Arquitetura de Interiores: campo aberto para jovens profissionais


Estudo de projeto para escritório de profissional liberal.
Estudo de projeto para escritório de profissional liberal.

A Arquitetura de Interiores vai muito além de escolher cores e texturas para paredes, mobílias e utensílios práticos ou meramente decorativos. O estudo do layout dos ambientes pode implicar em intervenções nas instalações hidráulicas e elétricas e até mesmo em questões estruturais, nas quais o arquiteto, diferentemente do decorador, terá autoridade para discutir soluções com os engenheiros envolvidos no processo.

A Mariana Maciel adquiriu i livro "Arquiteto 1.0" e nos escreveu em maio de 2016:

"Olá Jean, bom dia!

Finalizei seu livro tem um mês. Inclusive o indiquei a algumas amigas recém formadas.


Quero lhe parabenizar pelo conteúdo: tópicos importantes para nós, jovens arquitetos, que nos fazem questionar o HOJE fazendo uma reflexão pelos tempos de vida acadêmica.

Foi muito importante para mim, ler os exemplos de profissionais e os nichos em que tiveram a oportunidade de explorar.

É justamente nesse ponto que gostaria da sua ajuda.

Me formei em 2014, e em 2015 fiz um intercâmbio para Londres. Sonho antigo que por diversas questões pude realizar apenas no final da faculdade. O que achei muito bom.

Desde os tempos de Graduação, penso muito sobre os nichos de mercado em que poderia me inserir como profissional; visto o amplo leque da Arquitetura neste sentido.


Por preconceito, sempre tive um certo distanciamento em relação ao mercado de Interiores. O pensamento que estudei durante anos uma gama de assuntos que partiam desde Desenho, passando por Conforto Ambiental, Topografia, Urbanismo dentre outras, que essa parte me convinha certa "futilidade". Já mudei um pouco minha concepção em relação ao assunto, inclusive tenho muito interesse de estudo na área hoje em dia.

Por outro lado, sempre compreendi que a Arquitetura tem o poder de transformar vidas, cidades e integrar pessoas. Desta maneira, tenho um grande interesse na área de Acessibilidade.

Ao mesmo tempo, me sinto confusa e me cobro em fazer a escolha de uma especialidade dentro da área. 

Não quero me tornar uma profissional que faz de tudo um pouco, não conhecendo na verdade nenhum assunto profundamente.

Tenho muita necessidade em voltar a estudar, venho pesquisando cursos de especialização, e no futuro gostaria de fazer Mestrado fora do país.

Sei que pontuei diversas questões e estou confusa e sedenta por uma área a seguir. Mas quero me tornar uma ótima profissional no que eu optar.

Agradeço se puder me ajudar com uma opinião e conselho como profissional.


Muito obrigada,
Mariana Maciel"

Nossa resposta:

Prezada Mariana Maciel,

Agradeço que tenha apreciado a leitura do livro "Arquiteto 1.0", corroborando a expectativa que eu tinha, em conjunto com o professor Ênio Padilha, a respeito da eficácia da obra para os profissionais recém-formados e mesmo os estudantes universitários.

Parabéns pelo intercâmbio feito em Londres. Tenha a certeza de que esta experiência lhe será válida em todos os sentidos, não apenas os profissionais, mas sobretudo os pessoais. A vivência de outras culturas nos prepara para enfrentar eventuais adversidades em nosso meio. E como Londres é uma cidade realmente cosmopolita, você escolheu bem o destino de seu primeiro ano como formada.

Realmente, o preconceito com relação à Arquitetura de Interiores é veladamente estimulado por alguns professores de disciplinas mais tradicionais da faculdade, com seu grau variando de universidade para universidade. Não tenho dados científicos para avaliar a questão, mas acredito que as instituições particulares, mais voltadas para o mercado de trabalho, tratam a Arquitetura de Interiores com mais objetividade, ao passo que nas instituições públicas as questões teóricas, e mesmo as ideológicas, são mais valorizadas.

