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Lições milenares de Roma que Paulínia ainda não aprendeu

Ponte sobre o Rio Tibre que conduz ao Castelo de Sant'Angelo em Roma, Itália.
Ponte sobre o Rio Tibre que conduz ao Castelo de Sant'Angelo em Roma, Itália.

O império romano construiu pontes e estradas para garantir seu domínio sobre as regiões conquistadas. Dois milênios depois, Paulínia ainda está atrasada neste sentido.

Por Jean Tosetto

Roma, a capital da Itália, é uma cidade conhecida mundialmente por abrigar o Vaticano e por ser o berço do Império Romano, que há quase dois milênios moldou os fundamentos da Cultura Ocidental ao promover a junção do direito romano com a filosofia grega e a ética judaico-cristã.

Roma é mais do que um livro de História aberto e mais do que um museu ao ar livre. A Cidade Eterna sobreviveu aos séculos graças à robustez de sua Arquitetura e aos seus esforços na construção de pontes e estradas. Não por acaso: "Todos os caminhos levam à Roma".

Quem tem o prazer de visitar a clássica metrópole, sabe que ela é cortada pelo Rio Tibre, que por sua vez é vencido em vários pontos por pontes - uma mais bela que a outra. Além das pontes, os romanos construíram viadutos e aquedutos - muitos deles por meio de arcos plenos de pedras encaixadas que resistem até hoje.

Desde modo, Roma estabeleceu-se como sede do Império que no seu auge abarcava toda boa parte  da Europa, o Oriente Médio e o Norte da África, contornando o Mar Mediterrâneo. As pontes e estradas romanas garantiram por séculos o desenvolvimento econômico de todo o entorno da Península Itálica.

Com todos os problemas atuais típicos de um grande cidade, os romanos são apaixonados pelo lugar onde vivem. Subentendida em outro ditado famoso - "Em Roma, fale como os romanos" - está a orientação para não falar mal da cidade que acolhe turistas de todo o mundo.

A estrada entre Paulínia e Jaguariúna, no interior de São Paulo, que pouca gente conhece.
A estrada entre Paulínia e Jaguariúna, no interior de São Paulo, que pouca gente conhece.

Do outro lado do Oceano Atlântico estou em Paulínia. Como arquiteto que atua nesta cidade do interior de São Paulo, não deveria falar mal dela, afinal de contas, Paulínia é parte da minha trajetória e do meu sustento. Mas por ser apaixonado pela minha cidade, me permitam tecer algumas críticas construtivas sobre ela.

O perímetro urbano de Paulínia é cortado pelo Rio Atibaia, que separa a região central da região do João Aranha, onde ficam loteamentos fechados importantes, como o Residencial Campos do Conde I e II, o Fontanário, o Residencial Aurora, o Residencial Raízes, além dos populosos Jardim Planalto, Residencial São José I e II e Marieta Dian. É muita gente morando nesta região e muito carro circulando também.

É um absurdo que a região do João Aranha seja ligada ao centro de Paulínia por apenas uma ponte sobre o Rio Atibaia. Deste modo, quem precisa ir para Campinas ou São Paulo, e voltar destas cidades, deve passar pelo centro de Paulínia. Resultado: a cidade com apenas 100 mil habitantes sofre com engarrafamentos feito uma cidade grande.

Parece tão óbvio, mas precisamos escrever: quem governa Paulínia deveria ter a seguinte prioridade: construir pelo menos mais duas pontes para desafogar o João Aranha. A primeira ponte seria para a região do Parque da Represa, de modo que a Rodovia Anhanguera pudesse ser acessada diretamente. A segunda ponte nem precisaria ser sobre o Rio Atibaia, mas deveria ligar o João Aranha à Rodovia Professor Zeferino Vaz. Quem mora no Jardim Calegaris agradeceria profundamente esta decisão.

