Para sempre Beatles!

A banda é cover mas seu fã é autêntico.

Quando você é apenas uma criança, não percebe que seus pais te deixam de herança, desde o berço, algo muito mais importante do que eventuais bens materiais. Quando eles te compram um livro ou um disco, ou te levam no cinema para ver um bom filme, estão inspirando em você as preferências culturais que vão te acompanhar pelo resto de sua vida.

No Natal de 1983 meu pai disse que não ganharíamos brinquedos. Ele nos levou numa loja de discos - que na época eram de vinil - e de certo modo isso marcou nossa infância. Minha irmã caçula, então com seis anos de idade, pediu o LP do Balão Mágico... mas eu, com sete anos, e meu irmão mais velho com dez, queríamos algo de "gente grande".

Éramos escoteiros, e os garotos mais crescidos da turma gostavam muito do Kiss - um conjunto de rock pesado demais para convencer meu pai a gastar seu ordenado com eles. Como os cabeludos mascarados foram vetados, procuramos, aleatoriamente, por uma alternativa. Achei o álbum azul dos Beatles, uma coletânea de sucessos de 1967 até 1970.

Chamei meu irmão. Ele gostou do visual dos caras barbados na sacada de um prédio, mas achou que dificilmente levaríamos aquele disco para casa. Porém, para nossa surpresa, ao mostrarmos o encarte para nosso pai, ele aprovou a escolha no ato. Como era um álbum duplo, eu e meu irmão dividimos o presente. Desta forma nos tornamos, desde cedo, apreciadores de boa música.

Aos poucos, fomos completando a coleção dos Beatles. Uma doce rotina que durou até 1990 com Let It Be, coincidentemente vinte anos depois do lançamento que marcou a separação da banda inglesa. Ouvir um disco dos Beatles, pela primeira vez, era uma experiência única e sempre muito aguardada, algo que a geração digital dificilmente experimentará.

Hoje em dia você pode "baixar" centenas de músicas de uma banda e ouvir sem uma ordem pré estabelecida, pulando faixas até encontrar um som familiar. Mas quando você pega em suas mãos um "bolachão" de vinil, é diferente. É algo que literalmente mexe com seus sentidos.

Não é só ouvir um arquivo no headphone: é perceber o chiado da agulha em atrito com os sulcos, ver as fotos e ilustrações no formato grande das capas, e até sentir o cheiro do plástico que protege aquele objeto tão precioso para você. Só não dá para dizer qual é o sabor disso - talvez tenha um gosto de mel.

Crescer ouvindo Beatles foi ótimo por um lado, pois funcionou como uma excelente programação neuro-lingüística, repleta de mensagens positivas, melodias simples e alegres, além das harmonias matematicamente perfeitas - creio que isso me ajuda até hoje, em meu ofício de arquitetura. Mas, por outro lado, ficou difícil gostar de outros sons.

Passei em branco pelo empolgamento de minha geração por Raul Seixas, Legião Urbana, Titãs, U2, Guns N´ Roses e outros conjuntos realmente ótimos - mas que no meu entendimento não chegavam perto dos Beatles. Está certo que me livrei de muitos produtos mercadológicos que naufragaram com o passar dos anos, mas hoje sinto que faz alguma falta não ter me identificado com as coisas de meu tempo.

Chegou um momento em que tomei consciência disso, e procurei abrir o leque. Longe de ser eclético - como muita gente gosta de se definir - aprendi a curtir Bob Dylan, Rolling Stones, Ira!, Engenheiros do Havaí e até Almir Sater. Demorei, mas reconheci que os irmãos Gallagher do Oasis fizeram um som muito bom a partir dos anos 90, e que o Radiohead tem uma postura interessante frente ao cenário atual.

As vezes consigo ficar uma boa temporada sem ouvir nada dos Beatles, mas como eles nunca saem da mídia, volta e meia tenho "recaídas" e coloco o aparelho de som para funcionar. Embora não goste de ser rotulado como "beatlemaníaco", penso que o interesse pela música deles é algo que eu deixaria para os meus futuros herdeiros, repetindo o gesto involuntário de meu pai.

Beatles 4ever

A primeira vez que ouvi falar na banda cover Beatles 4ever foi em 2002, durante um evento do Clube MP Lafer Brasil no Guarujá. Para quem não sabe, o MP Lafer também é uma espécie de cover, mas do veículo inglês MG TD, que chamam por aí de "calhambeque". Um dos proprietários do modelo estava com a camisa do conjunto.