Em verdade, é na Arquitetura de Interiores que muitos profissionais jovens vão encontrar o caminho de suas carreiras, especialmente nas grandes cidades que estão no ciclo de revitalizar os centros históricos, onde o tecido urbano está composto e não há muitas possibilidades para a atuação convencional dos arquitetos. Adequar o que já existe é fundamental e, para tanto, o profissional deve aplicar também as questões de Conforto Ambiental, Acessibilidade e até de Urbanismo, nas eventuais intervenções da obra com o espaço público. Note que este campo de atuação não é mera competição com a Decoração de Interiores.

A Arquitetura de Interiores vai muito além de escolher cores e texturas para paredes, mobílias e utensílios práticos ou meramente decorativos. O estudo do layout dos ambientes pode implicar em intervenções nas instalações hidráulicas e elétricas e até mesmo em questões estruturais, nas quais o arquiteto, diferentemente do decorador, terá autoridade para discutir soluções com os engenheiros envolvidos no processo.

Não se engane: para deslanchar neste ramo de atividade, é preciso muito estudo e dedicação, tanto quanto nas demais especialidades, e neste ponto discordo do pensamento corrente que afirma que um arquiteto não pode fazer de tudo um pouco: se ele quiser ser um sobrevivente no mercado brasileiro ele deve sim, ter abertura para aprender e trabalhar em tudo o que lhe é de direito.

Deixo como exemplo a minha própria carreira: por muitos anos trabalhei primordialmente com projetos residenciais na minha cidade. Ao perceber que o novo plano diretor do município acabou com as restrições para construção de edifícios de apartamentos com vários andares, percebi que teria menos demanda para projetos a longo prazo e passei a observar outros campos de atuação. Atualmente desenvolvo, também, projetos para empreendimentos industriais e comerciais, que vão desde galpões de logística até instalações fabris. E, como você é testemunha, comecei a escrever livros também.

Na Arquitetura os profissionais devem ser maleáveis e faz parte da natureza dos mesmos ter a capacidade para atuar em áreas paralelas. Desenvolva isso, pois o especialista em perspectiva feita na prancheta com caneta nanquim de ontem, está desempregado hoje.

Com relação ao mestrado, não vou dizer que me arrependo de não ter feito. Assim que me formei tive a possibilidade de seguir na carreira acadêmica, mas fiz a escolha consciente de seguir como profissional autônomo, na minha pequena cidade que estava "explodindo" com novos loteamentos.

Mas hoje, entre cursar uma especialização e fazer um mestrado, eu escolheria seguir direto com o mestrado, pois me possibilitaria ingressar na docência. Há alguns anos tive uma experiência como professor convidado e, se tivesse tempo e foco na época, teria continuado neste campo que me deu muito prazer.

Continue lendo e se aperfeiçoando. Você é jovem e tem muitos desafios pela frente. A carreira de uma arquiteta é longa e permite correções de rumo, sempre que elas forem necessárias. Não se prenda aos paradigmas de sua origem e esteja aberta para novas experiências, pois o sucesso vem naturalmente para aqueles que estão ocupados querendo fazer algo relevante para a sociedade.

Que a luz esteja com você!

Jean Tosetto

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Casa Grande e Capela de Santo Antônio em São Roque

A Casa Grande e a Capela de Santo Antônio: patrimônio arquitetônico tombado em São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba.
A Casa Grande, distante 30 metros da Capela de Santo Antônio: patrimônio arquitetônico tombado em São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba.

São Roque é conhecida entre os paulistas por suas vinícolas e roteiro gastronômico, mas a cidade guarda também resquícios da arquitetura do ciclo bandeirista, ocorrido há três séculos. 

Por Jean Tosetto *

Em 1996 estava no terceiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas, quando participei de uma breve excursão da classe para conhecer os únicos remanescentes da arquitetura praticada pelos bandeirantes no atual Estado de São Paulo, nos municípios de Cotia e São Roque, nas imediações da capital.