Ecologia e Matemática

O que custa mais ao meio ambiente? Fazer mais uma ponte sobre o Rio Atibaia, ou respirar o ar dos dois engarrafamentos diários, de manhã e no fim da tarde? Carros andando a menos de 10 km/h perto de escolas e matas ciliares... A resposta me parece clara.

E será que todos os caminhos levam até Paulínia? Como certeza não. Como Paulínia se relaciona com municípios vizinhos? Vejamos:

A principal ligação com Campinas é feita pela Rodovia Professor Zeferino Vaz e, a despeito do trânsito complicado nos horários de pico, ainda teremos que ser gratos se o governo estadual e a concessionária não construírem uma praça de pedágio no meio do percurso.

O caminho alternativo, pela Estrada da Rhodia que liga Paulínia com o Distrito de Barão Geraldo em Campinas, está seriamente prejudicado com a interdição da ponte sobre o Rio Anhumas há alguns anos. É uma vergonha para a classe política que isso ainda não tenha sido resolvido. Como isso sofrem os moradores de Betel, que serve de desvio para essa rota. Ou seja: a ligação entre Paulínia e a Unicamp, mais dois hospitais importantes, está precária.

Na outra ponta temos Cosmópolis. A única via asfaltada para lá é também a Rodovia Professor Zeferino Vaz, quem tem uma praça de pedágio. Isso prejudica a população menos abastada que precisa se deslocar entre as cidades. O caminho secundário é uma estrada vicinal de terra, que passa sobre uma antiga ponte da linha de trem desativada que, se é difícil de se percorrida de dia, é intransitável de noite.

Muitos buracos - pouca sinalização

Na mesma região do funil entre o Rio Atibaia e o Rio Jaguari, temos a vicinal asfaltada que liga Paulínia com Americana, perto da divisa com Limeira. Eis uma estrada de importância fundamental, que se encontra esburacada, sem sinalização e sem acostamento. Uma vergonha para uma cidade que tem uma das arrecadações mais altas do Brasil.

Em estado semelhante está a vicinal que liga Paulínia com o Distrito de Nova Veneza, em Sumaré, partindo do Parque da Represa. Se esta via estivesse em melhores condições, poderia desafogar a principal ligação de Paulínia com a Rodovia Anhanguera, no viaduto que também dá acesso para Hortolândia.

Deixei a situação mais absurda para o final: Paulínia faz divisa com o município de Jaguariúna, na borda do Circuito Paulista das Águas, mas pouca gente se atenta para isso. Há uma estrada vicinal, parcialmente asfaltada, que liga as duas cidades. Esta via parte das imediações da Replan, perto do clube recreativo de seus funcionários, e chega no entorno da Unifaj - Centro Universitário de Jaguariúna. Este caminho simplesmente está interditado, há vários anos, por um portão metálico trancado, e não há explicação lógica para este fato.

Esta é uma estrada que deveria ser livre e asfaltada, pois evitaria que o morador de Paulínia passasse pela congestionada Rodovia Dom Pedro em Campinas para acessar o Circuito Paulista das Águas e o Sul de Minas Gerais. ao invés disso, temos que dar uma volta grande e pagar mais um pedágio.

Cobre de seu candidato

"O desenvolvimento econômico de Paulínia, Jaguariúna, e outras cidades das imediações que se dane". Esta parece ser a mensagem que os políticos e governantes da nossa região transmitem para a população.

Eles deveriam seguir o exemplo de Roma: focar na construção de pontes e estradas. Isso é tão óbvio! Mas essa classe não enxerga - ou não quer enxergar - o óbvio. Eles gostam de passar as férias nos parques da Disney, na Flórida, e esse mundo de faz de conta deve turvar o entendimento deles.

Minha sugestão para os nossos políticos: troquem umas férias em Orlando por uma visita em Roma. Por favor, aprendam algo com os romanos. Mas dos romanos antigos nossos políticos seguem apenas uma péssima lição: eles ficam maquinando como vão derrubar o próximo governante.

