da Bolsa e educam seus filhos para trilhar o mesmo caminho.

Vale lembrar que o moderno sistema financeiro nacional só foi implantado no final da década de 1960, incluindo as novas Bolsas de Rio de Janeiro (já fechada) e São Paulo (a B3 atual). Em termos históricos, este meio século é muito pouco tempo se comparado com as centenas de anos predecessores, nos quais o investimento considerado mais seguro era comprar terras e tijolos.

Não há como ser taxativo e dizer que aqueles que ainda pensam assim estão errados, pois eles apenas respeitam suas origens que, por sua vez, tem muito peso na formação de seus perfis de investimento.

Autoconhecimento: essencial para o sucesso

A partir do momento que compreendemos que somos movidos por emoções que interferem em nossas razões, teremos mais condições de dosar a sua influência em decisões tão importantes, como as que envolvem grandes somas de dinheiro.

Neste ponto, voltamos ao dilema proposto por Tiago Reis e Jacinto Santos, sobre usar um milhão de reais para comprar a casa própria ou investir em fundos imobiliários.

Já sabemos que a análise puramente racional recomenda o investimento nos fundos imobiliários e que uma decisão baseada apenas no lado emocional levaria o dono do dinheiro a comprar a sua casa.

Os argumentos financeiros usados na questão afirmam que imóveis residenciais alugados rendem, em média, 0,4% ao mês, ao passo que fundos imobiliários conservadores entregam até 0,65% ao mês na forma de rendimentos.

Logo, um milhão de reais empatados numa casa alugada custariam R$ 4.000 para o inquilino, ao mês. Já uma carteira de fundos imobiliários, com o montante de um milhão de reais aplicados, tenderia a entregar R$ 6.500 para o cotista, havendo um saldo positivo de R$ 2.500 por mês.

O ponto central seria o ponto de equilíbrio?

E se pudéssemos encontrar o caminho do meio, entre a razão e a emoção?

Por exemplo, ao invés de comprar uma casa de um milhão de reais, o investidor poderia comprar um terreno e construir uma casa nova, destinando, neste processo, apenas R$ 500 mil. Com os outros R$ 500 mil ele formataria uma carteira de fundos imobiliários que lhe renderia cerca de R$ 3.250 por mês, ou seja, R$ 750 por mês a mais do que se ele estive apenas investido em fundos imobiliários e pagando aluguel. Estamos falando de R$ 9.000 a mais, por ano.

Porém, há um detalhe importante nesta história: uma casa nova vale, em média, cerca de 30% a mais do que a soma do preço do terreno com o custo da construção. Logo, o patrimônio imobiliário não seria apenas de R$ 500 mil, mas de R$ 650 mil que, somados com os R$ 500 mil investidos em fundos imobiliários, totalizam R$ 1.150.000.

Este cenário é plenamente realizável em cidades de porte médio no interior ou em cidades vizinhas de grandes capitais, ofertando um bom padrão de vida para o proprietário do imóvel, que poderia ter seus 150 m² de área construída num loteamento ou condomínio bem localizado.

Nada mal para quem mesclou emoção com razão, não é mesmo?

Várias respostas – isso é bom

Mais uma vez, não podemos ser taxativos. Não existe certo ou errado nos investimentos. O que existe é o perfil de cada investidor que deve ser respeitado. Ser radical nestas questões não costuma produzir bons resultados.

De certo, mesclar investimentos nos mercados financeiro e imobiliário pode ser uma estratégia inteligente, desde que o investidor saiba o que está fazendo.

Você pode argumentar: “Pô, Jean! Você é arquiteto. Está puxando a sardinha para o seu lado”.

Serei forçado a concordar que a minha experiência profissional influencia diretamente o meu modo de pensar. Porém, sobre colher os benefícios dos dois tipos de mercado (financeiro e imobiliário), eu conversei com a Alice Porto, a Contadora da Bolsa, sobre o assunto. Você pode conferir o vídeo no canal dela.


A propósito: você já leu o livro da Alice Porto? “101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável” está disponível como e-book na Amazon. 

No mais, toda decisão é pessoal. Cada uma toma a sua. Conselhos são bons, mas não são mandamentos.

* Jean Tosetto é arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

Veja também:

Artigos de Jean Tosetto publicados no site da Suno Research
Lei da Assistência Técnica: CAU atenta para demanda apontada por "Arquiteto 1.0"
O que podemos aprender com os Shoppings?

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Multipotencialidade: você ainda vai precisar dela

Multipotencialidade: você ainda vai precisar dela

No período da Renascença, grandes artistas transitavam pela Arquitetura, Escultura e Pintura com notável desempenho. A Revolução Industrial fez surgir o profissional especialista. Agora, pessoas dotadas de múltiplos potenciais voltam a ser valorizadas.