Passados vinte anos, retornei à cidade de São Roque para revisitar a Casa Grande e a Capela de Santo Antônio, no sítio de mesmo nome que virou parque público, já sem a necessidade de transitar por estrada de terra, mas com os olhos mais experientes para compreender a importância do local para a história do Brasil, que a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 passou a valorizar suas expressões artísticas genuínas.

A despeito da autoria desconhecida de seu projeto, a Capela de Santo Antônio tem claro partido arquitetônico baseado em volumes distintos e harmoniosos: alpendre, nave e torre.
A despeito da autoria desconhecida de seu projeto, a Capela de Santo Antônio tem claro partido arquitetônico baseado em volumes distintos e harmoniosos: alpendre, nave e torre.

A cobertura do alpendre já não existia quando a capela foi reconhecida na década de 1930 - a mesma foi reconstruída a partir de prospecções realizadas in loco.
A cobertura do alpendre já não existia quando a capela foi reconhecida na década de 1930 - a mesma foi reconstruída a partir de prospecções realizadas in loco.

Estas construções, redescobertas em 1937, apresentam características que permeiam os três primeiros séculos da colonização européia em terras brasileiras, especialmente no planalto paulista, quais sejam: paredes estruturais em taipa e pilão (espécie de barro batido sobre tramas de madeira) conformando larguras superiores a meio metro; cobertura com cumeeira e espigões formando duas a quatro águas, com telhas cerâmicas dispostas em capa e canal sobre ripas, caibros e vigas de madeira bruta, com beirais largos avançando sobre o perímetro das edificações; poucas e pequenas portas e janelas envoltas de batentes de madeira, com folhas de madeira afixadas por ferragens rudimentares; alicerce composto por plataforma de pedras irregulares que afloram em terraços mesclados com piso de solo-cimento ou terra batida em compartimentos internos.

Valendo-se das "peças escravas" (negros) e do "gentio da terra" (índios), a obra da Casa Grande remonta ao ano de 1650, por decisão do bandeirante Fernão Paes de Barros, descendente de Pedro Vaz de Barros, que fora governador de Capitania de São Vicente. Atendendo ao pedido de sua esposa, Dona Maria de Mendonça, inicia a construção da Capela de Santo Antônio em 1681, deixando para seus herdeiros a obrigação de rezar missas semanais em memória do casal - conforme rogava o "Morgadio", uma instituição de origem feudal abolida no Brasil somente em 1835.

Seguindo a tradição dos jesuítas, a nave da capela é separada do altar por uma passagem sob arco pleno.
Seguindo a tradição dos jesuítas, a nave da capela é separada do altar por uma passagem sob arco pleno.

O interior da edificação religiosa é separado do alpendre externo por um painel composto por peças de madeira que compõem um jogo de luz e sombras, revelando a influência mourisca trazida da península ibérica.
O interior da edificação religiosa é separado do alpendre externo por um painel composto por peças de madeira que compõem um jogo de luz e sombras, revelando a influência mourisca trazida da península ibérica.

Em 1858, João de Deus, o único herdeiro do último descendente de Paes de Barros, começa a desmembrar a propriedade original. O sítio remanescente é adquirido pelo Barão de Piratininga em 1868, que além do conjunto arquitetônico tomou posse, também, das imagens de Santo Antônio, Santa Tereza e Nossa Senhora do Rosário, duas estátuas africanas (tocheiros antropomorfos), da mobília e dos quadros de então. O local foi usado pelo Barão como abrigo para recreação e caça, construindo ali outra residência que, no entanto, não sobreviveu aos anos posteriores.

Com a morte do Barão em 1886, as instalações do Sítio Santo Antônio foram abandonadas, passando por vários proprietários humildes, que destinaram o local meramente para a lavoura de cebolas e batatas. A Casa Grande e a Capela de Santo Antônio, ambas parcialmente arruinadas, receberam o tombamento pelo SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - somente em 1939, quando uma restauração foi iniciada sob a responsabilidade do arquiteto Luis Saia.

