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Como escolher um bom terreno para construir uma casa?


O arquiteto Jean Tosetto (quem?) explana sobre a escolha de um lote para erguer uma residência.
O arquiteto Jean Tosetto (quem?) explana sobre a escolha de um lote para erguer uma residência.

São vários fatores que devem ser levados em conta na escolha de um terreno para construir uma casa. Por isso, a compra de um lote não deve ser feita de forma isolada. É bom consultar engenheiros, arquitetos, e corretores de imóveis.


Transcrição editada de vídeo publicado em 17 de maio de 2020


Olá meus amigos, aqui o arquiteto Jean Tosetto, mais uma vez, para trazer conteúdo relevante para você, que está pensando em construir sua casa. Muitas vezes você não tem nenhum terreno ainda, e eu quero te ajudar com isso.

Como escolher um bom terreno para construir uma casa?

Localização


O primeiro ponto, essencial, é você definir a localização. Você tem que pensar que vai construir uma casa na sua vida – talvez duas – mas tem que ser uma casa que servirá para você, enquanto você trabalha, e servir também quando você estiver aposentado, porque a troca de imóvel, no Brasil, não é muito alta.

Neste sentido, será que é bom depender de carro para você comprar pão ou remédio? Acredito que não. Uma boa localização para um terreno é que ele fique num loteamento ou num condomínio próximo de equipamentos urbanos essenciais, como farmácia, padaria, posto de saúde. Depender de carro não é uma boa ideia. Se você puder ir a pé, de bicicleta ou mesmo usar o transporte público, é melhor.

Loteamento aberto, fechado ou condomínio?


O segundo ponto: é importante separar o que é loteamento aberto de loteamento fechado e condomínio. O loteamento aberto seguirá as regras básicas vigentes no município. O loteamento fechado terá regras adicionais internas, mas você será dono do seu lote. Já no condomínio, você será dono de uma fração ideal.

O loteamento fechado permite que você tenha a matrícula do lote em seu nome. No condomínio, você será praticamente sócio de todos os proprietários das demais frações ideais, embora as casas construídas sobre elas sejam particulares.

Pessoalmente, optaria por um loteamento fechado se fosse para morar num lugar que tenha portaria de controle de acesso.

Padrão construtivo do entorno


O loteamento aberto não paga condomínio e não paga mensalidade. Esse também um ponto importante, que traz para qualidade: você tem que atentar para a qualidade do empreendimento, seja loteamento aberto, fechado ou condomínio.

Como é a portaria? Como é a área de lazer? Se tem ou não tem. Se houver muito equipamento de lazer num loteamento fechado, você pagará por despesas maiores, em função disso.
No loteamento aberto: como está o meio fio?  Como está o asfalto? Como estão as construções vizinhas?

Você tem que observar as construções vizinhas: qual é o padrão de acabamento delas? É compatível com o que você tem para investir? Adianta você fazer uma casa pequena num loteamento que só tem casarões? Adianta você fazer um palacete num lugar onde a maioria das pessoas mora em casas pequenas?

Talvez não seja uma boa ideia você investir no padrão errado, para o lugar errado. Você tem que se inserir naquilo que cabe no seu bolso e que você está disponível a investir, para ter pelo menos um pequeno retorno.

Regulamentos e leis locais


Partindo da qualidade você tem que analisar o regulamento. Às vezes você tem dois loteamentos, com a mesma mensagem de lote, só que os regulamentos de ambos guardam diferenças. Tem regulamento que pede recuo lateral obrigatório e o outro, não, por exemplo.

Isso é bom? Isso é ruim? O regulamento, quando é mais restritivo, parece que limita a construção. Só que ele favorece o padrão construtivo. Já o regulamento que permite muitas coisas – encostar em duas divisas, por exemplo – ele tende a gerar casas geminadas. Mesmo que você não seja do lote do seu vizinho, você se comunicará com ele por parede. Talvez isso não seja interessante.

Então, é bom estudar o regulamento para saber se dá para fazer o projeto que você quer, de acordo com as leis locais. Preste atenção nas leis vigentes no município, no código municipal de obras. Atente sobre o recuo frontal do terreno e se tiver recuos de fundos, também, entre outros aspectos, como taxa de ocupação. Isso é muito importante ser avaliado.

Declividade


Olhando especificamente para o terreno, ele terá uma declividade. Será um aclive? Será um declive? Será caído para uma lateral ou para a outra? Um terreno com um declive muito acentuado pode encarecer o projeto. Será que a solução do projeto pedirá para você fazer um muro de arrimo? Esse tipo de muro é caro.

De preferência, procure uma declividade suave. Porém, se o lote for muito plano, quase no nível da rua, você terá que fazer um aterro porque é preciso fazer a tiragem de esgoto e água da chuva. Você terá que importar terra. Então, esse é um aspecto mais técnico e seria bom consultar um(a) engenheiro(a) ou um(a) arquiteto(a), para tanto.

Cuidado com a calçada


Se o lote for pequeno, preste atenção na calçada; se ela tem um poste, uma árvore ou uma boca de lobo; porque esses componentes limitam a escolha da posição garagem, para você entrar com o carro em seu terreno.

Insolação


Enfim, são vários aspectos para observar. Não basta só prestar atenção na insolação e escolher o lote apenas pela posição do sol, embora a insolação seja importante. Eu já disse, em outro vídeo, que os dormitórios, de preferência, devem ficar para o sol da manhã.

Portanto, se você não quer dormitório na fachada da sua casa, a fachada tem que ser voltada para o sol da tarde. Nesse caso, a testada do seu lote pode ser o sol poente, a oeste, seja noroeste ou sudoeste, por exemplo. Se você deixar os dormitórios para sol da manhã, na minha opinião será mais saudável.

Tipo do solo


Então, você tem que casar a insolação com a declividade e analisar o solo. Será que o loteamento foi implantado sobre um aterro? Será que o lugar foi antigamente uma plantação de arroz? Porque, se foi isso, o solo será úmido. Neste caso, como será a fundação da obra? Você tem que analisar esses aspectos para evitar a compra de um terreno num lugar que seja um atoleiro, por exemplo, pois teria que gastar muito com o alicerce da casa.

Na verdade, comprar um terreno sozinho é complicado. Você precisa de auxílio técnico de um(a) engenheiro(a) ou de um(a) arquiteto(a), e também do auxílio de um(a) corretor(a) de imóveis para verificar a documentação, que é um ponto essencial.

Documentação


Não adianta você comprar um belíssimo terreno, por um preço muito bom, se a documentação não pode passar para o seu nome. O terreno tem que estar livre para você fazer escritura e, depois de registrar a escritura, poder atualizar a matrícula do lote em seu nome. Não esqueça desse aspecto quando você comprar um terreno para construir.

Já falei (escrevi) demais. Vou me despedir por aqui, hoje. Um grande abraço e até a próxima.


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O papel do arquiteto em um novo mundo

Jean Tosetto (quem?) no dia da gravação do vídeo sobre o papel do arquiteto em um novo mundo. Clique na imagem para acessar o canal no YouTube.
Jean Tosetto (quem?) no dia da gravação do vídeo sobre o papel do arquiteto em um novo mundo. Clique na imagem para acessar o canal no YouTube.

O ano de 2020 está sendo desafiador para a humanidade. Os arquitetos, urbanistas e engenheiros não podem ficar de fora desta grande oportunidade de reordenamento das prioridades, incluindo as moradias e grandes cidades. Está é a transcrição adaptada de um vídeo gravado no dia 05 de abril.

Por Jean Tosetto


Olá meus amigos, proponho uma breve reflexão sobre como será o mundo depois que a Pandemia do Coronavírus passar – e você não será mais orientado a ficar dentro de casa. Mas, enquanto você está dentro de casa, vamos prestar atenção no lugar onde moramos.

A gente vê na televisão e na Internet entrevistarem médicos e economistas. Porém, muitos esquecem de conversar com os arquitetos, urbanistas e engenheiros civis, que são aqueles profissionais que estão diretamente relacionados com os projetos das casas e das cidades.

A sua casa é bem ventilada? Ela tem ventilação natural? Sua casa tem iluminação natural? O seu arquiteto ou o seu engenheiro se preocupou com isso no projeto? Ou você fez na sua casa sem projeto?