A jovem Camila, do Rio de Janeiro, escreve para o Professor Ênio Padilha em 03 de fevereiro de 2017:

"Olá Professor Padilha! Tudo bem?

Vim pedir um conselho para você nesses tempos difíceis.

Tenho 26 anos, me formei em engenharia civil em abril de 2014, pela Universidade Estadual do Maranhão. Logo que recebi o diploma vim para o Rio de Janeiro cursar engenharia urbana que era meu grande sonho. Estou na fase final do curso. Nesse tempo que moro no Rio, tentei vagas de trabalho de diversas formas, mas sempre me falavam que, com a crise, não estavam contratando. 

Como minha rede de contatos aqui é pequena, sempre lutei muito para conseguir alguma coisa, e-mail, telefone de empresas, contatos... Hoje estou passando por momentos bem complicados, tenho ajuda financeira dos meus pais, mas essa situação não me deixa confortável. Em abril, se nada conseguir no Rio, passarei um tempo em São Paulo, à procura de trabalho. Mas não tenho muitas esperanças, devido a falta da rede de contatos lá e pela crise que ainda deixa sequelas. 

Tenho consciência das minhas qualificações e aptidões, gostaria muito de trabalhar com urbanização de favelas. Há um tempo, entrei em contato com uma arquiteta que tem um projeto de reforma habitacional em uma favela do Rio. Trabalhei em uma dessas reformas com ela, realizando projetos de engenharia. A reforma ainda não aconteceu, pois ainda não houve captação de recursos por parte do grupo financiador. Ela disse que ainda precisará de mim para continuação da obra, mas é tudo muito demorado e sem datas estipuladas.

Eu estou em busca de alternativas, entrei em contato com empresas que trabalham com outros ramos da engenharia urbana. São empresas de reciclagem e reutilização de materiais, área que gosto bastante. Sou muito empenhada em estudar questões de sustentabilidade.

Recentemente fiz um curso de bioconstrução com dois arquitetos que trabalham na área. Foi muito importante esse contato com eles, pois pude confirmar uma característica minha muito forte: a de querer construir de forma sustentável e com contribuição social. Mas não sei como fazer isso, pois não vejo oportunidades.

Estou em exaustão na procura por trabalho em todas as áreas. Não tem vagas ou não respondem.
Na área do empreendedorismo, me falta ter acesso aos locais onde gostaria de atuar e não acho pessoas que queiram participar. Precisaria de uma arquiteta ou arquiteto para realizar alguns dos projetos.

Se você puder me aconselhar de alguma forma eu agradeço muito, estou perdendo as esperanças de continuar na engenharia e sem perspectivas."

A resposta do Professor Ênio, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, no dia 12 do mesmo mês:

"Prezada Camila

Estou encaminhando seu e-mail para o arquiteto Jean Tosetto, autor do livro ARQUITETO 1.0 -talvez ele possa ajudar com a sua dúvida."

Nosso complemento, no dia seguinte:

Camila, bom dia

Uma das qualidades que todo profissional deve ter, independente do ofício, é a capacidade de fazer a leitura do mercado de trabalho, e se posicionar antecipadamente, de acordo com o cenário a se apresentar.

Quando você ingressou na faculdade de Engenharia Civil, o mercado imobiliário estava aquecido e ensinavam para os mais jovens que eles deveriam buscar uma especialização para poder se destacar perante os demais e, de fato, com a grande demanda por engenheiros e arquitetos, aqueles que tinham conhecimento específico em determinada área tendiam a ganhar mais.

Neste momento, em que você tem poucos anos de formada, a economia brasileira está no meio de uma recessão profunda e o mercado imobiliário está quase congelado. Ainda assim existem oportunidades de trabalho, mas para pessoas com outro perfil: não mais o especialista, mas o dono de potenciais diversos. Os italianos chamam esse profissional de "Multipotenziale". Se puder, leia este breve artigo.

Neste ponto, você está bem posicionada: poucas faculdades formam alunos com tanta capacidade para ser "multipotenciais" quanto Arquitetura e Engenharia Civil. O que desejo afirmar com isso? Talvez não seja o momento adequado para você buscar especialização em Bioconstrução, se o mercado está valorizando aqueles que, além de noções de cálculo estrutural, hidráulica e elétrica, sabem fazer maquetes, acompanham obras, falam inglês, sabem escrever, dominam a burocracia para aprovação de projetos legais e, se precisar, vão trabalhar com segurança do trabalho (esta sim, uma especialidade que continua valorizada no mercado de trabalho em geral).