A fachada principal da Casa Grande revela a simetria da implantação quebrada apenas pela topografia do terreno, compensada com um terraço de pedras irregulares.
A fachada principal da Casa Grande revela a simetria da implantação quebrada apenas pela topografia do terreno, compensada com um terraço de pedras irregulares.

O oratório da Casa Grande fica anexo ao alpendre central da mesma, em oposição ao dormitório para hóspedes, isolado do ambiente social da edificação.
O oratório da Casa Grande fica anexo ao alpendre central da mesma, em oposição ao dormitório para hóspedes, isolado do ambiente social da edificação.

Poucos meses antes de morrer, em 1945, o escritor Mário de Andrade, expoente da já citada Semana de Artes Modernas de 1922, adquire a propriedade e a deixa em testamento para o próprio SPHAN - convertido posteriormente em Instituto (IPHAM). A restauração, que compreendeu a reconstrução parcial das paredes do conjunto, além dos telhados, só foi concluída em 1952.

O maior cômodo da Casa Grande, provavelmente o aposento do primeiro casal a ocupar o imóvel, é interrompido apenas por uma pilastra de madeira que sustenta um espigão da cobertura cujas telhas encaixadas sem precisão conferem alguma ventilação e iluminação natural ao ambiente.
O maior cômodo da Casa Grande, provavelmente o aposento do primeiro casal a ocupar o imóvel, é interrompido apenas por uma pilastra de madeira que sustenta um espigão da cobertura, cujas telhas encaixadas sem precisão conferem alguma ventilação e iluminação natural ao ambiente.

Na parte central da Casa Grande, a altura do telhado permitiu a instalação de um jirau sustentado por estrutura de madeira semelhante à que se vê no alpendre.
Na parte central da Casa Grande, a altura do telhado permitiu a instalação de um jirau sustentado por estrutura de madeira semelhante à que se vê no alpendre.

Desde então, obras pontuais vem sendo conduzidas, incluindo a restauração das pinturas do oratório principal, a recomposição da mata nativa do entorno, e construção de sanitários e portaria do parque, que funciona atualmente sob responsabilidade da Prefeitura da Estância Turística de São Roque, abrindo aos fins de semana e feriados, de modo alternado com períodos de manutenção.

A distância de quase dez quilômetros do núcleo urbano de São Roque foi um fator benéfico para a preservação destas edificações de taipa, que estariam sujeitas à sucessivas reformas ou demolição se não estivessem na zona rural.
A distância de quase dez quilômetros do núcleo urbano de São Roque foi um fator benéfico para a preservação destas edificações de taipa, que estariam sujeitas à sucessivas reformas ou demolição se não estivessem na zona rural.

Para o arquiteto e urbanista Lucio Costa, autor do plano piloto de Brasília e notório estudioso da produção arquitetônica brasileira, a Capela de Santo Antônio e a Casa Grande guardam parte das "mais antigas e autênticas expressões de arte brasileira". Razão pela qual recomendo a visita ao local, não só para os estudantes universitários, como para todos aqueles que alimentam o sentimento de brasilidade.


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Centro Logístico da Loja Ponto do Encanador em Paulínia - 2016

A fachada projetada do Centro Logístico do Ponto do Encanador em Paulínia.
A fachada projetada do Centro Logístico do Ponto do Encanador em Paulínia.

O Ponto do Encanador é uma loja de produtos para instalações e acabamentos hidráulicos e elétricos que desde 2003 atua no mercado de Campinas e região, a partir do distrito de Barão Geraldo. Por ser um dos dez maiores distribuidores na marca Tigre no Brasil, a loja recebeu o selo de "Revenda Diamante" do fabricante de tubos e conexões mais tradicional do país.

Assim que o Clip - Centro Logístico Integrado Paulínia - foi lançado, a BigaBruller, empresa que administra o Ponto do Encanador, adquiriu uma área de 5.678 m² com acesso por duas vias de tráfego, para lá concentrar o estoque e o controle da distribuição dos componentes comercializados.

