Inclusão via desenho universal

O arquiteto Jean Tosetto concede entrevista e fotografias legendadas à Juliana Reis de Sá, da Editora Ciranda Cultural, com vistas à composição de artigo para a Revista Incluir.

Rampa de acesso
Na tradição urbanística brasileira, o leito carroçável das vias públicas costuma ser rebaixado, em média, 12cm das calçadas reservadas aos pedestres. Essa diferença de nível precisa ser vencida por rampas que permitam a manobra do cadeirante assim que ele chegar no nível superior. Seria ideal que o asfalto fosse demarcado com faixas de segurança ou listras em diagonais, que sinalizassem a proibição de estacionamento para veículos.
A faixa pavimentada da calçada deve ter largura mínima de 1,2m - com o ideal em torno de 1,5m. O material deve ser antiderrapante. Uma solução barata e prática é o concreto áspero, intercalado com juntas plásticas de dilatação em intervalos de 1 a 1,2m.

Quais as principais preocupações ao se pensar num projeto de arquitetura para garantir a acessibilidade de um modo geral numa casa?

- A questão mais difícil, pois muda de terreno para terreno, é resolver a transição do espaço externo (calçadas, jardins, quintais) para o espaço interno (salas, cozinhas, lavanderia). Em locais com muita declividade, resolver este aspecto é um desafio, pois não se pode mais recorrer a degraus e rampas muito inclinadas.

Altura padrão, sem degraus
No portão de acesso social, o interfone e a caixa dos correios ficam numa altura entre 90cm e 1,1m. Deste modo, tanto os cadeirantes, como as crianças, adultos e idosos de qualquer estatura, tem acesso aos equipamentos, sem qualquer prejuízo funcional.
Os degraus com mais de 1,5cm de altura devem ser abolidos entre os espaços públicos e privados, de modo a permitir maior autonomia para portadores de deficiências físicas. Para evitar que as águas das chuvas penetrem no interior do imóvel, soleiras de borracha devem ser instaladas na base da porta, quando esta não contar com um alpendre ou varanda.

Quais são os recursos que podem ser utilizados num projeto de acessibilidade para deficientes visuais?

- Existem vários estágios de deficiência visual, da simples miopia até a cegueira completa. Para os níveis intermediários, devemos usar cores contrastantes que facilitem a compreensão do espaço. Por exemplo, se o piso possui um tom claro, assim como a parede, então podemos usar o rodapé numa cor mais escura. Já nos sanitários, os filetes em azulejos podem cumprir a mesma função, assim como as cornijas de gesso, cada vez mais em uso em todos os compartimentos.

Para o portador de cegueira plena, o projeto deve ser o mais prático e lógico possível, para que o indivíduo compreenda e decore rapidamente a composição da casa, com suas paredes e móveis. Os pisos táteis que vemos em agências bancárias podem ser usados nas varandas e outras áreas externas, mas nos espaços confinados, nada de móveis e pequenos objetos soltos no caminho.

Pia sanitária
A coluna da pia fica suspensa e limitada ao término do sifão. Com isso, libera-se espaço sob a mesma, facilitando o acesso do cadeirante. O eixo - linha central - da pia deve ficar a pelo menos 50cm do vértice do sanitário, para permitir futura instalação de barras de apoio.

A torneira conta com sistema de abertura por haste, que permite o uso do cotovelo na operação. Já o filete na cor azul marinho contrasta com o azulejo branco e facilita a percepção do espaço. Há margem para colocação de um segundo espelho, mais baixo e ligeiramente inclinado, para completar o conjunto.




Quais são os recursos que podem ser utilizados num projeto de acessibilidade para a casa de um cadeirante?

- O cadeirante necessita de áreas livres com diâmetro de 1,5m para poder realizar um giro de 360 graus. É a distância mínima de um armário para uma cama, por exemplo. Para manobras de 90 graus esta distância cai para 1,2m - que seria a largura mínima de um corredor ou hall, contra os habituais 1m ou até 90cm das casas convencionais.

As portas devem ter largura mínima de 80cm, mesmo para sanitários. Estes devem ter a bacia recuada ao menos 50cm de paredes ou outros equipamentos, a partir de seu eixo, assim como a pia. Nada de degraus ou rampas com mais de 8 % de inclinação. São diversas medidas que exigiriam várias páginas para comentar.