Se mesmo assim você deseja seguir com a Bioconstrução, resgate os contatos que você já tem no ambiente universitário - aqueles professores que lembram que você foi uma ótima aluna. Peça para eles te colocarem em contato com professores de alguma universidade paulista, para os quais você pode apresentar uma proposta para tese de mestrado em Bioconstrução que lhe renda uma bolsa da Fapesp. Será um caminho árduo? Sim, mas você terá uma renda para estudar e ser uma profissional valorizada quando o mercado imobiliário reaquecer, dentro de alguns anos.

Atenciosamente,
Jean Tosetto 

O retorno da Camila, em 02 de março de 2017:

"Olá Ênio e Jean!

Muito obrigada pelos conselhos. Me ajudou muito a refletir sobre onde posso chegar e as escolhas que devo fazer.

Vou analisar minhas opções e buscar oportunidades.

Suas palavras me deram muita esperança e vontade em continuar na carreira com muito gás!

Agradeço pela atenção!"


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O papel do Arquiteto como Urbanista

O Arquiteto não deve ser um coadjuvante no planejamento das cidades: como Urbanista, sua atuação é fundamental.

No meio acadêmico as metáforas esportivas são refutadas, e o mesmo se aplica na correspondência entre filósofos que se prezam. Como não somos catedráticos e sequer temos a pretensão de nos expressar feito epicuristas ou estoicos, vamos recorrer ao futebol - esse desporto coletivo tão apaixonante - para ilustrar a correspondência que segue logo mais.

Quem já correu atrás de uma bola sabe que, por vezes, recebemos um passe perto da área, com grandes chances de chutar direto para as redes. Mesmo sem olhar para o lado, no entanto, sabemos que um colega do time vem correndo, melhor posicionado, para marcar o tento. Então, rolamos a pelota redondinha e rasteira pela grama, para a conclusão vir de primeira. Eis um golaço.

Estudo de planejamento territorial desenvolvido pela Comurb.
Estudo de planejamento territorial desenvolvido pela Comurb.

No dia 21 de setembro de 2014 recebemos a seguinte mensagem de André Corrêa:

"Sou estudante do curso de Arquitetura do Centro Universitário Filadélfia - Unifil (Londrina - PR), e como parte da grade curricular, eu preciso fazer um trabalho sobre o desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos. O trabalho subdivide-se em duas partes:

1) Uma fundamentação teórica; essa parte, mesmo com bibliografia escassa, já vencida.

2) Percepção pessoal de um arquiteto.

Sendo assim, tomei a liberdade de entrar em contato justamente visando encontrar uma resposta (ou comentários) para essa segunda indagação, ou seja: qual é o papel do arquiteto no processo de desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos?

Desde já agradeço a atenção e colaboração."

No dia seguinte a resposta foi curta e esperançosa:

"Retransmito sua questão para o meu amigo Alan Cury, pois creio que ele possa responder com maior propriedade."

Mais um dia se passa, e o Alan não decepciona:

"Colegas, bom dia!

Jean, mais uma vez obrigado por sua lembrança e consideração.

André, você deseja um parecer por escrito, sobre a última questão? Se sim, vamos lá:

Qual é o papel do arquiteto no processo de desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos?

O Arquiteto tem por formação, a atribuição em Desenhar e Planjear as cidades, pela técnica do Desenho Urbano e Políticas Públicas de ordenamento do solo, como ferramenta de indução para que se alcance o planejado.

Tal pasta – o Planejamento Urbano é comumente confundido ou mal interpretado pelas administrações públicas, que  acabam por entender se tratar de uma questão econômica. Não é. Planejamento Urbano é muito mais que isso. Trata-se do entendimento completo de Cidade, e traçados indutores para alcançar aquilo que chamamos de “Cidade que Queremos”. Neste “Queremos”, está incluso o desejo social, o desenvolvimento sustentável, o equilíbrio econômico, a solução de mobilidade, saúde pública, lazer, cultura, enfim, Cidade.

Como em nosso país, as administrações municipais consomem todo seu recurso em pagamento de salários e insumos, não há recursos disponíveis para investimentos e melhorias. Desta forma, a construção das cidades é terceirizada à iniciativa privada, que licitamente busca extrair o melhor lucro possível. Antigamente, picar lotes e vender era simples e rápido, mas hoje não mais. O consumidor, de qualquer classe, é mais exigente. Desta forma, estamos vivendo uma transformação de realidades em novos loteamentos. Agora, são novas centralidades, com comércio, serviços, equipamentos públicos, segurança e saúde, além da habitação. Os chamados Bairros Planejados já são realidade em grandes centros, e começam a migrar por todo o Brasil, com preocupações inéditas, como o aproveitamento da água de chuva, a coleta de energia solar e eólica, o tratamento de efluentes, parques e jardins melhor dimensionados e assim por diante.