Respeitados os recuos frontais e laterais, a área coberta do Centro Logístico ocupa metade do terreno. A outra metade é destinada ao estoque de produtos resistentes às intempéries.
Respeitados os recuos frontais e laterais, a área coberta do Centro Logístico ocupa metade do terreno. A outra metade é destinada ao estoque de produtos resistentes às intempéries.

No primeiro semestre de 2016 o arquiteto Jean Tosetto foi contratado para desenvolver o projeto arquitetônico do novo empreendimento. Do estudo preliminar até a versão definitiva para aprovação, foram feitas oito evoluções a partir de reuniões que contaram com a presença dos investidores, além do engenheiro Nestor Coelho - coordenador dos projetos de hidráulica e elétrica - e do engenheiro Plinio Alves - responsável técnico da obra e gerente da mesma.

Croqui do arquiteto Jean Tosetto a respeito da recepção do empreendimento, desenhado durante uma reunião para desenvolvimento do projeto.
Croqui do arquiteto Jean Tosetto a respeito da recepção do empreendimento, desenhado rapidamente durante uma reunião para desenvolvimento do projeto.

Com 1.627 m² de área a ser construída, o Centro Logístico da Loja Ponto do Encanador em Paulínia possuirá um galpão de 1.306 m². O pavimento térreo de 109 m² conta com recepção, plataforma elevatória, sanitário para pessoas com necessidades especiais, escritório para vendedores, refeitório e vestiário. Já o pavimento superior tem 211 m², com um grande mezanino, dois sanitários, uma copa e a sala da diretoria.

Seção transversal do projeto arquitetônico, salientando a mureta do mezanino sobre a escada de perfil aparente.
Seção transversal do projeto arquitetônico, salientando a mureta do mezanino sobre a escada de perfil aparente.

Visão semelhante do corte anterior, mas a partir do modelo virtual que incorporou as nuances do projeto executivo.
Visão semelhante do corte anterior, mas a partir do modelo virtual que incorporou as nuances do projeto executivo.

De acordo com Luciano Brüler, um dos sócios do Ponto do Encanador, o projeto deveria conter linhas contemporâneas e limpas, refletindo o espírito e a missão da empresa, qual seja: "Atender a demanda de material hidráulico e elétrico na construção civil, com produtos de qualidade, eficiência e preço justo."

A obra foi concebida para o uso de estrutura de concreto pré-moldado, com fechamentos laterais mesclando painéis metálicos e placas cimentícias. Já a cobertura foi idealizada com tesouras metálicas e telhas galvanizadas. Um grande lanternim percorre quase toda a construção, com a finalidade de promover a ventilação e iluminação natural.

Um pórtico com tubos e conexões de PVC marca o acesso de pedestres ao Ponto do Encanador em Paulínia.
Um pórtico com tubos e conexões de PVC marca o acesso de pedestres ao Ponto do Encanador em Paulínia.

O painel de brises compostos por perfis metálicos atenua a incidência de luz e calor nos ambientes administrativos da edificação.
O painel de brises compostos por perfis metálicos atenua a incidência de luz e calor nos ambientes administrativos da edificação.

Após a elaboração de uma concorrência a partir do projeto concluído, a Açovia Construtora foi escolhida para o fornecimento tanto da estrutura de concreto armado como da cobertura metálica. Tão breve a obra esteja encerrada, vamos publicar novas imagens.

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O Fenômeno El Niño e seu impacto nos centros povoados do Peru

A população peruana busca água potável após a ocorrência de mais um desastre provocado pelo El Niño.
A população peruana busca água potável após a ocorrência de mais um desastre provocado pelo El Niño.

Texto: Carlos Rondón * | Tradução: Jean Tosetto

Introdução

Com certa periodicidade o Fenômeno El Niño “visita” nosso país, gerando grandes desastres em termos ambientais, econômicos e sociais. Sem dúvida não aprendemos a lição e a cada vez somos pegos desorganizados. Os organismos de prevenção de desastres e riscos não assimilam suficientemente as nefastas experiências prévias e, que pese a conhecer-se as causas e avisos, se faz muito pouco para atuar responsavelmente e, de modo geral, se improvisam soluções.