Muitas pessoas constroem sem projeto. É uma pena, mas acontece. A gente respeita essa decisão porque é uma questão de necessidade na maioria dos casos. Então nós, arquitetos e engenheiros: como podemos resolver os problemas das pessoas que não têm condições de pagar por um bom profissional?

Como podemos melhorar nossas casas? Será que a gente tem os arquitetos empenhados nisso, como temos psicólogos dispostos a conversar de graça com as pessoas, neste momento?

Casa organizada suaviza a rotina


Como você pode melhorar a sua casa? Minha recomendação é que olhe para tudo aquilo que você tem e que está ocupando espaço desnecessariamente. Papéis, contas que você pagou há mais de cinco anos: dê embora ou mande reciclar.

De repente a sua criança cresceu e você tem muitos brinquedos guardados, sendo que há crianças precisando de uma distração neste momento. Está na hora de você limpar os brinquedos e doar para outras famílias, para deixar outras crianças felizes.

Você deve ter coisas que você não usa mais, como roupas velhas, por exemplo. Está na hora de deixar outra pessoa vestindo seu casaco. Então, você perceberá que a sua casa vai ficar mais leve e a sua rotina vai ficar mais suave. Sua cabeça também vai ficar mais leve.

Em casa, nós estamos redescobrindo o prazer ou a necessidade de cozinhar o próprio almoço. Então, você tem que organizar a sua cozinha, para que sua esposa – ou você mesmo – prepare as refeições, que terão um sabor diferente, tenha certeza disso.

Quem sabe você tem um violão guardado atrás do armário, por causa da Internet e suas facilidades, esqueceu de tocar – de repente uma corda arrebentou, mas você poderá voltar a produzir novos acordes.

Quem sabe teremos uma leva de novos artistas, não mais para falar de balada ou de curtição, mas para propor músicas que nos façam refletir, como antigamente os compositores faziam.

Nossa cidade também é da nossa conta


Resolvemos o problema da nossa casa? São vários e não vamos resolver em cinco minutos. Mas vamos tratar agora das nossas cidades. Onde estão os urbanistas para bradar aos quatro ventos que precisamos de cidades melhores?

Veja o caso São Paulo. Tem gente que mora na periferia e precisa trabalhar no centro, pois exerce uma atividade essencial. São pessoas que entram em coletivos lotados e ficam duas horas no trânsito para poder trabalhar.

Será que a cidade poderia agir para melhorar isso? Claro que sim! Será que não podemos ter uma cidade onde moradias e trabalhos possam estar mesclados no tecido urbano, ou seja, se entrelaçando melhor? Podemos!

Para tanto, temos de consultar os urbanistas. Nessas horas onde eles estão? Estão nas faculdades? Estão nos sindicatos ou conselhos profissionais? Queremos respostas. Estamos falhando nisso porque sou arquiteto e urbanista. Sei disso. Nós estamos omissos nessa questão.

O Brasil é um país que não investe em saneamento básico. Então, os engenheiros civis precisam pressionar a sociedade e os políticos, para voltarmos a investir em saneamento básico. Se bem que a gente nunca investiu nisso para valer.

Ironicamente, nesta pandemia as pessoas são orientadas para lavarem as mãos e muita gente não tem água na torneira. Isso é um absurdo! O Brasil não fez a lição de casa. Entrementes, neste novo mundo que está para nascer, vamos respeitar, sim, os médicos e os economistas, mas vamos também ouvir mais os engenheiros, arquitetos e urbanistas.

O amanhecer de um novo tempo


O mundo será melhor. Vejo questões que estão sendo levantadas neste momento. O mundo estava ficando sem fronteiras: isso era o sonho de muita gente. Porém, um mundo sem fronteiras é um mundo onde as pandemias ocorrem mais facilmente. Então, como estão levantando barreiras sanitárias, acredito que elas ficarão por mais tempo.

O mundo voltará a ter mais fronteiras para restringir a o livre trânsito de pessoas e mercadorias. Não estou afirmando que isso é uma vontade minha: é apenas uma constatação.

Percebo também que finalmente valorizaremos o trabalho dos cientistas, que neste momento estão pesquisando remédios e vacinas para cura do Coronavírus. Temos, ainda, técnicos desenvolvendo equipamentos mais baratos e práticos para construir ventiladores mecânicos.

Portanto, a ciência tem a sua importância. Ela é muito mais importante do que o esporte e do que a indústria do entretenimento, pura simplesmente, que geram falsos heróis na sociedade: são pessoas que podem ser excelentes, mas que não possuem as respostas para necessidades vitais que nós temos.

Nada contra o atleta do futebol, que ganha milhões, mas nesse momento ele não tem respostas para nossos problemas. Por isso, temos que dar mais valor para cientistas anônimos, que muitas vezes passam anos da faculdade e não recebem o devido reconhecimento.

Ciência e crença


Nós também voltaremos a valorizar o lado espiritual. Cada um tem a sua religião, mas muitos esqueceram do lado transcendental. Sei que há muitas pessoas, agora, perguntando onde estará Deus. Não tenho a resposta, pois não sou teólogo. Porém, acho importante que você faça essa pergunta e acho importante que você procure por uma resposta.

No entanto, se você procurar ela onde todo mundo está procurando – nos mesmos sites, nas mesmas entrevistas, nas mesmas notícias repetitivas – de repente você não encontrará essa resposta.  Logo, você precisa de um tempo para você mesmo, dentro da sua casa, para reativar o seu lado espiritual e, ao mesmo tempo, respeitar o trabalho dos cientistas.

Essa ambiguidade é interessante. É por isso que acredito que teremos um mundo melhor em breve. É complicado falar isso no olho do furacão. Entretanto, esse é o papel de um arquiteto que pensa o futuro.

Espero que você faça sua própria reflexão e que possamos, juntos, seguir nessa jornada que está só começando.

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Uma casa epicurista

A casa epicurista: imagem meramente ilustrativa.
A casa epicurista: imagem meramente ilustrativa.

As pessoas constroem casas, entre outras coisas, pois estão em busca da felicidade. Como seria desenvolver um projeto para Epicuro, um filósofo que dedicou sua vida justamente para esta busca?

Epicuro foi um filósofo grego que viveu entre os anos de 341 e 270 antes de Cristo. Sua doutrina era baseada na busca pela felicidade, de modo que, de tempos em tempos, seus ensinamentos são redescobertos por sucessivas gerações de seguidores.

Os estudiosos apontam que o tripé da felicidade, segundo Epicuro, consiste de uma vida bem analisada, da liberdade para fazer as próprias escolhas e do cultivo das sinceras amizades. Os epicuristas pregam que a felicidade pode ser sentida a partir dos prazeres simples da vida, que não devem ser confundidos com os desejos inúteis e artificiais, como a riqueza e glória, embora a independência financeira e política seja fundamental para sustentar a própria liberdade do indivíduo.

Os prazeres positivos seriam aqueles baseados em desejos naturais, ou seja: aqueles necessários para a proteção e a tranquilidade do corpo, incluindo a nutrição saudável e o sono revigorante. Para Epicuro, um sinal claro de tristeza é ter que fazer uma refeição sozinho. Além do mais, dois milênios depois de seu passamento, a humanidade gasta milhões de dólares em remédios contra a insônia, demonstrando que sua filosofia continua necessária.

Um desafio intelectual


Se fôssemos projetar uma casa baseada nos critérios de Epicuro, ela seria bem diferente das residências que vemos nas páginas de revistas e sites sobre Arquitetura, que priorizam aspectos estéticos e modismos que não respondem aos verdadeiros anseios e necessidades vitais dos seres humanos.

Não se pode confundir a receita da felicidade de Epicuro com o hedonismo, doutrina moral igualmente nascida na Grécia Antiga, que ganhou força durante a lenta decadência do Império Romano ao colocar a busca pelo prazer acima de tudo, sob o lema latino "Carpe diem" (curta o momento).

Os prazeres saudáveis que Epicuro defendia não eram extravagantes. Então, uma casa epicurista seria confortável, sem ser luxuosa: um abrigo para o corpo e a alma, livre dos desejos irrealizáveis para a maioria da população.