Onde entra o Arquiteto neste contexto? O Arquiteto é o Único Profissional Habilitado para coordenar e planejar tamanha diversidade de atividades, de forma a transformar uma porção de terra em uma centralidade complexa e funcional. Por traz do Arquiteto, são inúmeras as profissões que colaboram nesta empreitada. Todos trabalham em harmonia, como uma orquestra, onde o Arquiteto é o Maestro.

Como complemento à este e-mail, me apresento:


Alan Silva Cury - Arquiteto e Urbanista
Alan Silva Cury - Atual Presidente do Núcleo Regional Campinas e Conselheiro Superior Nacional do IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil, possui pós-graduação em Arquitetura e Projeto Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2005), onde também formou-se Arquiteto Urbanista (2001). É sócio-diretor da empresa privada de planejamento e desenho urbano Comurb SPU Ltda, fundada 1976. Ministra palestras relacionadas às atividades profissionais que exerce, em faculdades de arquitetura como PUC Campinas, UNIP, Unicamp, FAAP, Metrocamp, Veris-IBTA, Universidade São Francisco, e outras. Já participou como Arquiteto Convidado Externo, para dezenas de Bancas Finais de Graduação em diversas faculdades. Foi professor-convidado da Faculdade de Engenharia da PUC Campinas, para ministrar o curso de Desenho Arquitetônico.

Fraterno abraço, e bem-vindo à Arquitetura!"

Gol marcado, vamos correr para o abraço e anotar o serviço na súmula:

COMURB
Alan Cury
Comurb SPU Ltda
Rua Dr. Alexander Fleming, 746
Nova Campinas
Campinas – SP - CEP 13.092-140 - Brasil
Tel +55 (19) 3254 7933
www.comurb.com.br

Veja também:

Desenho Universal em foco no Guia da Construção do Estadão PME em 2012

Reprodução da capa da publicação.

O Guia do Estadão PME - Pequenas e Médias Empresas - da Construção é um anuário dos mais importantes do setor no Brasil, com a tiragem de 70 mil exemplares distribuídos em todo o território nacional, nas lojas e empresas do ramo da construção civil. Para 2012, a pauta de uma das matérias que antecedem a lista de anunciantes era sobre acessibilidade e desenho universal. Para elaborar o artigo, a jornalista Renata Bernardis entrou em contato com alguns profissionais com domínio sobre o tema. O arquiteto Jean Tosetto foi um deles. Em dezembro de 2011 ele concedeu uma entrevista e forneceu diversas imagens para a elaboração da reportagem. As respostas serviram de base para o texto final e, obviamente, não haveria espaço editorial para reproduzir todas as respostas na íntegra, que agora são publicadas neste site.


As rampas para cadeirantes em passeios públicos devem ser acompanhadas por faixa de pedestres e ter inclinação máxima de 8,33%.

1) O desenho universal é a palavra-chave para alcançar a acessibilidade? Por que?

A acessibilidade universal não é um conceito que pode se pensado e executado apenas com o pretenso bom senso ou com boa vontade. É preciso ter conhecimento específico e capacidade técnica para planejar e executar móveis, edificações e espaços urbanos que sejam acessíveis para o maior número possível de cidadãos. O estudo do desenho universal é a mola mestra que dá embasamento para a produção de normas técnicas, que depois serão exigidas por leis que, se devidamente fiscalizadas, trarão benefícios para toda a sociedade.

 2) O modo de projetar virou lei, mas é seguido? Quem segue? Quem fiscaliza? No Brasil todo? Desde quando?

No Brasil existem leis que pegam e leis que não pegam. Desde dezembro de 2004 todos os profissionais envolvidos com projetos de edificações – engenheiros, arquitetos e urbanistas – são obrigados a atender as Normas Técnicas de Acessibilidade da ABNT em obras de construção, reforma ou ampliação de espaços de uso público ou coletivo. Ficam de fora as residências unifamiliares.

A primeira etapa de fiscalização começa na aprovação do projeto nas prefeituras municipais. Aí acontece a primeira lacuna, num país de dimensões continentais, onde muitas prefeituras sequer possuem um engenheiro contratado para analisar os projetos. Porém, em muitos casos a fiscalização tem sido rigorosa, especialmente nas licitações públicas.

3) Quais são as leis? 

Existem duas Leis Federais – nº 10.048 de 8 de novembro de 2000 e nº 10.098 de 19 de dezembro de 2000 – que foram regulamentadas pelo Decreto 5.296 de 2 de dezembro de 2004, onde se que lê que elas estabelecem “normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.”

Com relação à normas técnicas, a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas - lista 19 NBRs relacionadas direta ou indiretamente com pessoas portadoras de necessidades especiais, das quais se destaca a NBR 9050 – Acessibilidade a Edificações, Mobiliário, Espaços e Equipamentos Urbanos.