Bacia sanitária acessivel
Esta bacia sanitária conta com uma cavidade frontal e interrupção do assento para facilitar a higienização com o auxílio da ducha lateral. Mais uma vez a distância do equipamento para o canto mais próximo do cômodo deve ser de no mínimo 50cm, permitindo a instalação complementar de barras de apoio, ideais para idosos.
A caixa acoplada, por ser conflitante com a ergonomia para deficientes físicos foi preterida em favor da válvula hidra, que consome mais água mas ocupa menos espaço. Por vezes, é necessário elevar em até 15cm a altura convencional da bacia, o que pode ser feito com um assento especial.

Quais são os recursos que podem ser utilizados num projeto de acessibilidade para um deficiente auditivo?

- O deficiente auditivo recorre à visão e ao tato para compensar o seu sentido prejudicado. Campainhas sonoras devem ser acompanhadas de avisos luminosos, pontuados em diversos cômodos da residência, caso não existam moradores com audição razoável no imóvel. O mesmo se aplica aos eletrodomésticos que recorrem a alarmes, como o microondas. O recurso de vibração de um aparelho celular é um exemplo alternativo para este tipo de deficiência.

Como se vê, esta questão não se restringe aos arquitetos e engenheiros, mas a toda uma gama de desenhistas industriais e aqueles que trabalham com luminoteca.

Área para manobrar cadeira
Uma casa precisa ter áreas para manobras que incluam um círculo imaginário com diâmetro mínimo de 1,5m. Deve-se levar em consideração que portas de armários abertas, ou gavetas de cômodas, impõem restrições nesta questão.
Rodapés e faixas superiores entre cornijas de gesso, em tons mais escuros em comparação com os pisos e paredes, realçam as dimensões dos espaços e facilitam a orientação de portadores de deficiências visuais intermediárias, lembrando sempre que as maçanetas das portas devem ser em formato de alavanca.

Existem opções alternativas que podem ser adaptadas de forma "caseira" por famílias com menos recursos?

- Independentemente de nossa classe social, muitos de nós temos a mania de guardar coisas que não usamos, em armários, cômodas e criados mudos. Alguns até guardam caixas e embalagens com uma sorte de coisas inúteis dentro. Muitas vezes uma boa faxina para doação daquilo que não usamos, deixa espaço para uma melhor mobilidade.

O brasileiro é um povo muito criativo e cooperador, mas em termos construtivos obviamente o aspecto financeiro é um fator limitante. Neste ponto podemos envolver nossos governantes e não aceitar mais que eles determinem a construção de casas populares com banheiros de apenas 2m², entre outras afrontas. O exemplo deve partir de quem pode oferecer condições melhores para a população.

Cozinha realmente planejada
A era dos armários suspensos nas cozinhas deveria estar com os dias contados. O ideal é trabalhar com o mobiliário na linha das bancadas, com até 90cm de altura. A geladeira, obviamente, escapa deste anseio.
Em termos de iluminação, é recomendável o uso de dois pontos de luz no teto: um mais centralizado e o segundo próximo da região das cubas, de modo que o corpo de quem irá lavar a louça não faça sombra nos talheres, pratos, copos e panelas.

Quais são os recursos que podem ser utilizados num projeto de acessibilidade para idosos e obesos?

- Idosos muitas vezes precisam se apoiar em objetos seguros para se locomover. Isso pede pisos antiderrapantes e barras auxiliares em sanitários e demais áreas molhadas, como cozinhas e lavanderias. Esqueçam os tapetes. Maçanetas? Só de alavanca.

Já os obesos se assemelham aos cadeirantes, na medida em que eles precisam de mais espaço. Na verdade o conceito do desenho universal - que trabalha muito com a acessibilidade e ergonomia - pensa no espaço sendo usado por todos, não apenas por um determinado tipo de pessoa. Muitos recursos, quando aplicados corretamente, facilitam a vida da família inteira.

Interruptores na posição correta
Os interruptores também podem ficar situados entre 90cm e 1,1m de altura em relação ao piso. Este, por sua vez, deve ser livre de tapetes escorregadios e soleiras divisórias de cômodos que, se ressaltadas, servem apenas para provocar acidentes aparentemente pequenos, mas com potencial para graves conseqüências.
Devemos ficar atentos também para o novo padrão nacional de tomadas, de acordo com as normas da ABNT. O estoque de tomadas antigas no comércio ainda é grande, mas a sua compra deve ser evitada.

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