Um dos espaços mais valorizados da casa epicurista seria a cozinha em conjunto com a sala de jantar, onde o preparo dos alimentos ganharia destaque na rotina da família, retomando o costume das refeições com todos reunidos diante de uma mesa. Portanto, balcões ou bancadas para refeições rápidas e solitárias não fariam parte do programa. Algo me diz que esquentar comida no microondas seria um sacrilégio para Epicuro que, no entanto, não abriria mão de uma boa geladeira.

Epicuro dava grande valor para frutas, verduras e legumes em sua dieta. Um banquete, para ele, poderia ser feito com apenas um pedaço de queijo. Ele não recusava a carne em seus pratos, mas isso não era uma prioridade. Logo, numa casa epicurista, a churrasqueira seria dispensável, mas talvez um fogão a lenha pudesse ser considerado, bem como a varanda em seu entorno. Porém, a varanda só faria sentido se pudesse ser usada diariamente, e não somente em ocasiões especiais.

Sala para conversar


Se Epicuro encomendasse um projeto para um arquiteto, ele não se preocuparia em construir uma casa para chamar a atenção dos outros, mas certamente consideraria seu núcleo familiar e os amigos mais próximos. Razão pela qual a sala de estar seria uma extensão da sala de jantar, não para ver TV, mas para acomodar longas conversas noturnas.

O aparelho de som seria uma invenção maravilhosa para Epicuro e qualquer filósofo de seu tempo, mas a TV e o Home Theater logo seriam tratados com ressalvas, pois são equipamentos que dificultam os momentos de reflexão. Certamente, em função disso, não haveriam tomadas para computadores, carregadores de smartphones e outras televisões nos dormitórios. Estes seriam espaços exclusivos para o repouso dos filhos e para as relações afetivas do casal. Uma prateleira com livros, ao alcance da cabeceira da cama, seria bem vinda.

Os armários não seriam tão grandes: o suficiente para guardar as roupas realmente utilizadas. Os banheiros seguiriam a mesma premissa, com tamanhos suficientes para a correta higiene do corpo. A banheira, caso coubesse no orçamento, seria um objeto para relaxamento do corpo e da mente, nunca um objeto de ostentação.

Jardim indispensável


Embora a piscina possa ser útil para exercícios físicos, ela não faria parte do programa de necessidades básicas. Porém, um jardim, com espaço suficiente para breves caminhadas de pés descalços, logo cedo, seria impositivo. Um canteiro para cultivo de hortaliças e temperos também. O que era trivial na Grécia Antiga pode ser considerado a extravagância dos tempos modernos: áreas livres e permeáveis, a despeito do metro quadrado dos terrenos estar cada vez mais caro.

Se Epicuro pudesse eliminar a lavanderia do projeto, ele faria isso, pois o barulho da máquina de lavar roupas lhe incomodaria. Então, contrariando a lógica atual de fazer a área de serviço ao lado da cozinha, ele pediria este espaço o mais longe possível da casa, numa edícula aos fundos, que por ele seria compartilhada com os vizinhos, pois seu senso de comunidade era notável. Já o depósito para guardar tralhas seria inútil, uma vez que, em nome da simplicidade dos costumes, elas seriam evitadas.

Acredito que Epicuro seria um cliente perspicaz, a ponto de pedir certos aspectos no projeto que não seriam para satisfazer suas necessidades imediatas, mas lhe permitiram a liberdade de escolha de vender a casa futuramente. Por exemplo: guiar um carro seria uma sensação de liberdade que ele gostaria de experimentar. Então, uma vaga na garagem lhe bastaria.

Porém, pensando no futuro e no comportamento das famílias modernas, ele concordaria em construir duas vagas cobertas, embora jamais a terceira. Duvido que Epicuro gostaria de constatar que a garagem para os carros resultaria no maior cômodo de sua casa. Certamente a biblioteca ocuparia esta honra. A garagem da casa de Epicuro acabaria se tornando um atelier, cedido para alguma pessoa inclinada para as artes em seu círculo íntimo.

Vamos concordar que os livros não estão entre as prioridades das pessoas atualmente. No entanto, um pequeno escritório não deixaria Epicuro corado. Sua casa teria uma adega? Talvez, mas para poucas garrafas. A porta social teria quatro metros de altura? Jamais. A casa teria janelas tão grandes que só poderiam ser limpas com o auxílio de uma escada? Nunca.

A felicidade não está na posse das coisas


A casa de Epicuro faria sucesso em fotografias de colunas sociais? Eu duvido. Porém, pensar sobre como seria sua casa, hoje, nos faz lembrar do tempo que a gente perde trabalhando só para comprar coisas que não nos traz felicidade.

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A relação dos condomínios e loteamentos fechados com a história e o urbanismo de Paulínia

Rua deserta entre dois loteamentos fechados em Paulínia.
Rua deserta entre dois loteamentos fechados em Paulínia.

Entrevista concedida pelo arquiteto e urbanista Jean Tosetto para Laura Peternela, estudante de jornalismo da PUC de Campinas, a respeito de Paulínia ser considerada uma cidade dormitório. Uma conversa franca sobre urbanismo, planejamento, cultura e história da cidade de Paulínia, na região de Campinas, interior de São Paulo. Confira a transcrição editada do vídeo gravado em 25 de novembro de 2019:

- A grande quantidade de condomínios fechados em Paulínia tem influência direta para que a cidade se torne uma "cidade dormitório"?

O primeiro ponto a deixar claro, é separar o que é o condomínio do que é loteamento fechado. Tirando os edifícios de apartamentos, a maior parte dos condomínios residenciais, na verdade, são loteamentos fechados. Qual é a diferença? É que o condomínio é uma área privativa em 100%, até o arruamento e as praças internas são particulares. Já o loteamento fechado é uma concessão da prefeitura, para controlar acesso.

A diferença para quem mora em condomínio é que a casa do condomínio é uma fração ideal de uma área grande, e no loteamento fechado a pessoa é dona da própria casa e tem a própria matrícula do lote. A rua, teoricamente, é pública. Qualquer pessoa que se apresenta na portaria poderia frequentar o loteamento fechado. Isso não acontece na prática, mas é uma concessão que a prefeitura faz e que, a qualquer momento, ela pode retirar.

Agora, dizer que os condomínios e loteamentos fechados são esteio para a cidade de Paulínia ser uma cidade dormitório, eu não vejo dessa forma. Isso é um reflexo de Paulínia já ser uma cidade dormitório, desde a sua origem. Não é porque tem condomínio e loteamento fechado em Paulínia que Paulínia virou cidade dormitório: é pelo fato de Paulínia ser uma cidade dormitório que o município atraiu esses empreendimentos.

- Você acredita que o número de áreas de lazer e outros estabelecimentos na cidade têm diminuído como consequência do foco na construção de moradias?

Paulínia possui diversas áreas de lazer e áreas de cultura já construídas. Qual é o grande problema? A prefeitura não está fazendo a manutenção desses espaços. A gente pode dividir isso na conta da incompetência ou na conta da corrupção. Infelizmente, nessa parte, não posso opinar, porque é dever do Ministério Público fazer a investigação para dizer se realmente teve corrupção nesses anos todos de abandono.

A verdade é que hoje, em Paulínia, você não tem muitas opções de lazer porque você não tem acesso ao espaço. O antigo zoológico de Paulínia está com acesso vetado. O ginásio de esportes está comprometido e precisa de reforma. O ginásio do João Aranha precisa de reforma. O Parque dos Trabalhadores está vetado para uso da população e as piscinas estão abandonadas. A biblioteca de Paulínia não é frequentada.

Então, esse não é um problema dos loteadores. Esse é um problema de gestão pública que não afeta só os moradores de condomínios e loteamentos fechados, mas toda a população, que deve cobrar a efetiva liberação para uso público. Isso não pode ser colocado na conta dos empreendedores.

O que os empreendedores fazem? Eles querem ter um empreendimento que seja atrativo para quem vai morar. O que chama atenção no loteamento fechado ou no condomínio? Existem regras e as pessoas que vão morar no loteamento fechado aceitam essas regras, e uma fiscaliza o cumprimento em relação ao vizinho.