4) Quais são os parâmetros estipulados em normas e que podem ser discutidos, cobrados pela sociedade e fiscalizados pelas autoridades?

O problema com as normas técnicas no Brasil, é que elas são desenvolvidas por uma entidade de direito privado que naturalmente não as disponibilizam gratuitamente ao público, dificultando a disseminação deste tipo de conhecimento para a maior parte da população. Por isso o Ministério Público propôs um termo de ajustamento de conduta para publicar as normas relativas a acessibilidade universal na Internet.

A principal fiscalização é feita pelo próprio cidadão, desde que ele tenha conhecimento das normas. Por exemplo, se um cadeirante ingressa numa loja, pede para usar um sanitário e se vê impedido de fazer isso, ele pode fazer uma denúncia formal ao Ministério Público, que a princípio convocará, para prestar esclarecimentos, o escritório que projetou a loja, a prefeitura que aprovou o projeto, a construtora responsável pela obra, e finalmente o proprietário da edificação. Se o arquiteto demonstrar que fez o projeto corretamente e a prefeitura consequentemente aprovou o projeto, ambos serão notificados por não terem fiscalizado a construção. Já o empreiteiro e o dono do imóvel se encontrarão numa situação mais difícil. De todo modo, outro termo de ajustamento de conduta será feito, estipulando um prazo razoável para a correção da demanda.

Motociclista usa a rampa para estacionar - a população brasileira ainda precisa se conscientizar sobre o direito de acessibilidade de terceiros.

A comunicação entre ambientes internos e externos deve ser livre de degraus – o acabamento dos pisos deve ser anti-derrapante.

5) O governo pode ser exemplo a ser seguido? Ele tem dado esse exemplo?

Em linhas gerais, tanto os governos nas três esferas – municipal, estadual e federal – quanto a iniciativa privada, estão praticamente no mesmo estágio em relação à acessibilidade universal. O que existem são exemplos pontuais, que aos poucos vão se multiplicando, e torcemos para que este processo se acelere cada vez mais. Poderíamos citar as estações do metrô de São Paulo como uma iniciativa pioneira que, antes de qualquer promulgação de lei, já se preocupava com esta questão. Aliás, a cidade de São Paulo foi a primeira capital brasileira a criar uma CPA – Comissão Permanente de Acessibilidade. Na cidade catarinense de Blumenau, temos o centro urbano remodelado já há mais de 10 anos, levando em conta vários princípios de acessibilidade.

E mais recentemente, há menos de um ano, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos promoveu um programa de reforma, adequação e padronização das agências franqueadas, exigindo o total respeito à acessibilidade universal. Tive inclusive a oportunidade de trabalhar em dois casos e, num deles, foi necessário propor uma pequena intervenção urbanística para facilitar o acesso das pessoas com necessidades especiais, com a criação de rampas nos dois passeios públicos da rua, interligadas por uma faixa de segurança para pedestres, com demarcação de vagas para idosos no leito carroçável.

6) O que prega o desenho universal? Por que surgiu?

O conceito primário do desenho universal surge praticamente embutido com o primeiro projeto de arquitetura, há mais de dois mil anos. Quando você tem a oportunidade de ler o Tratado do Vitrúvio - um arquiteto romano da era clássica – poderá encontrar diversas menções relativas à escala humana. Um exemplo muito claro está, curiosamente, no desenho que Leonardo Da Vinci fez do “Homem Vitruviano”, que nada mais é do que uma tentativa de estabelecer uma espécie de módulo baseado nas proporções humanas, a partir do qual qualquer projeto poderia ser desenvolvido.

Quando, popularmente, convencionamos que a altura padrão de uma porta é próxima de 2,20 metros, estamos praticamente incluindo nesta medida a quase totalidade dos seres humanos – o que em tese é o objetivo do desenho universal: democratizar o uso de produtos, edificações e cidades para todas as pessoas, não somente as consideradas “normais”. Se o conceito já é antigo, a denominação do termo surgiu apenas na década de 1960, no ambiente universitário dos Estados Unidos. Mas não devemos nos esquecer dos alemães, que foram uns dos pioneiros na elaboração de muitas normas técnicas. Cabe mencionar que, entre os estudantes de arquitetura, há um livro de fácil referência, que apesar de datado dos anos de 1940, ainda funciona como uma introdução ao tema: “A Arte de Projetar em Arquitetura”, que é mais conhecido apenas pelo sobrenome do autor, Ernst Neufert.


O podotátil, espécie de piso em alto relevo, serve para orientar deficiente visuais – os lineares indicam a continuidade do caminho, já os circulares significam mudança de direção e limite do percurso.