Ele me convidou para ir,"qualquer dia desses", numa apresentação dos músicos num teatro de São Paulo. Mas minha inegável preguiça de enfrentar o trânsito caótico da metrópole - sempre penso umas 702 vezes antes de decidir por isso - impediu que eu fosse conhecer o trabalho deles de perto.

Felizmente o destino se encarregou de resolver este assunto, novamente por causa do meu MP Lafer: quando anunciaram que os Beatles 4ever se apresentariam no encontro de carros antigos de Holambra, sabia que não teria desculpas para deixar de ir. Holambra é perto de Paulínia e minha namorada adora o lugar.

Só a data não me agradou muito, o dia de finados de 2007. Entendo que dias religiosos são essenciais para alimentarmos nosso espírito, independentemente de nossa crença. Após visitar grandes amigos, enxuguei o rosto, lavei o carro e peguei a estrada com minha companheira. A capota reclinada e o vento na face ajudaram na recomposição do semblante.

Valeu a pena. Chegando no parque da exposição de flores de Holambra, tive o prazer de rever Carlos Miranda, o eterno Vigilante Rodoviário, para quem certa vez escrevi umas linhas de admiração. Além de observar belos carros de perto, e antes da apresentação principal da noite, presenciamos o show de outra banda de talento: o Pink Floyd Cover.

Uma chuva torrencial veio para amenizar o calor. Depois de fazer um lanche fomos para perto do palco, acompanhar os preparativos da apresentação. Postados em pedestais, pude conferir de perto o baixo Hofner, idêntico ao do Paul MacCartney, e as guitarras Rickenbacker de John Lennon e George Harrison. Tocar com os mesmas especificações dos instrumentos é essencial para a reprodução fiel do som original.

O susto veio quando o conjunto subiu no palco, vestidos de ternos e gravatas, e usando perucas de franja francesa, lembrando em muito o visual dos Beatles no início do sucesso, em 1964. Até nos trejeitos eles se esmeram na fidelidade. Você sabe que não são os Beatles de verdade, mas isso pouco importa quando se ouve os primeiros acordes. É realmente neste ponto que começa o espetáculo.

Os Beatles 4ever existem desde 1976. Marcus Rampazzo e Ricardo Felício, respectivamente George Harrison e Ringo Starr, estão na banda desde os anos 70. O arquiteto Fabio Colombini é John Lennon e, assim como o Paul MacCartney Ricardo Júnior, ingressou no conjunto durante os anos 2000. Edson Yoko atua como um misto de George Martin, produtor dos Beatles, e Billy Preston, tecladista que participou da gravação do último disco dos Fab Four. Ele é responsável pela orquestração complementar aos instrumentos básicos. Todos os membros possuem sólida formação musical, proveniente de escolas e conservatórios.

Em seu currículo, os Beatles 4ever ostentam o recorde de 16 horas ininterruptas de apresentação, tocando extraordinariamente todos os álbuns oficiais de estúdio da banda original. Mas em Holambra o set-list foi reduzido a cerca de uma hora, o suficiente para deixar nos presentes aquela vontade revê-los em outras ocasiões. Excetuando-se os timbres vocais, peculiares de cada pessoa tanto como a impressão digital, eles simplesmente executam cada música com os mesmos acordes, com a mesma batida, e com o mesmo som.

No site do conjunto, a matéria completa das 16 horas históricas de apresentação.

Cantei todas as canções junto com eles, a ponto de quase ficar rouco. O tiro de misericórdia veio no final. Para encerrar a festa pediram para a platéia escolher uma música. Adiantei-me dois passos - como um goleiro ao defender um pênalti - levantei a mão direita e pedi Something. No meio da gritaria, o Marcus "George" Rampazzo deve ter compreendido por leitura labial. Ouvir sua música predileta abraçado com a pessoa que você ama é inesquecível.

Recomendo a todos, sem ressalvas, que não percam a oportunidade de conferir o trabalho deles. Logicamente não tenho isenção para tanto, mas mesmo que você não seja um fã dos Beatles, tenho certeza de que será uma experiência válida por uma simples razão: quando eles cantam She Loves You, Help e Yellow Submarine, dá para notar o brilho em cada olhar, e sentir o contágio do entusiasmo que eles exalam pelos poros. É sempre muito bom ver pessoas fazendo o que gostam, sejam assentando tijolos ou professando palavras de amor.