No loteamento aberto as regras também existem, mas o que acontece no loteamento aberto? Infelizmente não tem fiscalização por parte do poder executivo. Paulínia tem quatro ou cinco fiscais: todos eles cabem num Fiat Uno. Eles são esforçados, só que eles não conseguem cobrir toda a demanda que existe.

Então, você mora no loteamento aberto e o seu vizinho resolve abrir uma lanchonete na garagem de casa. Teoricamente não pode: só pode ser uma residência ali, mas ele vê que não acontece nada e no próximo domingo juntam pessoas para ir na lanchonete. O outro vizinho fica aborrecido, vai na prefeitura e a prefeitura não toma providência. No outro dia, o outro vizinho pensa: “Se ele montou uma lanchonete aqui, eu vou montar uma marcenaria”. Ele começa a fazer barulho. Então, no outro dia, aparece um muro pichado.

As pessoas acabam sendo empurradas para o loteamento fechado. Você passa a portaria dele e existe um ordenamento, que seria a cidade ideal. A cidade é idealizada lá dentro. Esses empreendimentos também tem áreas de lazer privativas, mas é interessante notar: eu como arquiteto, visito os loteamentos e as pessoas acabam não usando essas áreas de lazer privativas. Elas acabam buscando o lazer na própria casa. A gente faz projetos e muitas pessoas pedem a piscina no quintal. Elas valorizam muito a varanda gourmet, que é um espaço que fica ocioso a semana inteira, mas teoricamente no domingo a família vai lá.

Então, mais uma vez, não é uma coisa relacionada com o fato de ter loteamento fechado que inibe as áreas públicas de Paulínia, que já tem várias. As que estão abertas funcionam bem. No Parque Zeca Malavazzi, o que é curioso notar? Você vai passear no domingo e presta atenção nas placas dos automóveis: poucos são de Paulínia. A maior parte é de Sumaré e Hortolândia porque lá, sim, está faltando o equipamento público de lazer. Então a pessoa vem fazer o lazer em Paulínia.

Para você entender o que é uma cidade dormitório: as pessoas vão trabalhar onde? Em Campinas e São Paulo, que são os polos de atração das pessoas. Só que, por alguma razão, elas também não querem morar nesses grandes centros.

- Na sua opinião o número de condomínios tende a aumentar ainda mais?

Essa é uma tendência irreversível, no meu entendimento. Temos que entender que o mercado imobiliário é regido por ciclos econômicos. Existe o ciclo econômico do mercado financeiro também. Esses ciclos são alongados: duram cinco, seis, sete anos.

Na verdade, Paulínia passou por um ciclo de baixa, que coincidiu com a recessão econômica do país. Paulínia teve um grande crescimento nos condomínios entre 2007 e 2013, depois interrompeu um pouco e agora está com indício de retomar. Nos próximos anos deve ter alguns lançamentos e depois vai estacionar um pouco.

O que acontece, também? A gente tem que pensar na origem de Paulínia, que poucas pessoas sabem que era uma região que tinha fazendas de café. Você tinha uma estrada de ferro chamada Funilense. Ela saia de Campinas, a partir da Estação Mogiana, e chegava até a região de Conchal.

Os fazendeiros de café eram muito ricos. Eles financiaram a própria estrada e as estações em cada fazenda deram origem aos distritos e cidades nesse alinhamento. Então, você tem o distrito de Barão Geraldo em Campinas. Barão Geraldo era um fazendeiro de café. Você tem Paulínia, que era a fazenda de José Paulino. João Aranha tinha uma estação de trem, também. Mas onde estão as estações? Elas foram demolidas.

A emancipação de Paulínia, nos anos de 1960, coincidiu com o desligamento dessa estada de ferro. Eles começaram a tirar os trilhos da Avenida José Paulino naquela época. O que fizeram com a estação ferroviária? (Que ali era o ponto central da cidade. O marco zero de Paulínia é a estação de trem.) Eles demoliram e aí fizeram uma pequena estação rodoviária no lugar. O que aconteceu com essa estação rodoviária, depois? Ela foi demolida. Se você vai naquele lugar, hoje, que você vê lá? Um estacionamento improvisado e um ponto de ônibus improvisado, no marco zero de Paulínia. Então, Paulínia nasceu sem identidade cultural.

O primeiro ganho populacional de Paulínia foi com a implantação da refinaria de petróleo. Paulínia virou uma cidade dormitório basicamente de quem construiu e começou a operar a refinaria. Tinha três classes nessa época: a classe dos funcionários que recebiam salários maiores morava em Campinas, a classe média da Replan veio morar em Paulínia e os operários que ganhavam menos foram morar em Cosmópolis.

A Avenida José Paulino é comercial, hoje, mas é uma avenida improvisada para o comércio. Ela era uma avenida residencial que aos poucos foi se tornando uma avenida comercial, sem estrutura de transporte coletivo.

A maioria das cidades que têm identidade cultural, essa identidade é relacionada ao que, basicamente? A uma missão católica. Em quase todas as cidades do interior, o ponto zero delas é a igreja matriz e a praça. Em Paulínia não tem isso, porque a matriz de Paulínia não é no marco zero da cidade. A matriz de Paulínia foi construída depois. A igrejinha junto da origem de Paulínia é a igreja de São Bento e poucas pessoas sabem disso, porque a praça que tem na frente é o canteiro central da avenida onde passava a linha de trem. Porém, você não tem nenhum pé de café para contar a história.

Aí você chega no ponto que os prefeitos mais recentes (os megalomaníacos, vamos falar assim) fizeram um teatro majestoso em Paulínia. E olha que engraçado: o teatro de Paulínia dá as costas para a maior parte da cidade. Ele foi feito numa avenida onde é mais fácil você morar no Alphaville (em Campinas) e chegar no teatro de Paulínia, do que você morar no Marieta Dian (em Paulínia) em chegar no teatro de Paulínia. Então, a identidade cultural de Paulínia também se perdeu, mesmo com esse projeto majestoso. Para reverter isso é um processo de longo prazo.


A fachada do Theatro Municipal de Paulínia é voltada para a sede da Prefeitura. Ambas as edificações estão numa avenida de fácil acesso para outras cidades, como Campinas, Sumaré e Hortolândia.
A fachada do Theatro Municipal de Paulínia é voltada para a sede da Prefeitura. Ambas as edificações estão numa avenida de fácil acesso para outras cidades, como Campinas, Sumaré e Hortolândia.

- Como esse número (de empreendimentos) pode afetar pessoas que não tem condições de morar em condomínios fechados? Pode levar a marginalização de uma parte da cidade?

O reflexo de você ter vários loteamentos fechados e condomínios, todos eles murados ou cercados (você tem até dois loteamentos fechados onde um é vizinho do outro e a rua central é deserta, porque são duas fortalezas), é uma discrepância social, com certeza.

Mas esse fenômeno não pode ser visto isoladamente, em Paulínia. Tem que puxar na região de Campinas para compreender o contexto. Se você observar os bairros centrais de Campinas, como Botafogo e Guanabara, eles foram muito povoados nos anos de 1970 e as pessoas foram deixando essas áreas centrais, primeiro para morar nos loteamentos fechados de Campinas e depois que estes ficaram preenchidos, foram para Valinhos e Vinhedo. E elas acabam vindo para Paulínia. Se você passar de carro, hoje, no Guanabara e no Botafogo, você verá muitas casas vazias, muitas casas para vender, muitas casas para alugar e algumas casas virando comércios ou clínicas.

O que aconteceu? Campinas não tem a arrecadação que tem em Paulínia. Campinas não tem uma refinaria de petróleo. O que eles fizeram nos últimos anos? Aumentaram muito o IPTU. Isso foi expulsando a classe média de Campinas para outras cidades e Paulínia recebeu muita gente de Campinas neste processo.

Quem não pode ir morar no loteamento fechado, acaba se sujeitando a morar na periferia de Paulínia, nos loteamentos abertos. O que acontece muito em Paulínia? Num lote que só pode construir uma casa, por lei, as pessoas acabam construindo duas casas, às vezes três casas. Mas existem cortiços com quatro casas num lote e as famílias vão se aglomerando nessas regiões. E como não tem aquela infraestrutura planejada, isso é propício para a marginalização, primeiro do ambiente urbano e depois do comportamento das pessoas.