Parte dos guichês de atendimento devem ser mais baixos e permitir que os cadeirantes se aproximem dos interlocutores – vide cavidade abaixo do tampo.

7) Quais as vantagens?

A grande vantagem do desenho universal é a inclusão social, sem dúvida.

Não basta fazer uma lei para obrigar as empresas de maior porte a reservar vagas de emprego para pessoas com deficiência física, se elas não conseguem chegar ao local de trabalho, então, quando uma cidade como Curitiba investe milhões de reais em planejamento urbano e cria um sistema de transporte coletivo no qual as pessoas não precisam subir verdadeiros degraus de arquibancada para entrarem nos ônibus, vemos que mais pessoas participam do mercado de trabalho, pois, de certo modo, o sistema de transporte oferece mais autonomia para a população.

E quem não gosta de ir ao Shopping Center? Em Campinas, um dos maiores centros comerciais da América Latina foi inaugurado com alguns conceitos de acessibilidade que até então não eram vistos em outros empreendimentos. Os administradores do local gentilmente passaram a oferecer cadeiras de rodas em alguns pontos específicos. O resultado é que o Shopping passou a ser frequentado por mais portadores de deficiência e idosos. No começo houve até um estranhamento por parte dos consumidores habituais, que logo assimilaram a ideia, causando uma reação saudável na concorrência.

Quando você democratiza a cidade para todos, mais gente participa da economia ativa e todos ganham com isso.

8) O desenho universal é bom para todos ou ele preconiza apenas cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida? Quantas pessoas com restrição no Brasil?

O grande desafio do desenho universal é que ele ser deve ser bom para todos, independentemente da existência de necessidades especiais ou não. Se ele atende aos cadeirantes, certamente será bom também para os caminhantes. Crianças, jovens, adultos ou idosos, magros, obesos ou atléticos – o leque é bem extenso. E dentro do universo de pessoas com necessidades especiais, não ficam apenas os cadeirantes ou aqueles com mobilidade reduzida, pois devemos incluir também as deficiências de visão e audição em diversos graus, e ainda lembrar daqueles com dificuldades intelectuais variadas. Esta, a bem da verdade, é uma noção que ainda precisa ser esclarecida para a população em geral.

Pessoalmente, não arriscaria uma porcentagem precisa de brasileiros com necessidades especiais. Fala-se em 15% da população, algo em torno de 28 milhões de pessoas, mas acredito que este número seja até maior, se englobarmos todos os tipos de deficiências, pois em cada família há pelo menos uma pessoa com alguma necessidade especial. Podemos não ter a consciência de que sejam muitas pessoas, uma vez que nossas cidades, em sua imensa maioria, não são acessíveis. Portanto não vemos esse contingente nas ruas com grande frequência.

As portas dos sanitários de acesso universal devem abrir para fora do ambiente e possuir largura suficiente para a passagem de cadeira de rodas ou pessoa portadora de muletas.

A sinalização em cores contrastantes – no caso um padrão da EBCT - facilita a identificação dos ambientes de uma edificação de uso público ou coletivo. 

9) É possível fazer adaptações nas obras prontas ou o ideal é fazer antes, pensar na questão antes da construção?

Algumas adaptações em obras prontas são possíveis, a depender de uma série de aspectos, que vão dos recursos financeiros, passam pelas limitações técnicas e de qualidade de mão de obra e esbarram, por vezes, em questões legais, quando o imóvel pertence a terceiros ou está tombado por uma entidade de defesa do patrimônio histórico e cultural. O ideal, sempre, é pensar neste conjunto de medidas ainda na fase de estudo do projeto da obra, e as vezes até antes, quando por exemplo um terreno está sendo avaliado para compra – pode ocorrer que o lote em questão seja inviável para o objetivo da construção, devido as suas dimensões, declividade e zoneamento urbano.

10) Quem pensa no desenho universal? O arquiteto, o engenheiro, o designer? É possível um trabalho conjunto?

A questão não é exatamente responsabilizar ou priorizar um tipo de profissional - e esquecemos de mencionar o urbanista. O que manda é o projeto como um todo, então cabe ao coordenador do projeto cobrar dos demais profissionais o comprometimento com o desenho universal. Se uma cidade decide implantar uma praça intercalada com uma ampla avenida, cabe ao urbanista dar as diretrizes do projeto. Na outra ponta, quando um designer recebe a encomenda para desenvolver um nova cadeira para uma estação de trabalho, cabe a ele pensar no desenho universal, que engloba a ergonomia e a usabilidade. Isso vale até para indústria automotiva, cujo coordenador de projeto não precisa ser necessariamente um engenheiro, mas um executivo responsável, que muitas vezes teve formação em outra área. O trabalho em conjunto, no desenvolvimento de produtos e edificações, só é possível quando existem coordenadores de projetos.


