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Por que o brasileiro gosta tanto de imóveis?

Família de colonos gaúchos e suas posses na região de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, em fotografia de 1974, sem autor conhecido, pertencente ao acervo do arquiteto.
Família de colonos gaúchos e suas posses na região de Santa Rosa, noroeste do Rio Grande do Sul, em fotografia de 1974, sem autor conhecido, pertencente ao acervo do arquiteto.

Comprar a casa própria ou investir no mercado de capitais? Esta dúvida volta e meia cerca os investidores e os educadores financeiros. Sem impor vereditos, é preciso compreender os motivos que levam as pessoas a valorizar ativos palpáveis.

Por Jean Tosetto *

A cada dia mais brasileiros descobrem os benefícios de investir em renda variável, através da Bolsa de São Paulo que, entre diversos tipos de aplicações, permite ao investidor individual comprar ações de empresas de capital aberto e cotas de fundos imobiliários.

Um grande esforço está sendo empregado por parte de educadores financeiros que, através de cursos, livros e principalmente vídeos no YouTube, professam as vantagens de investir no mercado de capitais ao invés de confiar as economias ao sistema bancário tradicional e mesmo ao mercado imobiliário.

Neste ponto, ainda existe uma grande resistência por parte do brasileiro médio (que consegue poupar para investir), em migrar seus recursos empregados nos imóveis para os ativos do mercado financeiro.

Em um de seus vídeos, Tiago Reis, fundador da Suno Research, conversa com Jacinto Santos, especialista em fundos imobiliários e editor do site Funds Explorer.



A questão que vale um milhão

Ele propõe a seguinte situação: se alguém tivesse um milhão de reais disponíveis para investir e as alternativas fossem comprar a casa própria ou montar uma carteira de fundos imobiliários, para receber os rendimentos mensais, morando num imóvel alugado; o que seria melhor?

Reis e Santos demonstram, por “A” mais “B”, que comprar cotas de fundos imobiliários, receber os rendimentos mensais e usar parte deles para pagar aluguel é a solução correta para o dilema apresentado.

A ressalva para os argumentos da dupla é que eles compõem uma “análise fria, desapaixonada e meramente financeira”. Sob este aspecto, sim, eles estão cobertos de razão. Só tem um problema: o brasileiro, assim como todo cidadão latino-americano, não toma decisões puramente frias e desapaixonadas.

O brasileiro é apaixonado

Para o bem da verdade, nenhum povo do mundo, incluindo aqueles que vivem na Europa Setentrional, é formado por gente que toma decisões puramente racionais. O ser humano é um animal essencialmente emocional. Ocorre que o lado emocional é mais forte em povos de origem latina e, especialmente, entre os brasileiros.

Não é por falta de educação financeira que o brasileiro gosta dos imóveis: é por causa de costumes enraizados no processo de miscigenação que formou um povo e uma nação.

Se compreendermos as origens dessa mistura, encontraremos a chave que explica a predileção dos brasileiros por adquirir a casa própria antes de investir em outras frentes.

A nação brasileira é composta basicamente por imigrantes de todos os continentes. Os índios nativos, atualmente, respondem por uma fração pequena da nossa população. Os primeiros a chegarem aqui foram os portugueses e espanhóis, ainda no século XVI. Depois vieram os africanos que, infelizmente, aportaram em terras brasileiras como escravos.

Após a abolição do trabalho escravo, uma grande leva de imigrantes italianos, alemães e de outras regiões da Europa, veio para o Brasil no fim do século XIX, mediante promessas de terras acessíveis e pela possibilidade de ascensão social. Na sequência, vieram povos do Oriente Médio e da Ásia.

A vida não era fácil na origem e no destino

Como era o cotidiano desses imigrantes em suas regiões de origem, uma vez que o próprio conceito de país estava sendo reorganizado naquele tempo?

Em geral, era uma rotina difícil e baseada num sistema econômico agrícola falido, entre aqueles que não aderiram precocemente aos avanços da Revolução Industrial – uma das razões pela qual os poucos ingleses que vieram para o Brasil, durante o auge do ciclo do café, se concentraram na construção e manutenção de ferrovias.

Enquanto Itália e Alemanha se unificavam tardiamente, por exemplo, boa parte da população passava fome, cultivando tradições feudais ultrapassadas, diante do fracionamento extremo das terras voltadas para a Agricultura.

O patriarca de uma família tinha um pedaço de terra e, para viver dela, era incentivado a ter um grande número de filhos, pois estes lhe ajudariam na lavoura. Quando o chefe da família morria, sua terra era dividida entre os herdeiros. Após sucessivas gerações este sistema entrou em colapso, empurrando um grande contingente para a mendicância ou para o trabalho como meeiro.

Novo continente – velhos costumes

Logo, quando países do mundo novo como Canadá, Estados Unidos, Austrália, Argentina e Brasil acenaram para os europeus com grandes quantidades de terra ou mesmo doações para aqueles dispostos a desbravar territórios; muita gente não pensou duas vezes.