Meu amigo paulinense: nas próximas eleições municipais, pergunte sobre Roma para o candidato que bater na porta da sua casa, para pedir seu voto.

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O Arco do Triunfo Pop

As vezes você se vê obrigado a ousar. Quando se confia que um trabalho - seja universitário, seja profissional - está bem feito, sente-se uma espécie de tentação em "colocar a cereja no bolo". É um chavão que retrata outro: "O ótimo é inimigo do bom". A intuição de querer melhorar o que já é bom, implica no risco de por tudo a perder.

A proposta feita em sala de aula era clara: projetar um arco do triunfo que retratasse uma batalha vencida por militares de uma era há muito tempo encerrada. Os desenhos estavam prontos. Faltava escolher o lema na inscrição central e os personagens a serem emulados. Demos uma banana de dinamite para os imperadores e generais. Colocamos os Beatles no lugar.

Na época, eu e meu colega de trabalho ouvimos os piores comentários que se pode receber antes da entrega de um projeto como este. Em geral gostavam dos desenhos, mas diziam que tiraríamos um zero bem redondo, o que significaria a reprovação da disciplina naquele semestre. Entregamos os desenhos mesmo assim. Foi um pequeno triunfo que ainda ecoa em doces lembranças.

A capa do trabalho universitário, por si só, já antecipa o caráter contestador das formalidades exigidas, tanto na apresentação do mesmo quanto na execução do projeto de uma obra clássica. A mistura do novo com o tradicional foi arriscada. Nada de datilografar o nome dos participantes: tudo foi resolvido com uma colagem de cópias de documentos e rascunhos utilizados no estudo.

O arco do triunfo é uma criação dos romanos na era clássica, para registrar as grandes vitórias de seus imperadores em batalhas. Neste caso os homenageados não são guerreiros, mas pacifistas. São eles: George Harrison, Paul McCartney, John Lennon e Ringo Starr. O lema em latim: "QUO NECESSITAS AMORE EST". Em inglês: "All You Need Is Love". Tudo que você precisa é amor.

A seção longitudinal do projeto foi uma das mais fáceis de executar. A tarefa requerida pelo professor  Mário D'Agostino, da disciplina de História da Arquitetura da FAU PUC de Campinas em 1996, consistia no desafio de mesclar duas ordens clássicas de difícil junção, e mesmo assim fazer com que o ponto central do arco fosse também o ponto central de toda a edificação. 

A vista lateral  mostra várias linhas e decorações clássicas, mas o objetivo do trabalho não era ensinar o estudante a reproduzir formas tradicionais, mas compreender o modo de trabalhar com razões e ritmos matemáticos, como um caminho para garantir a beleza estética das construções. Resolver o "enigma" proposto foi um grande prazer, dividido com o colega Gilberto Sampaio.

A seção transversal corta o arco exatamente ao meio, e estabelece uma comparação imediata das colunas da ordem principal, mais alta, com as colunas da ordem secundária, que não contam com base elevatória e com as caneluras. A ordem principal é a coríntia, e a ordem secundária é a jônica, cujo capitel que arremata o fuste transmite uma leveza baseada em formas fitomórficas.

A planta baixa do projeto do arco triunfal contém as projeções das cornijas e do entablamento da obra, bem como  a demarcação dos nichos dos personagens coadjuvantes do motivo retratado, no caso, extraído do enredo do filme de animação "Yellow Submarine" - cuja capa do álbum da trilha sonora dos Beatles serviu de modelo para a reprodução das figuras.

Perspectiva feita a mão livre do Arco do Triunfo Pop. O jogo de luz e sombras, aliado ao ponto de fuga no infinito, auxiliam o observador a compreender a volumetria da edificação, diferenciando as colunas principais, que são salientes, das colunas da ordem secundária, aderidas ao corpo principal. Na lateral, as colunas da ordem principal seguem o princípio da ordem secundária.

