Raio X de uma profissão desafiadora

Raio X de uma profissão desafiadora

Independente de crises e momentos de economia aquecida, as pessoas vão continuar nascendo, crescendo, se casando, tendo filhos e precisando de moradia. Acredite: pouca coisa nesta vida dá um sentimento de realização tão grande quanto construir a casa própria e, para tanto, os arquitetos são necessários.

A jovem Amanda, de Porto Velho, capital de Rondônia, escreve para o Professor Ênio Padilha em 21 de fevereiro de 2017:

"Olá Ênio, tenho 18 anos, terminei o ensino médio em 2016 e ainda estou confusa se eu realmente quero cursar Arquitetura. Tenho medo de não gostar e PRINCIPALMENTE de terminar o curso e não conseguir emprego. Me inscrevi no Prouni e passei na UNIVALI - ela teve no máxima do MEC para o curso de Arquitetura em 2015. 

Mas como eu havia dito anteriormente, tenho medo de me dedicar durante cinco anos e depois não ter um bom emprego, que pague bem. Pois não quero depender dos meus pais, quero poder pagar minhas contas com o meu dinheiro, com o meu esforço. Enfim, eu pesquisei sobre o curso e estou com o pé atrás, o piso salarial não é lá essas coisas, a não ser para um arquiteto autônomo, que aí aumenta um pouco. Mas para se tornar autônomo é preciso ter uma certa quantia em mãos e eu não teria esse dinheiro. Não sei o que faço, só não queria ficar parada, sem começar a faculdade, esse ano."

A resposta do Professor Ênio, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, no mesmo dia:

"Estou encaminhando suas dúvidas e angústias para a pessoa certa: o arquiteto Jean Tosetto.
Ele é o autor do livro "ARQUITETO 1.0 — um manual para o profissional recém-formado”. Ele certamente saberá o que dizer."

Nosso complemento, de Paulínia, São Paulo:

Prezada Amanda,

Atendendo ao pedido do Professor Ênio Padilha, lhe respondo que poderia ir pelo caminho mais fácil e escolher palavras de incentivo - ou de auto ajuda - para que curse Arquitetura. Não farei isso por uma simples razão: não existe caminho suave neste ramo de atividade.

O mercado da construção civil é sempre um desafio: quando está super aquecido, você não consegue dar conta de todas as encomendas e se vê obrigado a recusar um serviço ou repassá-lo para terceiros, sob o risco de se prejudicar caso estes não cumpram as expectativas. Por outro lado, quando o ciclo está em baixa, você se vê concorrendo com novatos e veteranos que passam a ter algo em comum: eles abaixam severamente o valor dos honorários, lhe obrigando a demonstrar que pode fazer algo melhor, mas por um preço justo, que sempre será maior do que a maioria apresenta na praça.

Você notou que abordei o mercado pela ótica do arquiteto autônomo ou titular do escritório? Não tratei do tema pelo ângulo dos empregados pois, para estes, as condições sempre serão ainda mais complicadas. Nos ciclos de baixa eles perdem as vagas e nos ciclos de alta eles se esforçam a ponto de exigir salários melhores, nem sempre sendo atendidos.

Se você optar por cursar Arquitetura, considere como meta complementar ter seu próprio escritório. Você pode ser estagiária e empregada num primeiro momento, mas tenha em mente seguir o próprio caminho a ponto de gerar empregos - e não para pedi-los.

O problema de muitos recém-formados é que antes de procurar o primeiro cliente eles procuram um contador. De cara já constituem pessoa jurídica e assumem compromissos  mensais com taxas e impostos antes mesmo de assinar o primeiro Registro de Responsabilidade Técnica para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Não há problema algum em ser autônomo, com uma estrutura bem enxuta e trabalhando na própria casa: muitos profissionais começaram assim e sou um deles. O escritório constituído pode vir depois, quando você já estiver tarimbada no trabalho.

Independente de crises e momentos de economia aquecida, as pessoas vão continuar nascendo, crescendo, se casando, tendo filhos e precisando de moradia. Muitos vão comprar apartamentos entregues sem acabamento. Outros vão reformar casas velhas e outros vão sonhar em construir a casa própria. Acredite: pouca coisa nesta vida dá um sentimento de realização tão grande quanto construir a casa própria e, para tanto, os arquitetos são necessários. Fora as lojas, fábricas, escolas, igrejas, edifícios públicos e uma infinidade de equipamentos urbanos que precisam ser construídos, reformados, ou ter a correta manutenção. Não fosse assim e eu recomendaria: não curse Arquitetura.

O que você precisa fazer para ter sucesso nesta concorrida profissão? Ser a melhor estudante que puder ser, e depois ser a melhor profissional que puder ser. Deste modo, a sociedade vai ganhar muito com você.

Luz no seu caminho!
Jean Tosetto

O retorno do Padilha:

"Não falei, Amanda, que o Jean Tosetto teria a sua resposta?

Muito bem. Fique atenta. Estude muito e não esqueça de ler o artigo CARTA A UM CALOURO (DE ARQUITETURA OU DE ENGENHARIA) que eu publiquei no meu site, em 2011. Ano em que a minha filha entrou na faculdade de Arquitetura. Ela seguiu esses conselhos e muitos outros conselhos importantes do Jean Tosetto. Hoje está formada ha um ano. Tem seu próprio escritório e parece ter um futuro interessante e promissor.

Boa sorte."


Veja também:

2 comentários:

  1. Karina Duda16/05/2017 13:30

    ola jean, sou uma grande admiradora de seus textos, onde isso me ajudou bastante na escolha de cursar arquitetura.Hoje estou cursando o 6° periodo e como todos os estudantes tenho medo de não ter estabilidade financeira.Moro em alagoas e aqui o mercado de trabalho para essa area é muito escasso entao resolvi que quando eu terminar ir pra sao paulo, pois eu acho e fiz umas pesquisas onde dizia que la era melhor para oportunidade de emprego em qualquer area. Queria saber sua opiniao sobre isso e se realmente sao paulo é bom para a area de arquitteura e no que eu devo me preparar para ter mais facilidade quando eu chegar la. Agradeço desde ja

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    1. Karina, tenho um amigo que fez o caminho contrário: foi de São Paulo para o Tocantins há vinte anos, quando a cidade de Palmas ainda estava emergindo.
      O mercado de São Paulo é ótimo, mas estude também a nova fronteira de crescimento do Brasil, que está nas cidades do Mato Grosso onde o agronegócio é forte. Eu disse para estudar e não para mergulhar de cabeça, OK? Você ainda tem muito tempo para decidir. Sucesso!

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