Aí você tem dificuldade de fiscalizar e a polícia tem dificuldade para fazer o policiamento. Não é por acaso que, nos bairros mais afastados de Paulínia, os índices de criminalidade estão aumentando. E não só na periferia, pois eles acabam indo para o centro, também. É uma questão complexa.

- De que maneira a quantidade de condomínios pode afetar o comércio local?

O que acontece com quem mora em condomínio ou loteamento fechado? São pessoas que dispõem de carro. O carro é visto, hoje, como vilão da sociedade – eu não vejo assim. Mas muitas pessoas que tem carro podem escolher onde vão consumir. E aí acontece outra coisa: a concorrência do Shopping Center com o comércio de rua.

Você vai num Shopping Center, é tudo organizado: tem estacionamento, tem uma pseudo segurança, tem um clima controlado pelo ar condicionado e as lojas que respeitam o gabarito. E no comércio de rua, seja em Campinas, seja em Paulínia, você tem dificuldade para estacionar carro, você tem sol e chuva interferindo no deslocamento dos pedestres, você não tem uma estrutura de transporte coletivo que facilite. Você tem um improviso na cidade: a cidade não é planejada, a cidade é improvisada.

Então, isso colabora para as pessoas procurarem por Shoppings de Campinas, principalmente, mas também em outras cidades da região.

- Existe a possibilidade de Paulínia não se tornar uma cidade dormitório? Quais medidas ou projetos urbanos poderiam ser implantados para que isso não ocorra?

A gente tem que, nesse sentido, resgatar a história do Império Romano. Qual era o ditado, antigamente? “Todos os caminhos levam à Roma”. Por que Roma construiu um Império? Porque ela fazia trocas comerciais frequentes.

Então, qual é o problema de Paulínia? Paulínia tem as grandes indústrias, como a refinaria e a Rhodia. A Rhodia também tinha uma vila de moradores própria, depois ela desligou essa vila. Mas você tem que fortalecer o comércio de Paulínia e estruturar novos vetores de crescimento.

Retomando, qual é o grande problema de Paulínia? É uma cidade cortada pelo o Rio Atibaia. Isso, por si só, não é um problema. O problema é que só tem uma ponte integrando o centro de Paulínia com a região do João Aranha, e esse vetor, que já está completamente preenchido, está improvisado e congestionado.

Você precisaria ter mais duas pontes ligando o centro de Paulínia com região do João Aranha, e a partir dessas duas pontes – não só para carros, mas prevendo o transporte coletivo, como trem e metrô – você estruturaria dois eixos novos com planejamento para a instalação de comércios e mesmo indústrias. Dessa forma você conseguiria segurar a população na cidade e atrair a população para consumir dentro do próprio município.

O segundo ponto é que Paulínia precisa melhorar a integração com as cidades vizinhas, porque isso também é benéfico para todas as cidades. Se você olhar hoje, Paulínia tem uma ligação muito boa com Campinas e uma ligação boa com Sumaré. Mas em Americana, que é uma cidade importante e vizinha de Paulínia, você tem uma estrada vicinal precária para chegar lá, praticamente intransitável.

O outro absurdo: você tem Paulínia fazendo divisa com Jaguariúna, na ponta do Circuito das Águas, que é uma região turística importante de São Paulo. E os rios que passam no Circuito das Águas se encontram onde? Na divisa de Paulínia com Cosmópolis, na Fazenda do Funil – eles formam o Rio Piracicaba. E você não vê Paulínia explorando esse lado turístico.

O que falta entre Paulínia e Jaguariúna? Uma estrada asfaltada. Essa estrada já existe: é uma estrada de terra e há muitos anos a prefeitura colocou um portão nela, para bloquear o tráfego de automóveis. Então, você teria uma ligação de Paulínia com Jaguariúna, sem pedágio, na ponta do Circuito das Águas. Olha o fluxo de pessoas que iria favorecer um novo vetor de crescimento na cidade...

Então, Paulínia tem que olhar para a própria cidade e tem que olhar para as cidades vizinhas. Você precisa de políticos com essa visão de planejamento. Infelizmente, isso falta na nossa cidade: as pessoas têm um foco distinto quando elas querem se eleger como prefeito ou vereadores, elas querem resolver demandas pessoais, na maioria das vezes. Elas não pensam na cidade como um todo e não pensam no longo prazo.

Paulínia não tem uma elite intelectual pensante. Paulínia tem alguns radicais livres que não atuam em conjunto para influenciar nesse processo, infelizmente.



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Lições milenares de Roma que Paulínia ainda não aprendeu

Ponte sobre o Rio Tibre que conduz ao Castelo de Sant'Angelo em Roma, Itália.
Ponte sobre o Rio Tibre que conduz ao Castelo de Sant'Angelo em Roma, Itália.

O império romano construiu pontes e estradas para garantir seu domínio sobre as regiões conquistadas. Dois milênios depois, Paulínia ainda está atrasada neste sentido.

Por Jean Tosetto

Roma, a capital da Itália, é uma cidade conhecida mundialmente por abrigar o Vaticano e por ser o berço do Império Romano, que há quase dois milênios moldou os fundamentos da Cultura Ocidental ao promover a junção do direito romano com a filosofia grega e a ética judaico-cristã.

Roma é mais do que um livro de História aberto e mais do que um museu ao ar livre. A Cidade Eterna sobreviveu aos séculos graças à robustez de sua Arquitetura e aos seus esforços na construção de pontes e estradas. Não por acaso: "Todos os caminhos levam à Roma".

Quem tem o prazer de visitar a clássica metrópole, sabe que ela é cortada pelo Rio Tibre, que por sua vez é vencido em vários pontos por pontes - uma mais bela que a outra. Além das pontes, os romanos construíram viadutos e aquedutos - muitos deles por meio de arcos plenos de pedras encaixadas que resistem até hoje.

Desde modo, Roma estabeleceu-se como sede do Império que no seu auge abarcava toda boa parte  da Europa, o Oriente Médio e o Norte da África, contornando o Mar Mediterrâneo. As pontes e estradas romanas garantiram por séculos o desenvolvimento econômico de todo o entorno da Península Itálica.

Com todos os problemas atuais típicos de um grande cidade, os romanos são apaixonados pelo lugar onde vivem. Subentendida em outro ditado famoso - "Em Roma, fale como os romanos" - está a orientação para não falar mal da cidade que acolhe turistas de todo o mundo.

A estrada entre Paulínia e Jaguariúna, no interior de São Paulo, que pouca gente conhece.
A estrada entre Paulínia e Jaguariúna, no interior de São Paulo, que pouca gente conhece.

Do outro lado do Oceano Atlântico estou em Paulínia. Como arquiteto que atua nesta cidade do interior de São Paulo, não deveria falar mal dela, afinal de contas, Paulínia é parte da minha trajetória e do meu sustento. Mas por ser apaixonado pela minha cidade, me permitam tecer algumas críticas construtivas sobre ela.

O perímetro urbano de Paulínia é cortado pelo Rio Atibaia, que separa a região central da região do João Aranha, onde ficam loteamentos fechados importantes, como o Residencial Campos do Conde I e II, o Fontanário, o Residencial Aurora, o Residencial Raízes, além dos populosos Jardim Planalto, Residencial São José I e II e Marieta Dian. É muita gente morando nesta região e muito carro circulando também.

É um absurdo que a região do João Aranha seja ligada ao centro de Paulínia por apenas uma ponte sobre o Rio Atibaia. Deste modo, quem precisa ir para Campinas ou São Paulo, e voltar destas cidades, deve passar pelo centro de Paulínia. Resultado: a cidade com apenas 100 mil habitantes sofre com engarrafamentos feito uma cidade grande.

Parece tão óbvio, mas precisamos escrever: quem governa Paulínia deveria ter a seguinte prioridade: construir pelo menos mais duas pontes para desafogar o João Aranha. A primeira ponte seria para a região do Parque da Represa, de modo que a Rodovia Anhanguera pudesse ser acessada diretamente. A segunda ponte nem precisaria ser sobre o Rio Atibaia, mas deveria ligar o João Aranha à Rodovia Professor Zeferino Vaz. Quem mora no Jardim Calegaris agradeceria profundamente esta decisão.