Esquema geométrico, desenhado em folha translúcida sobre uma imagem do arco, salienta as relações métricas entre as partes, demonstrando o ritmo entre as colunas e as proporções alcançadas no projeto. A razão 3/2 pode ser reconhecida tanto no ritmo como nas proporções. O ponto central do arco é o mesmo de toda a elevação frontal.

Arcos triunfais em Roma

Cerca de um ano e meio após apresentar o "Arco do Triunfo Pop" no ambiente universitário, tivemos a oportunidade de realizar uma viagem de estudos à Itália, entre os meses de janeiro e fevereiro de 1998. Na ocasião, fotografamos dois dos principais exemplares de arcos triunfais clássicos. O mais famoso, no entanto, é neo-clássico e fica em Paris, França, sendo construído no começo do século XIX por ordem de Napoleão Bonaparte.

O Arco de Tito, imperador romano que ocupou Jerusalém no ano de 67, foi construído e decorado com mármore no ano de 81 depois de Cristo. Localiza-se no centro histórico de Roma, no monte Capitolino, e contém símbolos do judaísmo, cujos seguidores se recusaram a passar sob a obra até 1948, ano de criação no novo estado de Israel.

Constantino oficializou a crença em Jesus Cristo por parte do Império Romano, mas foi pela  vitória na Batalha da Ponte Mílvio, que ele ganhou seu arco triunfal em 312, construído próximo ao Coliseu de Roma. Suas três passagens curiosamente podem representar os princípios da cultura ocidental, quais sejam: a ética judaico-cristã, a filosofia grega e o direito romano.

Comunicado via rede social sobre a publicação deste artigo, o professor Mário D'Agostino fez o seguinte comentário:

"Caro Jean, bom saber que aquele exercício deixou boas lembranças! Desenvolvo um trabalho algo similar com pesquisadores de iniciação científica do Laboratório de Modelos Tridimensionais que coordeno na FAUUSP. Grande abraço!"

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Veneza - 1998

A praça de São Marcos em Veneza, com a igreja de mesmo nome ao fundo, durante os festejos de Carnaval.

A visão oposta do mesmo local, em ambiente com outros tipos de música e outros tipos de fantasia.

Salvador Jean Dali.
Uma visita por Veneza deixa marcas indeléveis na memória. Se ela for feita no período de Carnaval, melhor ainda: você volta para casa com um filme na cabeça. Esqueça a bagunça capitalizada que virou o Carnaval no Brasil. Em Veneza os corpos não ficam à mostra, pelo contrário, a elegância dos vestidos - e em especial o poder de sedução das máscaras - cristaliza a essência desta festa através de seus dois ingredientes principais, que são a fantasia e a ilusão.

Você deve estar se perguntando o que aquele bigode de Salvador Dali faz no rosto deste jovem na foto - que por acaso é este que escreve. Quer saber como ele foi parar ali? Então fica o convite para ler o conto "Presentes de Carnaval", publicado no blog do jornalista Ricardo Setti, de Veja.com - clique aqui e boa leitura!

A coluna, o muro e o sentido do belo

Ensaio redigido em março de 1998, após o retorno deste arquiteto - então universitário - de sua viagem de estudos à Itália, entre janeiro e fevereiro daquele ano, ocasião nas quais as imagens que ilustram o texto foram captadas. O conteúdo foi revisado para publicação neste site em agosto de 2008, quando as notas enumeradas foram acrescidas.

Todo ser dotado de razão busca na sua existência atingir o estado da felicidade. De acordo com seu caráter há vários meios em que cada indivíduo acredita ao menos tangenciar momentos de satisfação plena: seja por riqueza, por liberdade, seja por fé e esperança, e finalmente pela vivência do amor. Inerente a qualquer possibilidade está o sentido do belo.

Antes da civilização se desconstruir em imagens geradas por mídias controladas por um inacessível mecanismo de mercado, a beleza estava nas aspirações dos idealistas, em sua maioria artistas e entre eles os arquitetos.