 “Fazer a América” significava vencer na vida e isso passava por adquirir terra nova que, em última instância, são imóveis. Em suma, o Brasil só foi ocupado integralmente em função da replicação do sistema de divisão de terras entre herdeiros.

Colonos gaúchos migraram para o norte do Paraná, para que seus filhos pudessem ter as próprias colônias. Isso se repetiu com a ocupação do Mato Grosso (do Sul e do Norte) e ainda vemos os últimos resquícios dessa prática em Rondônia, no limiar da Amazônia, que atualmente é a última fronteira de expansão do país.

Com a urbanização e a industrialização tardia da economia brasileira, acentuada após a Segunda Guerra Mundial, o país viveu o êxodo rural, que afetou principalmente os estados da Região Nordeste.

Um teto é como um pódio

Para o sofrido povo nordestino, ir para São Paulo ou Rio de Janeiro, conquistar a casa própria e depois melhorar as condições de vida de quem ficou no sertão, era o novo significado de vencer na vida.

Mais do que uma obsessão, morar sob o próprio teto era uma questão de honra: uma prova de que o emigrante que veio para o Sul é um vencedor.

Neste processo, muita gente foi além, construindo imóveis para alugar e obter renda extra ou mesmo renda integral. Muitos destes empreendedores não querem saber de investir dinheiro por meio da Bolsa e educam seus filhos para trilhar o mesmo caminho.

Vale lembrar que o moderno sistema financeiro nacional só foi implantado no final da década de 1960, incluindo as novas Bolsas de Rio de Janeiro (já fechada) e São Paulo (a B3 atual). Em termos históricos, este meio século é muito pouco tempo se comparado com as centenas de anos predecessores, nos quais o investimento considerado mais seguro era comprar terras e tijolos.

Não há como ser taxativo e dizer que aqueles que ainda pensam assim estão errados, pois eles apenas respeitam suas origens que, por sua vez, tem muito peso na formação de seus perfis de investimento.

Autoconhecimento: essencial para o sucesso

A partir do momento que compreendemos que somos movidos por emoções que interferem em nossas razões, teremos mais condições de dosar a sua influência em decisões tão importantes, como as que envolvem grandes somas de dinheiro.

Neste ponto, voltamos ao dilema proposto por Tiago Reis e Jacinto Santos, sobre usar um milhão de reais para comprar a casa própria ou investir em fundos imobiliários.

Já sabemos que a análise puramente racional recomenda o investimento nos fundos imobiliários e que uma decisão baseada apenas no lado emocional levaria o dono do dinheiro a comprar a sua casa.

Os argumentos financeiros usados na questão afirmam que imóveis residenciais alugados rendem, em média, 0,4% ao mês, ao passo que fundos imobiliários conservadores entregam até 0,65% ao mês na forma de rendimentos.

Logo, um milhão de reais empatados numa casa alugada custariam R$ 4.000 para o inquilino, ao mês. Já uma carteira de fundos imobiliários, com o montante de um milhão de reais aplicados, tenderia a entregar R$ 6.500 para o cotista, havendo um saldo positivo de R$ 2.500 por mês.

O ponto central seria o ponto de equilíbrio?

E se pudéssemos encontrar o caminho do meio, entre a razão e a emoção?

Por exemplo, ao invés de comprar uma casa de um milhão de reais, o investidor poderia comprar um terreno e construir uma casa nova, destinando, neste processo, apenas R$ 500 mil. Com os outros R$ 500 mil ele formataria uma carteira de fundos imobiliários que lhe renderia cerca de R$ 3.250 por mês, ou seja, R$ 750 por mês a mais do que se ele estive apenas investido em fundos imobiliários e pagando aluguel. Estamos falando de R$ 9.000 a mais, por ano.

Porém, há um detalhe importante nesta história: uma casa nova vale, em média, cerca de 30% a mais do que a soma do preço do terreno com o custo da construção. Logo, o patrimônio imobiliário não seria apenas de R$ 500 mil, mas de R$ 650 mil que, somados com os R$ 500 mil investidos em fundos imobiliários, totalizam R$ 1.150.000.

Este cenário é plenamente realizável em cidades de porte médio no interior ou em cidades vizinhas de grandes capitais, ofertando um bom padrão de vida para o proprietário do imóvel, que poderia ter seus 150 m² de área construída num loteamento ou condomínio bem localizado.

Nada mal para quem mesclou emoção com razão, não é mesmo?

Várias respostas – isso é bom

Mais uma vez, não podemos ser taxativos. Não existe certo ou errado nos investimentos. O que existe é o perfil de cada investidor que deve ser respeitado. Ser radical nestas questões não costuma produzir bons resultados.

De certo, mesclar investimentos nos mercados financeiro e imobiliário pode ser uma estratégia inteligente, desde que o investidor saiba o que está fazendo.

Você pode argumentar: “Pô, Jean! Você é arquiteto. Está puxando a sardinha para o seu lado”.

Serei forçado a concordar que a minha experiência profissional influencia diretamente o meu modo de pensar. Porém, sobre colher os benefícios dos dois tipos de mercado (financeiro e imobiliário), eu conversei com a Alice Porto, a Contadora da Bolsa, sobre o assunto. Você pode conferir o vídeo no canal dela.