Ecologia e Matemática

O que custa mais ao meio ambiente? Fazer mais uma ponte sobre o Rio Atibaia, ou respirar o ar dos dois engarrafamentos diários, de manhã e no fim da tarde? Carros andando a menos de 10 km/h perto de escolas e matas ciliares... A resposta me parece clara.

E será que todos os caminhos levam até Paulínia? Como certeza não. Como Paulínia se relaciona com municípios vizinhos? Vejamos:

A principal ligação com Campinas é feita pela Rodovia Professor Zeferino Vaz e, a despeito do trânsito complicado nos horários de pico, ainda teremos que ser gratos se o governo estadual e a concessionária não construírem uma praça de pedágio no meio do percurso.

O caminho alternativo, pela Estrada da Rhodia que liga Paulínia com o Distrito de Barão Geraldo em Campinas, está seriamente prejudicado com a interdição da ponte sobre o Rio Anhumas há alguns anos. É uma vergonha para a classe política que isso ainda não tenha sido resolvido. Como isso sofrem os moradores de Betel, que serve de desvio para essa rota. Ou seja: a ligação entre Paulínia e a Unicamp, mais dois hospitais importantes, está precária.

Na outra ponta temos Cosmópolis. A única via asfaltada para lá é também a Rodovia Professor Zeferino Vaz, quem tem uma praça de pedágio. Isso prejudica a população menos abastada que precisa se deslocar entre as cidades. O caminho secundário é uma estrada vicinal de terra, que passa sobre uma antiga ponte da linha de trem desativada que, se é difícil de se percorrida de dia, é intransitável de noite.

Muitos buracos - pouca sinalização

Na mesma região do funil entre o Rio Atibaia e o Rio Jaguari, temos a vicinal asfaltada que liga Paulínia com Americana, perto da divisa com Limeira. Eis uma estrada de importância fundamental, que se encontra esburacada, sem sinalização e sem acostamento. Uma vergonha para uma cidade que tem uma das arrecadações mais altas do Brasil.

Em estado semelhante está a vicinal que liga Paulínia com o Distrito de Nova Veneza, em Sumaré, partindo do Parque da Represa. Se esta via estivesse em melhores condições, poderia desafogar a principal ligação de Paulínia com a Rodovia Anhanguera, no viaduto que também dá acesso para Hortolândia.

Deixei a situação mais absurda para o final: Paulínia faz divisa com o município de Jaguariúna, na borda do Circuito Paulista das Águas, mas pouca gente se atenta para isso. Há uma estrada vicinal, parcialmente asfaltada, que liga as duas cidades. Esta via parte das imediações da Replan, perto do clube recreativo de seus funcionários, e chega no entorno da Unifaj - Centro Universitário de Jaguariúna. Este caminho simplesmente está interditado, há vários anos, por um portão metálico trancado, e não há explicação lógica para este fato.

Esta é uma estrada que deveria ser livre e asfaltada, pois evitaria que o morador de Paulínia passasse pela congestionada Rodovia Dom Pedro em Campinas para acessar o Circuito Paulista das Águas e o Sul de Minas Gerais. ao invés disso, temos que dar uma volta grande e pagar mais um pedágio.

Cobre de seu candidato

"O desenvolvimento econômico de Paulínia, Jaguariúna, e outras cidades das imediações que se dane". Esta parece ser a mensagem que os políticos e governantes da nossa região transmitem para a população.

Eles deveriam seguir o exemplo de Roma: focar na construção de pontes e estradas. Isso é tão óbvio! Mas essa classe não enxerga - ou não quer enxergar - o óbvio. Eles gostam de passar as férias nos parques da Disney, na Flórida, e esse mundo de faz de conta deve turvar o entendimento deles.

Minha sugestão para os nossos políticos: troquem umas férias em Orlando por uma visita em Roma. Por favor, aprendam algo com os romanos. Mas dos romanos antigos nossos políticos seguem apenas uma péssima lição: eles ficam maquinando como vão derrubar o próximo governante.

Meu amigo paulinense: nas próximas eleições municipais, pergunte sobre Roma para o candidato que bater na porta da sua casa, para pedir seu voto.

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Arquiteto ou Engenheiro?

O pequeno arquiteto: é na tenra idade que se aprende a gostar de um ofício.

No Brasil ainda é muito comum confundirem as profissões de Arquitetura e Engenharia que, a despeito de suas interdependências, possuem distinções claras, especialmente no âmbito de suas formações.

Por Jean Tosetto *

O mês de dezembro é um dos mais festivos no calendário da cultura ocidental. Com o fim do ano se aproximando, as confraternizações se acentuam nas empresas, no comércio e nas praças públicas, culminando nas ceias natalinas e na celebração do ano novo. Para a Engenharia e a Arquitetura este período é especial em nosso país, uma vez que se comemora o Dia do Engenheiro em 11 de dezembro e o Dia do Arquiteto em 15 de dezembro.

O Dia do Engenheiro remete ao decreto de 11 de dezembro de 1933, do presidente Getúlio Vargas, que regulamentou as profissões da Engenharia, Arquitetura e Agrimensura. Por quase oito décadas, este foi também o Dia do Arquiteto, dado que este profissional tinha sua atuação fiscalizada pelo sistema unificado CONFEA/CREA – atual Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.

Com a criação do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – mediante decreto do presidente Lula em 31 de dezembro de 2010, 15 de dezembro foi escolhido como o novo Dia do Arquiteto, rememorando o aniversário de Oscar Niemeyer, o expoente máximo da Arquitetura no Brasil.

A separação dos conselhos profissionais deu origem a uma disputa judicial referente ao campo de atuação de arquitetos e engenheiros, com o CAU defendendo o direito exclusivo do arquiteto – agora também urbanista por definição – de elaborar o projeto arquitetônico, entre outras atividades. O CONFEA por sua vez, atua para preservar o que considera um direito adquirido pela Engenharia.

Chegamos ao ponto central da questão: muitos leigos, quando pensam em construir, ainda confundem as profissões da Engenharia e da Arquitetura, notadamente no momento da contratação do projeto. Ainda é comum perguntarem num escritório de Arquitetura se o arquiteto pode assinar o projeto ou se será necessário contratar também um engenheiro. O fato é que um arquiteto pode tanto assinar um projeto quanto ser responsável técnico pela obra, bem como o engenheiro, salvo decisão judicial definitiva que impeça o último de atuar como projetista.

Arquitetos que visitam obras são chamados de engenheiros por pedreiros e serventes, e vice e versa. Se a confusão ainda impera, qual seria a diferença fundamental entre o arquiteto e o engenheiro? Há quem diga que engenheiros projetam obras quadradas e arquitetos projetam obras redondas. Este é um reducionismo barato que definitivamente gera mais preconceito do que real entendimento na distinção das profissões.

O engenheiro que atua em obras civis não é o engenheiro mecânico ou químico: é o engenheiro civil. Sua formação é justamente em Engenharia Civil. E o que seriam obras civis? Fácil: pontes, viadutos, estradas, barragens, canais, túneis e obras de grande porte, como edifícios de vários andares e grandes vãos. Obviamente, se um engenheiro civil estuda sobre tudo isso ele estaria apto para projetar uma simples casa, não?

Aí é que entra o arquiteto. Sua formação não se limita às ciências exatas, baseada em cálculos, planilhas, cronogramas e resistência dos materiais. A Arquitetura permeia também as ciências humanas, que englobam inserções no campo da Sociologia, História e Artes Plásticas. Em suma, o arquiteto estuda a ocupação humana dos espaços. Por isso ele também é um urbanista, pois as cidades não são apenas um amontoado de prédios, ruas e avenidas com pontes e viadutos: o primordial é que elas são habitadas por gente.

Para um arquiteto, não basta apenas deixar uma casa de pé, mas saber como ela pode ser mais útil, prática e confortável para seus usuários, e também como esta casa pode se inserir no tecido urbano, para que ela nunca esteja isolada de seu contexto. O que diferencia o arquiteto do engenheiro, basicamente, é o foco da sua formação. O primeiro é o profissional do projeto e suas variações humanísticas; e o segundo é o profissional da execução, com a maior eficiência possível.