A bacia sanitária do sanitário acessível contém barras de apoio, distância mínima de 50 cm de seu eixo em relação ao vértice do cômodo e dianteira rebaixada para auxílio de higienização.

A coluna da pia acessível é suspensa em relação ao chão, para facilitar a aproximação da cadeira de rodas – da mesma forma ela conta com barra de apoio e distância do canto da câmara.

11) Projetos que preconizam o desenho universal são mais caros? Por que?

Projetos que levam em conta o desenho universal levam mais tempo para serem desenvolvidos e requerem profissionais mais capacitados, que não são encontrados com facilidade.

Além do mais, projetos de arquitetura e urbanismo que priorizam a acessibilidade universal tendem a ocupar mais área, exigindo mais recursos na compra de terrenos e na execução da obra. Uma vaga de estacionamento para cadeirante ocupa um espaço 50% maior do que uma vaga convencional. O mesmo se aplica para sanitários que tenham uma pia e uma bacia sanitária. A largura de um corredor de circulação interna de uma edificação precisa ser, no mínimo, 20% maior do que a habitual. Logicamente existem outras áreas que não sofrem muitas alterações, mas se consideramos um aumento médio de 10 a 15% na área final, chegaremos numa diferença considerável.

12) É possível preconizar o desenho universal num País onde a prioridade é construir moradia para 8 milhões de desabrigados? Alias, um projeto para habitação tem essa preocupação?

Não devemos tratar isso como uma possibilidade, mas como uma obrigação. Atualmente os conjuntos habitacionais financiados com recursos públicos, compostos por prédios de três a quatro andares sem elevadores, reservam alguns apartamentos do pavimento térreo para pessoas da terceira idade ou portadores de necessidades especiais. Ocorre que a expectativa de vida do brasileiro está aumentando a cada década e cada vez mais teremos pessoas na terceira idade, em comparação com as pessoas mais jovens, pois nossa taxa de natalidade está estabilizando. É uma questão de tempo para a equação não fechar mais.

Se não investirmos na acessibilidade universal em nossas moradias públicas e privadas, pagaremos uma conta muito alta dentro de 30 ou 40 anos. Infelizmente a classe média, que pode financiar a compra da casa própria, no caso dos apartamentos, é a que mais vai sofrer. Basta analisar as plantas publicadas nos folhetos promocionais, cujos banheiros sociais são oferecidos com apenas 1,25 metro de largura, quando o mínimo aceitável seria 1,50 metro e o ideal seria 1,80 metro. As famílias que estão sacrificando suas economias agora, vão precisar de novos apartamentos no futuro, numa época que a fonte de renda vai cair de forma irremediável.

Lamentavelmente as residências unifamiliares não são obrigadas a se adequar à lei de acessibilidade, então cabe ao profissional responsável pelo projeto ser consciente e abordar este assunto ainda na encomenda do primeiro desenho. Por exemplo: se uma família sonha em morar num sobrado - e ninguém seria louco de instalar um elevador numa casa de pequeno porte - cabe ao projetista colocar em discussão, com os contratantes, a necessidade de criar ao menos um ambiente no pavimento térreo que possa ser convertido num dormitório. Pode ser uma sala de TV ou um escritório, mas o lavabo social precisa prever espaço para instalação de um chuveiro, e assim por diante.

O arquiteto Jean Tosetto no hall de seu escritório.

Sobre o entrevistado:

Jean Tosetto é Arquiteto e Urbanista formado pela FAU PUC Campinas. Desde 1999 já realizou mais de 200 projetos – em sua maioria residenciais e comerciais, mas também institucionais e industriais – especialmente na cidade de Paulínia (interior de São Paulo), onde é radicado, e Região Metropolitana de Campinas.

Em 2003 fez sua primeira imersão profissional no campo da acessibilidade, ao desenvolver o projeto residencial de sua avó paterna, então convalescente numa cadeira de rodas na cidade de Caçapava, no Vale do Paraíba paulista. Já em 2005 participou do "Curso de Capacitação Técnica em Acessibilidade e Mobilidade Urbana" ministrado por membros do Grupo Técnico de Acessibilidade do CREA-SP – Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo – na Unicamp.

No ano de 2006 teve uma experiência como professor universitário convidado pela efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia, que através do Núcleo de Estudos de Transporte e Mobilidade e do Núcleo de Estudos de Habitação ministrou respectivamente as disciplinas de “Mobilidade Urbana e Transportes” e “Habitação Social”. Nesta ocasião, conduziu junto com seus alunos um criterioso estudo sobre as condições de acessibilidade na região central de Paulínia, resultando num relatório entregue à autoridades municipais, quando atuou como membro do COMPHACT - Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Ambiental, Cultural e Turístico do Município de Paulínia, no biênio de 2007 e 2008.