A propósito: você já leu o livro da Alice Porto? “101 Perguntas E Respostas Sobre Tributação Em Renda Variável” está disponível como e-book na Amazon. 

No mais, toda decisão é pessoal. Cada uma toma a sua. Conselhos são bons, mas não são mandamentos.

* Jean Tosetto é arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

Veja também:

Artigos de Jean Tosetto publicados no site da Suno Research
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Capela do Seminário Concórdia - 2008 (concurso)

Avenida Getúlio Vargas - São Leopoldo - RS

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil forma seus pastores através da Faculdade de Teologia em São Leopoldo, região metropolitana de Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul. No primeiro semestre de 2008 a diretoria desta entidade elaborou o Concurso de Idéias para a Capela do Seminário Concórdia, local onde a Faculdade é sediada. Os convites para participação neste pleito foram enviados à engenheiros e arquitetos de todo o Brasil.

Além do programa de necessidades, foi indicada a leitura de textos referentes à liturgia dos cultos, bem como recomendações para nortear as caracetrísticas do projeto, especialmente no que concerne aos materiais de acabamento - visando valorizar a mensagem em si, mais do que a própria edificação. No prazo exíguo para a o desenvolvimento do estudo preliminar, dispensou-se a exigência de maior detalhamento.

Pavimento térreoA planta baixa do pavimento térreo identifica claramente o conceito de simetria em forma de cruz, o símbolo máximo do cristianismo.

Junto dos estudos apresentados para a comissão de avaliação - formada por pastores, dirigentes e profissionais registrados no CREA - foi encaminhado um sucinto memorial justificativo, reproduzido a seguir:

"Com o objetivo de atender aos requisitos deste concurso de idéias, o partido desta proposta é a simplicidade aliada ao bom senso, valendo-se de materiais comuns - que por isso mesmo aumentam o leque de captação de mão de obra e reduzem os custos da construção.

Isto não significa abrir mão da qualidade, mas apenas extrair dos recursos disponíveis o máximo de suas potencialidades, inclusive as que o meio-ambiente tem para oferecer. Deste modo as calhas da cobertura da capela conduzem as águas pluviais para uma providencial cisterna, que por sua vez atenua o consumo de água tratada para rega dos jardins lindeiros. Não se trata de um modismo, mas de racionalidade.

Outro elemento abundante no globo terrestre pode trabalhar em prol do conforto térmico e acústico da grande nave: o ar. Por isso a planta baixa do pavimento térreo inclui duas galerias laterais - não especificadas no edital - que conformam paredes duplas, deixando os ruídos dos automóveis do lado de fora.

O sanitário para deficientes físicos também não constava no programa oficial. Ele foi incluído não apenas para respeitar as novas leis federais, mas porque reflete o ensejo de oferecer acessibilidade realmente universal aos usuários. Vide as rampas de ligação da nave com o altar, e a ausência de planos inclinados no restante do piso.

Esteticamente, esta proposta claramente se organiza sobre conceitos da arquitetura clássica - com a adoção de eixo de simetria para ordenação dos espaços e a planta em formato de cruz - de forte congruência com os valores religiosos. Porém, a roupagem dos acabamentos é moderna, abrindo mão de adornos decorativos que apenas concorrem com a essência do Evangelho."

Corte transversalNa seção transversal, a cor azul representa os colchões de ar situados entre a cobertura e a nave, na cor verde, assim como o vestíbulo.

Corte longitudinalCorte longitudinal: em amarelo temos as áreas reservadas para os instrumentos musicais, já o vermelho reflete os elementos de comunicação visual.

Fachada principalA fachada desta capela recorre ao branco por sua pureza e conforto térmico, pois absorve menos o calor do sol. Quatro pilastras marcam o acesso principal.

A participação em concursos pressupõe que o projeto pode não ser escolhido, como foi o caso - e mesmo que isso ocorresse, não significa que a obra seria executada. Mas sempre há o lado positivo neste tipo de trabalho, pois o profissional entra em contato com especificações que muitas vezes não fazem parte da rotina de seu ofício, agregando conhecimentos que podem ser úteis em ocasiões futuras.


P.S.: para saber mais sobre a Igreja Luterana, visite o site da comunidade em Nova Odessa-SP:


São Miguel das Missões - 2001


No vigor da juventude, podemos visitar as ruínas com certo ar de superioridade, por estar diante de um espaço em franca decadência. O contraste é muito grande, mas a realidade se mostra diferente.
O tempo vai passar, vamos envelhecer, e as "pedras sobre pedras" ainda estarão lá, se mostrando mais resistentes do que nós. As mesma pergunta ficará no ar: "O que há por trás da atmosfera enigmática deste ambiente secular?"

Este conjunto arquitetônico foi erguido pelos índios nativos da região noroeste do Rio Grande do Sul, durante o século XVIII, sob a régia de padres jesuítas. Foi tombado no século XX pela Unesco, como patrimônio histórico e cultural da humanidade.