A prática profissional contínua pode fazer de um engenheiro um ótimo projetista, assim como pode fazer de um arquiteto um ótimo administrador de obras. O ideal seria que cada construção pudesse contar com os dois profissionais, embora a realidade do mercado brasileiro ainda não permita isso - o que pode ser visto em inúmeras obras tocadas no sistema da autoconstrução, com supervisão eventual de arquitetos e engenheiros. A autoconstrução é tolerada inclusive por bancos que fazem o financiamento de obras, embora de modo controverso.

Portanto, não será restringindo o trabalho do engenheiro que o mercado de trabalho do arquiteto será melhor ou mais garantido. O que deve ser combatido, tanto pelos conselhos profissionais dos engenheiros como dos arquitetos, são os maus profissionais, principalmente aqueles que acobertam terceiros, assinando projetos para pessoas sem formação. Os profissionais que barateiam os projetos, pensando nas comissões e reservas técnicas dos fornecedores de materiais e outros serviços durante a obra, também devem ser combatidos, pois aviltam a profissão como um todo ao centrar sua fonte de renda em propinas, não em projetos.

Seja arquiteto, seja engenheiro, a verdade é que todos podem se felicitar no dia 25 de dezembro, pois em cada Natal comemoramos, juntos, o nascimento de Jesus, que para bilhões de pessoas ao redor do mundo é o filho do Arquiteto do Universo. Ou seria Engenheiro do Universo?

Sobre o autor:

* Jean Tosetto é arquiteto e urbanista formado pela PUC de Campinas. Desde 1999 realiza projetos residenciais, comerciais, industriais e institucionais. Em 2006 foi professor da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Publicou o livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” em 2012. Três anos depois, a convite da 893 Editora, escreveu em parceria com Ênio Padilha o manual para o profissional recém-formado: Arquiteto 1.0 - disponível também em vivalendo.com

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O papel do Arquiteto como Urbanista

O Arquiteto não deve ser um coadjuvante no planejamento das cidades: como Urbanista, sua atuação é fundamental.

No meio acadêmico as metáforas esportivas são refutadas, e o mesmo se aplica na correspondência entre filósofos que se prezam. Como não somos catedráticos e sequer temos a pretensão de nos expressar feito epicuristas ou estoicos, vamos recorrer ao futebol - esse desporto coletivo tão apaixonante - para ilustrar a correspondência que segue logo mais.

Quem já correu atrás de uma bola sabe que, por vezes, recebemos um passe perto da área, com grandes chances de chutar direto para as redes. Mesmo sem olhar para o lado, no entanto, sabemos que um colega do time vem correndo, melhor posicionado, para marcar o tento. Então, rolamos a pelota redondinha e rasteira pela grama, para a conclusão vir de primeira. Eis um golaço.

Estudo de planejamento territorial desenvolvido pela Comurb.
Estudo de planejamento territorial desenvolvido pela Comurb.

No dia 21 de setembro de 2014 recebemos a seguinte mensagem de André Corrêa:

"Sou estudante do curso de Arquitetura do Centro Universitário Filadélfia - Unifil (Londrina - PR), e como parte da grade curricular, eu preciso fazer um trabalho sobre o desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos. O trabalho subdivide-se em duas partes:

1) Uma fundamentação teórica; essa parte, mesmo com bibliografia escassa, já vencida.

2) Percepção pessoal de um arquiteto.

Sendo assim, tomei a liberdade de entrar em contato justamente visando encontrar uma resposta (ou comentários) para essa segunda indagação, ou seja: qual é o papel do arquiteto no processo de desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos?

Desde já agradeço a atenção e colaboração."

No dia seguinte a resposta foi curta e esperançosa:

"Retransmito sua questão para o meu amigo Alan Cury, pois creio que ele possa responder com maior propriedade."

Mais um dia se passa, e o Alan não decepciona:

"Colegas, bom dia!

Jean, mais uma vez obrigado por sua lembrança e consideração.

André, você deseja um parecer por escrito, sobre a última questão? Se sim, vamos lá:

Qual é o papel do arquiteto no processo de desenvolvimento e lançamento de novos loteamentos?

O Arquiteto tem por formação, a atribuição em Desenhar e Planjear as cidades, pela técnica do Desenho Urbano e Políticas Públicas de ordenamento do solo, como ferramenta de indução para que se alcance o planejado.

Tal pasta – o Planejamento Urbano é comumente confundido ou mal interpretado pelas administrações públicas, que  acabam por entender se tratar de uma questão econômica. Não é. Planejamento Urbano é muito mais que isso. Trata-se do entendimento completo de Cidade, e traçados indutores para alcançar aquilo que chamamos de “Cidade que Queremos”. Neste “Queremos”, está incluso o desejo social, o desenvolvimento sustentável, o equilíbrio econômico, a solução de mobilidade, saúde pública, lazer, cultura, enfim, Cidade.

Como em nosso país, as administrações municipais consomem todo seu recurso em pagamento de salários e insumos, não há recursos disponíveis para investimentos e melhorias. Desta forma, a construção das cidades é terceirizada à iniciativa privada, que licitamente busca extrair o melhor lucro possível. Antigamente, picar lotes e vender era simples e rápido, mas hoje não mais. O consumidor, de qualquer classe, é mais exigente. Desta forma, estamos vivendo uma transformação de realidades em novos loteamentos. Agora, são novas centralidades, com comércio, serviços, equipamentos públicos, segurança e saúde, além da habitação. Os chamados Bairros Planejados já são realidade em grandes centros, e começam a migrar por todo o Brasil, com preocupações inéditas, como o aproveitamento da água de chuva, a coleta de energia solar e eólica, o tratamento de efluentes, parques e jardins melhor dimensionados e assim por diante.

Onde entra o Arquiteto neste contexto? O Arquiteto é o Único Profissional Habilitado para coordenar e planejar tamanha diversidade de atividades, de forma a transformar uma porção de terra em uma centralidade complexa e funcional. Por traz do Arquiteto, são inúmeras as profissões que colaboram nesta empreitada. Todos trabalham em harmonia, como uma orquestra, onde o Arquiteto é o Maestro.

Como complemento à este e-mail, me apresento:


Alan Silva Cury - Arquiteto e Urbanista
Alan Silva Cury - Atual Presidente do Núcleo Regional Campinas e Conselheiro Superior Nacional do IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil, possui pós-graduação em Arquitetura e Projeto Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2005), onde também formou-se Arquiteto Urbanista (2001). É sócio-diretor da empresa privada de planejamento e desenho urbano Comurb SPU Ltda, fundada 1976. Ministra palestras relacionadas às atividades profissionais que exerce, em faculdades de arquitetura como PUC Campinas, UNIP, Unicamp, FAAP, Metrocamp, Veris-IBTA, Universidade São Francisco, e outras. Já participou como Arquiteto Convidado Externo, para dezenas de Bancas Finais de Graduação em diversas faculdades. Foi professor-convidado da Faculdade de Engenharia da PUC Campinas, para ministrar o curso de Desenho Arquitetônico.

Fraterno abraço, e bem-vindo à Arquitetura!"

Gol marcado, vamos correr para o abraço e anotar o serviço na súmula:

COMURB
Alan Cury
Comurb SPU Ltda
Rua Dr. Alexander Fleming, 746
Nova Campinas
Campinas – SP - CEP 13.092-140 - Brasil
Tel +55 (19) 3254 7933
www.comurb.com.br

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O que podemos aprender com os Shoppings?

Por Jean Tosetto *

Em 2006 fui convidado para ministrar um curso sobre mobilidade urbana para alunos da efêmera Faculdade de Administração Pública de Paulínia. Um dos exercícios mais interessantes que propus foram visitas comparativas entre o centro comercial tradicional de Campinas e um Shopping Center localizado na Rodovia Dom Pedro.

Elaborei um questionário que funcionou como um roteiro elucidativo para destacar as diferenças fundamentais entre os dois tipos de espaços. A primordial todos já sabiam: o centro da cidade era um espaço público e o Shopping era um espaço privado, embora de acesso público. Passados alguns anos, tal exercício continua válido, diante de cenários que praticamente não se alteraram.