O presente artigo trata  de explicar de modo simples qual é a natureza do Fenômeno El Niño, seus efeitos e impactos nos centros povoados do Peru e ainda mais nas diversas infraestruturas como pontes, estradas, canais de irrigação, bacias, etc.

Também se tratará da atuação de nossas instituições nacionais, regionais e locais, e o rol de profissionais envolvidos na atenção preventiva do FEN - o Fenômeno El Niño.

A Ponte Venezuela em Arequipa sofre de tempos em tempos com as inundações.
A Ponte Venezuela em Arequipa sofre de tempos em tempos com as inundações.

O Fenômeno El Niño como manifestação climática

O que é o FEN? É uma forte modificação do clima dominante em um lugar determinado.Se manifesta geralmente em forma de chuvas extraordinárias, inundações, deslizamentos de terra e outras severas mudanças climáticas que afetam os cinco continentes. A ele se agrega, devido à mudança climática global nos últimos tempos, as ocorrências de seca e modificações que surpreendem até mesmo os mais inteirados no tema. Em geral são várias as condições atmosféricas determinantes do clima, entre as quais estão: a pressão barométrica, a umidade relativa do ar, os ventos, a nebulosidade, a temperatura do ar e as precipitações. Pensando, por exemplo, nas chuvas, há em um extremo regiões áridas e semiáridas; e no outro, lugares onde o clima é úmido ou até hiper úmido.

Os indicadores do El Niño se apresentam com meses de antecedência no Peru, entre eles o ENSO - ou Índice de Oscilação do Sul, que é a diferença de pressão atmosférica entre Darwin (Austrália) e Tahiti. Outro indicador é a alteração da temperatura do mar (ATM) que, quando o fenômeno é severo, pode aumentar entre 6 °C e 10 °C acima da média. O terceiro indicador é a intensidade anormal das chuvas, mas estas ocorrem quando o Niño já está em pleno andamento.

Tarde demais: a Avenida Urrazaga em Arequipa está intransitável, devido às fortes chuvas.
Tarde demais: a Avenida Urrazaga em Arequipa está intransitável, devido às fortes chuvas.

Normalmente, em uma determinada região, há um clima dominante na maioria do tempo, que dá certas características típicas para o desenvolvimento da vida e suas atividades econômicas. Normalmente, o clima varia dentro de certos parâmetros e determina muitos aspectos cotidianos, tais como a maneira de se vestir, as características arquitetônicas das cidades, os materiais de construção, tipo de agricultura, etc. No entanto, o FEN violentamente irrompe como manifestação climática, gerando impactos enormes sobre aspectos biológicos, econômicos e sociais - embora, nestes tempos, existam melhores sistemas de comunicação por satélite, equipamentos meteorológicos e uma série de informação científica globalizada.

O aparecimento do FEN ocorre principalmente no norte do Peru. Nos últimos cinco séculos o FEN se apresentou no Peru muitas vezes, onze delas com magnitude significativa - ou "Meganiños" - gerando danos materiais, financeiros e perda de vidas humanas. Seu intervalo médio pode ser de 38 anos para a costa norte peruana. Em um contexto de grande aridez, ocorrem chuvas recorrentes cujo volume acumulado atinge, em Meganiños, valores muito elevados, como aconteceu em Tumbes, Piura, em 1983, quando choveu 3.000 mm e a média anual dos 19 anos precedentes era de 256 mm. Isto é, choveu 12 vezes a média histórica e, portanto, se poderia fazer uma análise estatística. Nestes fortes contrastes reside a característica pluvial do FEN. Outra característica é a grande duração das precipitações por vários meses, como entre dezembro de 1982 e junho de 1983 no Peru. Por conseguinte, a característica do FEN é o contraste entre o clima normal e o surgimento de um novo clima.