Mesmo os modernistas tinham o seu conceito de beleza: a verdade dos materiais, a transparência do raciocínio construtivo, a emulação do novo. No período neo-clássico o belo estava na especulação máxima dos ornamentos; já os góticos apontavam sua arquitetura para o céu, numa visão teo-centrista da questão.

Porém, nunca o sentido do belo foi tão discutido e questionado como ocorreu na Renascença (1). Entre tratados e obras, cada personalidade da época apresentava suas impressões, alinhando-se a linguagens tradicionais ou retomando – e em alguns casos propondo – conceitos inovadores para as cidades, edifícios sagrados e mesmo profanos.

É notório que a Renascença retomou a linguagem clássica do mundo antigo, concentrando-se na arquitetura greco-romana. Em conseqüência reascendem os princípios das proporções e relações matemáticas, da simetria, do equilíbrio tectônico para organização das fachadas e plantas nas construções.

No entanto, é necessário esclarecer que tais “mandamentos” atendem agora a uma cultura humanista e não mais a adoração mitológica de entidades supostamente superiores. Entre outros aspectos passou a se acreditar que o homem era em relação a Deus, o “micro-cosmos do macro-cosmos”.

O sentido do belo acompanha tal evolução: se no primeiro momento a perfeição matemática era sinal de submissão aos deuses, no segundo ela torna-se o elo que liga a humanidade ao divino.

Fundamental para a compreensão dos conceitos e da linguagem clássica do mundo antigo, é a redescoberta do tratado de Vitrúvio (2), no início do século XV, motivando posteriormente a edição de De re Aedificatória, por Leão Batista Alberti (3), posteriormente o maior teorizador da arte que o Quatrocento produziu.

Atualmente uma parcela dos historiadores contesta a caracterização do texto de Vitrúvio como tratado, alegando que este é apenas um manual que relata as técnicas e maneiras construtivas do mundo antigo, citando elementos ornamentais e ordens, mas sem justificar ou discutir o conteúdo apresentado; ao passo que Alberti o faz com o respaldo de outros dois tratados: sobre a pintura e a escultura, além da apresentação de suas idéias na prática, coma edificação de quatro igrejas e um palácio.

Alberti, como demonstra Wittkower (4), era partidário da afirmação grega de que o principal elemento da arquitetura é a coluna e sua respectiva ordem. É possível imaginar, portanto, a perplexidade albertiana ao defrontar-se com a Roma Antiga, repleta de exemplos onde predomina a edificação através do sistema de arcos e muros, no qual a coluna perde sua expressividade tectônica quando adoçada a uma superfície.

De fato, a questão da coluna e do muro é de relevância na produção intelectual e arquitetônica de Alberti, sendo tema de uma discussão proposta por estudiosos no assunto, já no século XX. Mais uma vez Wittkower relata – inclusive – a mudança na teoria de Alberti sobre a coluna, no decorrer de sua carreira, convertendo-a em pilastra, como uma forma melhor adequada ao muro.

Talvez a síntese de tal raciocínio possa ser compreendida na obra aclamada como a mais completa no conjunto albertiano: Sant´Andrea em Mantova (5). Nela está presente a importância da coluna, já convertida em pilastra, adoçada ao muro, porém organizando o espaço em instância crucial. O sistema construtivo é mural, mas a relevância – sobretudo – está no fato de os arcos, dispostos em sentidos perpendiculares, respeitarem um complexo ritmo que os especialistas denominam como “rhythmische Travée”, composto neste caso por dois intercolúnios.

Igreja albertianaFachada da Igreja de Sant´Andrea em Mantova: projeto de Alberti.

A relação entre cheios e vazios, responsável por um dos motivos da admiração dos transeuntes, resulta do equilíbrio da conjunção do sistema mural com as “colunas”, se levarmos em conta que apenas a presença das paredes implicaria numa arquitetura monótona e apenas a presença de colunas nos remeteria aos templos gregos antigos, perfeitos matematicamente - mas inabitáveis, quando expostos às intempéries. O que não implica necessariamente no fracasso dos extremos da questão “coluna e muro”. Para tanto observa-se dois exemplos, um anterior e outro posterior a Alberti.