7 comentários:

  1. Demais Jean!
    Também sou o maior fã dos beatles, já coloquei o site do beatles 4ever no meu favoritos, em breve eu estarei no show!

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  2. Grande Amigo Jean!

    O tempo mostra que tudo que é bom nunca se apaga. Beatles é pura lição de simplicidade e honestidade musical. Digo isso por que não é facil ter uma padrão, ser competente do vocal ao baterista e ainda por cima fazer disso um verdadeiro glossário da musical para mostrar ao mundo que algo novo e revolucionário começou de fato naquele época e através daqueles quatro homens de terno preto.

    Realmente você tem razão, os presentes de infância nos ajudam a moldar nossa personalidade. Me lembro que meu primeiro disco foi aos quatro anos cinco anos de idade e foi um disco de MPB - " A arca de nóe" que fez conher Vinicíus de Morares e Toquinho, Nara Leão, Tom Jobim e muito outros mestres.

    Sou grato a minha mãe pelo presente até hoje.

    Abração!

    Rogério N. Arantes

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  3. Olá Jean, além de Laferista, também sou fã dos Beatles e dos Beatles4ever. Nos conhecemos no passeio ao Guarujá. Você não está lembrado, mas foi você quem me recebeu na entrada do posto, hoje Frango Assado. Eu estava com uma camiseta dos Beatles e estranhei quando você (mais jovem do que eu)falou que era também fã e que tinha toda a coleção em vinil. Não assisti o show em Holambra, mas tenho assistido, sempre que posso, o show no Crowne Plaza, é simplesmente fantático, você não pode perder. Eles fizeram um trabalho espetacular tocando ao vivo todos os álbuns (coisa que nem os Beatles fizeram)e que eu tive o privilégio de assistir todos.
    Parabéns pelo seu artigo e nos encontraremos ou nos passeios de MP ou no show no Crowne Plaza.

    Abraços

    Waldir Ucci

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  4. Jean Tosetto08/11/2007 11:48

    Caro Waldir,

    É claro que me lembro do senhor, que é justamente a pessoa a quem me refiro no texto, na passagem de Guarujá. Só não havia mencionado seu nome pois não tinha consentimento prévio. Agora está registrado.

    Grande abraço!

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  5. Thiago "Tôca" Santos08/11/2007 21:20

    Falar o que de Beatles, não é mesmo Jean? Eu já tentei entender o sucesso, as melodias, as músicas, mas cheguei a conclusão que isto está um degrau acima de qualquer mera compreensão. E, como não gostar de uma banda que sem ela, não existia o Oasis? Esta prepotência dos irmãos Gallagher, não pode ser levada a sério, e outra, Noel é um gênio nas guitarras também e suas músicas são absurdas. Também, influência de quem? Rs... Essa banda parece ser espetacular mesmo, quando vierem para cá, tentarei ir com certeza na apresentação! Abração Jean e espero o texto sobre o fantástico dia 15 de março de 2006, com chuva e tudo mais!

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  6. Sylvio Zanetti16/11/2007 15:02

    Olá Jean, parabéns pela matéria. Nos anos 80 dei ao meu pai um disco com as músicas mais conhecidas dos Beetles, mas quem aproveitou mais fui eu mesmo, pois gravei em uma fita e a escutava sempre no carro. Boa época...
    Um abraço do seu amigo.
    Sylvio Zanetti

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  7. Jean Tosetto21/11/2007 13:41

    Postado originalmente no blog dos Beatles 4ever em 20 de novembro de 2007:

    "Holambra

    Outro dia, tocamos em Holambra, no segundo encontro de Carros Antigos.
    Alem das tradicionais reliquias, foram programadas varias atracoes musicais que lembrassem o clima ‘vintage’.

    Mas o que chamou minha atenção, mesmo durante a montagem do palco, foi a presenca de um rapaz devidamente trajado com uma camiseta ‘Beatles’, que não tirava os olhos do palco e dos instrumentos.

    Após o show ele se dirigiu ate a lateral do palco, me chamou e mandou : “ Por favor diga aos rapazes que este será um dia que eu nunca vou me esquecer.”

    Antes que eu conseguisse dar o recado, ele já estava na frente do camarim tirando fotos com a banda.

    Alguns dias depois, ele enviou um e-mail se identificando e mandando o link do seu blog, que aqui reproduzimos, onde coloca um emocionado depoimento sobre o nosso show.

    E’ meu chapa, Beatles 4ever também emociona.

    Edson Yoko"

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