As inundações dos centros povoados

Até aqui temos discutido causas, características, indicadores e casualidades, mas cabe agora analisar aspectos relevantes derivados do FEN, envolvendo a participação de profissionais que, de uma forma ou outra, têm especial atuação contra este fenômeno, e nós falamos principalmente dos engenheiros e arquitetos. Um deles, por exemplo: o efeito do FEN de gerar maior dano é a inundação, que começa com chuvas fortes e esporádicas que aumentam significativamente o fluxo de rios e córregos. O aumento sem controle do desmatamento e o mau uso do solo promovem a crescente erosão das bacias. A lista prossegue com a explosão demográfica e a concentração de população. Por fim, a ocupação de áreas altamente vulneráveis, do ponto de vista estritamente humano, são fatores que giram em torno da falta de previsão e planejamento.

Em nosso país se observa com frequência como se constroem casas, urbanizações e instalações de todo tipo em áreas conflitantes com as várzeas dos rios. Os danos nas cidades se produziram pois se ocuparam para fins urbanos áreas inundáveis, devido a um crescimento caótico não planejado. Há bairros localizados em áreas da cidade sem qualquer condição natural de drenagem. A maioria das obras que foram destruídas em 1983 foram construídas no final dos anos de 1950 após o "boom" da exportação e não levaram em conta os efeitos das inundações, como as provocadas pelo Meganiño de 1925.

Nem o shopping-center, construído com um padrão de qualidade superior, escapa das consequências do Fenômeno El Niño no Peru.
Nem o shopping-center, construído com um padrão de qualidade superior, escapa das consequências do Fenômeno El Niño no Peru.

Estamos nos acostumando ao fato de que, de tempos em tempos, ocorrem chuvas normais ou extraordinárias, gerando inundações, e depois a população clama por pedidos de ajuda para ressarcir os danos. Isto ocorre porque não se tem una cultura de prevenção. Enquanto  não fizermos o uso racional do solo, que tenha em conta o comportamento fluvial e pluvial, não haverá solução economicamente viável para os problemas das inundações e deslizamentos de terra.  O excesso de água nas cidades causa a destruição de estradas, calçadas, moradias e edificações diversas, veículos, plantações, espaços públicos e tudo o mais, pois as torrentes de água não respeitam nada, com os resultados que conhecemos: consideráveis danos. Se produz a destruição de  serviços públicos (água, esgoto e energia). Como sabemos, nosso país possui um valioso patrimônio histórico e cultural de bens móveis e imóveis, muitos deles de adobe como Chán Chán, Caral e muitos mais, os quais estão expostos às intempéries, incluindo as linhas de Nazca, cujos geoglifos desprotegidos das águas a montante poderão até desaparecer, pelo qual se impõe a necessidade urgente de tomar as rédias do assunto.

Em que pese a existência de um organismo de estado, como o SINAGERD - Sistema Nacional de Gestão de Riscos e Desastres - se observa que chegou o momento dos deslizamentos de terra e outros fenômenos naturais terem uma resposta inter-institucional coerente e efetiva. Tudo isto porque há falta de previsão e planejamento. Não é possível que, nestas ocorrências, não se possa transitar pela Estrada Central, por alguns trechos afetados da Rodovia Panamericana, que em nossa cidade sofreram estragos por uma chuva regular e, do mesmo modo, poderíamos enumerar muitos casos. Não se observa a intervenção imediata, coordenada e efetiva do estado - deficiente de equipamentos logísticos e de comunicação. Enquanto isso, os viajantes e transportadores são fortemente afetados e correm graves riscos de vida ao ter que se deslocar e buscar refúgios circunstanciais.

Caminhão tenta transpor uma ponte prejudicada pela elevação do nível das águas de um rio.
Caminhão tenta transpor uma ponte prejudicada pela elevação do nível das águas de um rio.