O primeiro é o interior da Basílica de São Lorenzo em Firenze (6), reformulado por Filippo Brunelleschi (7), onde a seqüência de colunas tem seu significado clássico submetido ao raciocínio matemático do arquiteto, com o objetivo de identificar um espaço revelador da perspectiva com ponto de fuga central. Tão pouco é preciso enfatizar o caráter universal da obra, assim como a revolucionária maneira de representação espacial proposta por Brunelleschi.

Marco florentinoInterior da Basílica de São Lorenzo em Firenze. Obra de Brunelleschi.

Atento, porém, às características do local está Giulio Romano (8), que ao projetar a própria residência em Mantova, se depara com uma terra pantanosa e escassa em pedras, apesar disso o intento do artista é assumir a importância do sistema mural também como expressão arquitetônica. Observa-se na fachada – atualmente encrustada entre dois edifícios – o rusticamento em seu revestimento, afinal de contas o que se vê não são pedras talhadas que elevam o edifício, mas sim o estuque trabalhado em retículas, enriquecidas pelo efeito “luz e sombra” acentuando e percepção de cada bloco.

Residência em MantovaResidência do arquiteto Giulio Romano em Mantova.

É curioso notar que se em Giulio Romano o muro que se vê não é o muro que sustenta, as colunas de Brunelleschi em São Lorenzo não respeitam a uma ordem tradicional específica, mas à estrutura da perspectiva. Essa é a vantagem de Alberti em Sant´Andrea: em nenhum momento discute-se a autenticidade de seus elementos construtivos, e sim o que eles representam na compreensão do espaço.

Deste ponto de vista, poderíamos considerar Sant´Andrea como a mais bela dos três exemplos citados? Para um modernista talvez, mas não quando o enfoque se torna atemporal e desprovido de preconceitos...

Comprova-se com isso que o sentido do belo possui duas faces: a que muda com a evolução cronológica das tecnologias e culturas, e a face de caráter universal e eterno, que permite a uma obra ser reconhecida como bela independente de seu período histórico.

É importante ressaltar, por fim, a diferença entre eterno e perpétuo: não existe beleza perpétua, pois não faria sentido construirmos no limiar do século XXI utilizando-se das mesmas técnicas do tempo da Renascença, quando já dominamos outras, mais eficazes. Mas existe a beleza eterna, onde mais importante que a construção – que se deteriora com o passar dos anos – são as idéias e questões implícitas, refletindo o pensamento crítico de uma época.

Notas:

(1) Renascença – período na história ocidental entre os séculos XV e XVI, compreendido como a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, devido ao seu caráter transformador nos campos das ciências e das artes.

(2) Marcos Vitrúvio Polião – arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I antes de Cristo, sendo autor do tratado De Architectura – escrito em dez volumes, considerado uma referência obrigatória para a arquitetura clássica.

(3) Leão Batista Alberti – humanista e arquiteto genovês do século XV que encarnou o conceito de “uomo universale” do renascimento, por ser versado também na pintura, música e escultura, além da formação em Direito.

(4) Rudolf Wittkower – historiador, crítico de arquitetura e teórico do século XX, autor do livro Los fundamentos de la arquitectura en la edad del humanismo, ainda não disponível em português.

(5) Mantova – conhecida em português como “Mântua”, é uma cidade da região da Lombardia, norte da Itália. Apesar de sua população de menos de 50 mil habitantes, sua origem é de dois mil anos antes de Cristo.

(6) Firenze – denominada “Florença” por parte dos portugueses, é considerada a capital do Renascimento italiano, situando-se na região da Toscana. É a terra natal de Dante Alighieri, autor da Divina Comédia.