A calçada pública sofre com degraus, desníveis, sujeira, diferentes tipos de acabamento, postes mal planejados, além de ser estreita e espremida pelos automóveis. Falta ao centro da cidade um padrão de comunicação visual.
A calçada pública sofre com degraus, desníveis, sujeira, diferentes tipos de acabamento, postes mal planejados, além de ser estreita e espremida pelos automóveis. Falta ao centro da cidade um padrão de comunicação visual.

Para entrar num Shopping, geralmente você desce de um ônibus coletivo ou deixa o carro num bolsão de estacionamento, caminha 100, 200 ou mesmo 300 metros até ingressar por uma porta convidativa. Os carros e os ônibus ficam do lado de fora. E no centro da cidade? Os carros passam a poucos centímetros das vitrines das lojas, propagando fumaça e barulho para os pedestres. Só neste aspecto temos duas questões: a poluição ambiental e a poluição sonora.

No centro da cidade, nossos ouvidos são bombardeados por buzinas e vendedores falando ao megafone. Fora aqueles carros de som, sempre com o volume mais alto do que o aceitável. No Shopping a música ambiente é controlada. Os limites estão claramente estabelecidos.

A poluição visual também é um agravante. Nas ruas das cidades, cada loja procura chamar mais atenção do que a concorrência. Luminosos escondem as fachadas originais dos prédios e uma profusão de ofertas é praticamente pichada em cartazes. Os postes de energia, repletos de placas e papéis colados, carregam fios expostos que deturpam qualquer intenção de qualidade estética.

Já nos Shoppings, as vitrines também guardam diferenças entre si, mas existem certos padrões com relação à largura e altura de cada loja, e cada ponto comercial só funciona se apresentar um rigoroso projeto de arquitetura de interiores à administração do local.

A circulação de um Shopping é livre da sujeira e dos carros, tem acabamento uniforme e é livre de obstáculos. A presença de vigilantes bem vestidos transmite confiança aos transeuntes. A qualidade espacial é superior à vista nos locais públicos.
A circulação de um Shopping é livre da sujeira e dos carros, tem acabamento uniforme e é livre de obstáculos. A presença de vigilantes bem vestidos transmite confiança aos transeuntes. A qualidade espacial é superior à vista nos locais públicos.

Os corredores dos Shoppings, sempre de boa largura e acabamento padronizado para favorecer a circulação das pessoas, são livres de degraus não planejados, desníveis, buracos e manchas de chiclete - que considero um símbolo perfeito para a falsa noção de espaço público, difundida no Brasil. Caminhe pelas ruas brasileiras e comece a contar as marcas de chiclete no chão. As pessoas cospem isso no espaço público, pois consideram que este não possui dono, quando na verdade todos nós somos proprietários dele.

Os chicletes mastigados deveriam ser jogados em lixeiras, mas elas praticamente não existem nas ruas, e são abundantes nos Shoppings. Além do mais, os Shoppings possuem sanitários limpos, escadas rolantes, ar condicionado e vigilância permanente.

O Estado ausente

Se perguntarmos para a maioria das pessoas o motivo pelo qual elas preferem ir ao Shopping do que ao centro da cidade, elas vão citar justamente a questão da segurança, esquecendo de todo o resto. Mas é todo o resto que faz a diferença, e mesmo que os produtos e serviços oferecidos nos Shoppings sejam mais caros em função destes diferenciais, tais lugares continuam atraindo mais gente, deixando para o comércio de rua a opção de diminuírem a margem de lucro, trabalhando com artigos mais populares.

Alguns centros comerciais, em função de seus preços mais acessíveis, continuam sendo bem movimentados, mas eles deixaram de ser um programa para famílias que buscam lazer além das compras. É por isso que nossas praças públicas ficaram desertas nos fins de semana.

Como os gestores públicos podem reverter ou ao menos equilibrar esta tendência? Em primeiro lugar ocupando o espaço público com o policiamento comunitário, mas também adotando leis para regular a comunicação visual, padronizar as calçadas e dotá-las de acessibilidade universal. E o mais difícil: alterar o sistema viário para recuperar as vias públicas para os pedestres, que sim, são mais importantes do que os carros.

Logicamente várias outras medidas são necessárias, que os agentes públicos não podem tirar de uma cartola, como num passe de mágica. É neste momento que o papel do urbanista é fundamental.

A premência do urbanista

Com a criação do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo – no começo da década de 2010, todos os arquitetos passaram a ser denominados também como urbanistas. Porém, na prática, poucos arquitetos atuam realmente como urbanistas: a maioria está enclausurada nas atividades acadêmicas e os poucos que trabalham na iniciativa privada são responsáveis justamente pelos melhores condomínios e loteamentos fechados das grandes cidades.

É muito difícil ver um urbanista trabalhando como urbanista em qualquer prefeitura. Em regra geral, os departamentos de planejamento urbano das cidades são tocados por engenheiros, desenhistas práticos e até por profissionais de outras áreas, colocados ali mediante cargos de confiança. A situação ideal seria que cada prefeitura pudesse contar com um escritório municipal de urbanismo, para municiar legisladores e gestores públicos com soluções para curto, médio e longo prazo.

Como arquiteto e urbanista, faço um “mea-culpa”. Nós, urbanistas, não conseguimos articular um discurso compreensível para a população e para classe política, justificando a importância de nossa atuação. Os urbanistas gostam muito de participar de congressos e palestras, para tomar café a vontade e sonhar com a cidade ideal. A realidade lá fora indica que os urbanistas não participam do planejamento e do crescimento das cidades, tarefa que fica sob a tutela de políticos mesclados com grandes especuladores imobiliários.

A julgar pelos novos condomínios e loteamentos fechados que estão sendo lançados a cada ano, posso atestar que os urbanistas que atuam em seus projetos são muito competentes. Muitas das regras adotadas nestes empreendimentos são as mesmas que valem para loteamentos abertos, como por exemplo, o recuo frontal mínimo de quatro a seis metros, e a proibição de construção de mais de uma casa por lote.

É interessante notar que as pessoas, assim como preferem pagar mais caro pela mesma camisa polo num Shopping, procuram os loteamentos fechados para morar. Elas se sujeitam a respeitar as regras internas, que muitas vezes seriam desrespeitadas lá fora – os puxadinhos e as casas geminadas estão aí para provar. Por alguma razão as pessoas acreditam que, respeitando as regras, a valorização de seus imóveis estará garantida.

Neste ponto voltamos à noção de espaço público. Se as regras são parecidas, como fazer para alterar a cultura de que espaço público é espaço de ninguém? Se todos nós respeitarmos as regras que já existem, vamos recuperar também a qualidade de vida em nossas cidades. Isso vale tanto para as residências como para o comércio.

Fiscalizar é preciso

Muitas vezes, as regras só são respeitadas quando existe fiscalização. Em qualquer Shopping existe muita fiscalização interna, embora ela pareça camuflada. Associações de loteamentos fechados e condomínios contratam engenheiros e arquitetos para fiscalizarem o andamento das obras e avaliar os projetos para construção.

Infelizmente as cidades pecam por não investir em fiscalização nos espaços públicos e loteamentos abertos. Esse é o tipo de atividade que costuma ser impopular e, como todo brasileiro sabe, os políticos em sua maioria pensam mais na próxima eleição do que propriamente no bem da cidade.

Por isso, o tecido urbano das cidades está cada vez mais desorganizado, os entulhos se acumulam em terrenos baldios, os sacos de lixos transbordam em bocas de lobo e as edificações estão cada vez menos iluminadas e ventiladas naturalmente.

Neste ciclo viciado, cada vez mais as pessoas vão procurar refúgio momentâneo dentro de Shoppings e loteamentos fechados. Se a noção do espaço público como terra de ninguém prevalecer, então os centros tradicionais estarão condenados à decadência - o mesmo valendo para os loteamentos abertos e as periferias, sempre esquecidas pelos agentes públicos.

É isto que desejamos para as nossas cidades? Claro que não. Então precisamos comprar mais do que roupa e comida nos Shoppings: precisamos comprar as boas ideias que seus gestores privados talvez não queiram vender, mas que são de graça.

* Jean Tosetto é arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999 e é autor do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone", publicado em 2012.

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A casa conceito: idéias para construir em novos tempos
Inclusão via desenho universal 
O espelho da democracia
V - Desenvolvimento urbano
I - A inclusão social pela mobilidade urbana
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