Para que ocorram grandes desastres devem concorrer aspectos puramente naturais e também de índole humana, geralmente por negligências e falta de previsão. Isto me leva a destacar o rol dos profissionais da arquitetura e engenharia principalmente, ainda que a segurança é tarefa de todos. Expresso isto porque não devemos seguir somente lamentando as tragédias. Então é necessário que assumamos uma postura mais proativa e preventiva. Por exemplo, quando se analisam os aspectos vulneráveis de uma cidade se determinam os mapas de perigos, com os setores que podem ser mais críticos e propensos. A diretriz peruana DS 004-2011 estabelece as determinações que devem adotar os Planos de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano, em relação às áreas urbanas de alto risco não mitigável, que devem ser consideradas como zonas de regulamentação especial, o que implica planos específicos para intervir em determinados lugares a fim de diminuir os riscos para a população.

Felizmente o PDM de Arequipa, que acaba de entrar em vigência, leva em conta as considerações de riscos que lamentavelmente outras cidades não fazem, com as consequências derivadas. Este assunto considera dois aspectos: os naturais, determinados pelos indicadores e equipes de estudo; e os fatores antrópicos, que dependem da atuação das autoridades e profissionais a cargo das áreas de segurança pública. As primeiras indicam a probabilidade de ocorrência de um evento, que pela mudança climática já é quase uma constante que devemos ter em conta permanentemente. Porém, os maiores estragos se derivam da falta de previsão, pela não aplicação das normativas de ocupação do solo, a negligência dos cidadãos, os maus hábitos da população ao jogar lixo, escombros e resíduos nas margens de córregos e rios. Se agrega a isto a ineficácia de algumas autoridades e funcionários públicos, que não atuam em momento oportuno na reparação de infraestruturas locais e regionais, como defesas ribeirinhas, pontes, estradas, limpeza de leito dos canais e valas -  ou o fazem tardiamente, quase na proximidade das datas previstas, não diminuindo a periculosidade da situação.

Os trabalhos de prevenção de danos e manutenção de infraestruturas devem ser constantes.
Os trabalhos de prevenção de danos e manutenção de infraestruturas devem ser constantes.

É de se esperar que levem a cabo as recomendações ali indicadas, que as gestões municipais sejam eficientes, que não tenhamos que colocar sempre a culpa na natureza. Que possamos aprender com as experiências nefastas de 8 de fevereiro de 2013, e da última ocorrida em Arequipa, no dia 26 de fevereiro do presente ano. Neste sentido vai a  recomendação especial aos colegas que assessoram os políticos que dirigem os governos locais e regionais, supondo que devem ser especialistas em matéria de Defensa Civil, para orientá-los e atuar devidamente.

Nosso país já tem um grande déficit de infraestruturas e, quando ocorrem os desastres, retrocedemos muitíssimo com os estragos derivados. Não podemos nos dar ao luxo se seguir vendo pistas deterioradas, estradas erodidas, canais destruídos e grandes extensões de terrenos de cultivo perdidos. Ver que todo o nosso valioso patrimônio seja afetado por estes fenômenos já é ruim, mas pior é constatar que a população está exposta aos perigos de sua própria existência.

Fontes

- Prevenção de Desastres, por Engenheiro Julio Kuriiwa Horiuchi.
- O Fenômeno El Niño, por Engenheiro Arturo Rocha.
- Imagens coletadas pelo autor em páginas eletrônicas diversas.

Os arquitetos Jean Tosetto e Carlos Rondón em auditório da PUC de Campinas.
Os arquitetos Jean Tosetto e Carlos Rondón em auditório da PUC de Campinas.

* O arquiteto Carlos Rondón é representante titular do Colégio de Arquitetos do Peru na Comissão Ambiental Municipal de Arequipa. O contato com o arquiteto Jean Tosetto ocorreu durante o 3º Fórum Internacional sobre Patrimônio Histórico de Portugal e Brasil, promovido durante maio de 2016 pelo Instituto de Arquitetos do Brasil em Campinas. A versão em espanhol deste artigo foi publicada originalmente na segunda edição da revista inFoCap, em abril de 2016.


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