(7) Filippo Brunelleschi – arquiteto florentino nascido no final do século XIV, considerado o “pai” da racionalidade na arquitetura, a quem se atribui o desenvolvimento das técnicas de perspectiva na elaboração de projetos.

(8) Giulio Romano – nascido Giulio Pippi em fins do século XV, foi discípulo do célebre pintor Rafhael, de quem herdou parte de sua herança. Além da pintura, atuou também como arquiteto e urbanista em Mantova.

Firenze - 1998


Quem costuma transitar pela Rodovia dos Bandeirantes, que liga São Paulo à região de Campinas, certamente tem em mente o pequeno Shopping Center e restaurante cruzando suas duas pistas. Idéias como essa parecem inusitadas, até conhecermos outros exemplos, mais antigos e ousados, com o mesmo princípio. É o caso da Ponte Vecchio sobre o Rio Arno em Firenze, cidade que nós brasileiros conhecemos também como Florença.

Berço do Renascimento, terra dos gênios Michelangelo (que esculpiu David, pintou a Capela Sistina no Vaticano), Brunelleschi (a quem é creditada a concepção da representação em perspectiva dos espaços) e Alberti (que elaborou um dos tratados mais importantes da história da arquitetura). Lá estão sepultados, na Igreja da Santa Cruz, Dante Aleghieri, Galileu Galilei, entre outros - e que outros!

Na Galeria Uffizi está exposta a famosa pintura "Vênus", de Bociccelli, que nos tempos modernos virou estampa para embalagens de sabonete. Mais um indício de que muito da cultura ocidental que prevalece até os dias de hoje, ainda se refere incontestavelmente aos ícones e ideologias difundidos na capital daqueles séculos de luzes para a produção artística e intelectual.

Roma - 1998


Pouquíssimos reconheceriam esta escultura perdida entre milhares de atrações que a Cidade Eterna oferece. Esta homenagem feita a um soldado italiano durante a Primeira Grande Guerra Mundial, está situada no pátio da Porta Pia, projetada pelo gênio renascentista Michelangelo.

A ação da umidade na parede de fundo, que remete a uma rajada de balas, tira a fotografia do anonimato perante os olhares mais desapercebidos, para lança-la no universo pop típico das histórias em quadrinhos.

Cada dia em Roma é a oportunidade de conhecer uma faceta diferente da urbis, nunca abordada pelos guias turísticos, que enfocam apenas os pontos de parada obrigatórios para todos os visitantes.

Se sua filha, ao fazer 15 anos, pedir uma viagem à Disneylândia de presente, mande-a para Roma – e vá junto.

Siena - 1998


Dois de Julho, não importa o dia da semana ou o ano. Boa parte da Itália se mobiliza para acompanhar pela televisão a aglomeração dos "tifosi" ensandecidos nesta praça. Em forma de cunha, com vértices fechados e palácios medievais como moldura, este recinto está prestes a receber mais um tradicional "Pálio de Siena". Uma corrida de cavalos disputada entre os expectadores e os paredões, que conformam um percurso notóriamente perigoso devido às severas inclinações do piso.

São aproximadamente dez "jóqueis" vestidos com a pompa nostálgica que a ocasião requer para três voltas inesquecíveis. Estão em jogo a glória suprema do vitorioso e em casos extremos, a morte, mesmo que seja a poucos metros da linha de chegada. Uma queda, seguida de pisoteamento pelos cavalos que vierem atrás. Ou o encontro infortúneo com blocos maciços de pedras centenárias das edificações localizadas nas curvas.

O risco de vida, tanto para cavaleiros como torcedores, parece ser apenas mais um fator de atração para o evento. Um misto de coragem e medo, o perigo iminente entre a largada e a consagração. Mas, se o assunto é a cultura de um povo, não se deve fazer julgamentos... A placa de proibição, em destaque na ilustração, foi tirada das sombras (por computação gráfica) para nos lembrar disso.