Em 2009 concluiu a construção da própria residência e escritório, onde vários aspectos, não só da acessibilidade universal, como também a respeito da sustentabilidade ambiental e econômica, foram executados. Desde então vem colaborando com publicações diversas relacionadas a estes temas, aplicando tais conceitos, sempre que possível, nos projetos em que atua.

Veja também:

Estatuto da cidade - considerações

O skyline de São Paulo se descortina para a Rodovia dos Bandeirantes, após a passagem pelo Pico do Jaraguá.
O skyline de São Paulo se descortina para a Rodovia dos Bandeirantes, após a passagem pelo Pico do Jaraguá.

Resumo da cartilha "Vamos mudar nossas cidades? - Sim!" que é parte integrante do "Kit das Cidades" produzido em parceria do Instituto Pólis com a PUC Campinas, com o apoio da FAPESP. Dentre os doze trabalhos entregues pelos alunos do Núcleo de Estudos de Habitação da Faculdade de Administração Pública - Universidade São Marcos - Campus Paulínia - SP, foi escolhido o apresentado pelo grupo formado por Cibele Brenelli, Raquel Marino e Leonardo Maturana.

Conheça o Estatuto da Cidade

Desde 2001, existe uma lei que visa ampliar a luta por moradias, saneamento, básico, transporte, escola, áreas de lazer e hospitais: o Estatuto da Cidade. O Estatuto da Cidade é uma lei federal que cria regras para organizar a cidade de forma a proporcionar qualidade de vida.

Com ele, as propriedades passaram a ter uma função social. Esta lei trata de assuntos como: - especulação imobiliária , bom uso dos solos; regularização de áreas ilegais; - participação popular nas decisões referentes à utilização do espaço urbano (obrigação da prefeitura de fazer audiências e consultas públicas).

O Plano Diretor põe o Estatuto da Cidade em prática. Trata-se de uma lei criada com a participação da sociedade e aprovada pela Câmara Municipal, que organiza o crescimento e o funcionamento da cidade. Ao contrário do Estatuto que dá regras gerais para o planejamento de todas as cidades, o Plano Diretor determina regras em cada Município.

Apesar de obrigatório nos casos determinados no Estatuto (cidades com mais de 20.000 habitantes, fazer parte da Região Metropolitana, ser ponto turístico, ou possuir obras de grande impacto) a lei dos Municípios é muito importante e pode existir em qualquer cidade.

Algumas etapas devem ser seguidas na elaboração do Plano Diretor: Análise da Realidade > Proposta > Envio da proposta à Câmara Municipal > Estabelecimento dos prazos e métodos > Revisão.

O Estatuto da Cidade visa melhorar condições de moradia

- Regularizando terrenos ilegais, aumentando o valor a ser investido em habitação.

- Criando espaços de participação pública na votação e aplicação das leis, aproveitando espaços com boa estrutura para moradias, regulamentando a usucapião (que antes só poderia ser individual e agora pode ser coletiva, aprimorando a regularização fundiária).

Existem etapas para obrigar o uso social da propriedade

A – Pressão por meio da regra do parcelamento e edificação compulsórios em que o proprietário tem dois anos para dividir, reformar ou construir seu terreno.

B – IPTU progressivo no tempo, em que o imposto dobra a cada ano enquanto o proprietário não cumprir a lei.

C – Desapropriação se o dono pagar IPTU durante 5 anos, mas não agir.

O Plano Diretor deve prever a existência das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) em que ficam reservadas áreas para moradias populares em regiões com boa infra-estrutura.

Outras alternativas que o Plano Diretor oferece são o consórcio imobiliário e a verba conquistada pela outorga onerosa do direito de construir a qual é destinada para investir na habitação.

A relação entre meio ambiente e Plano Diretor

O Plano Diretor determina a ocupação de áreas naturais a serem preservadas e áreas de risco. O Estatuto da Cidade, por sua vez, limita a construção de imóveis em terrenos de área preservada e utiliza o método de Transferência de Potencial Construtivo.

A população deve participar das decisões públicas na cidade. As comunidades, em geral, podem e devem participar da elaboração do Plano Diretor, por exemplo, realizando estudos de impactos de vizinhança, audiências públicas, propondo planos e alterações nas leis.

O orçamento participativo também é instrumento obrigatório e incentiva a população a decidir como será gasta a verba pública no exercício seguinte. Além disso, existem as Conferências, em que se decidem as políticas de habitação.

Finalmente, é necessário e fundamental um instrumento fiscalizatório do Plano Diretor, que é o Conselho de Habitação e Desenvolvimento Urbano.

A seguir: A inclusão social pela mobilidade urbana

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