A retrospectiva da carreira de Percival Lafer

As poltronas da Lafer ordenadas em linha de exposição - não mais de montagem.
As poltronas da Lafer ordenadas em linha de exposição.

É impossível sintetizar em breves linhas a carreira de um profissional que caminha para seis décadas de constantes aprimoramentos. Mas uma história sem ponto final precisa ser contada a partir de pontos de referência. Um deles certamente será a homenagem rendida pela Design Weekend paulistana. 

Há muitos atributos relacionados ao nome de Percival Lafer. Ele é arquiteto de formação, mas é reconhecido primordialmente como designer e empresário. Sua esposa, Branca, atesta: "Ele é um workaholic". Um trabalhador compulsivo sem tempo para cultivar a autopromoção, tão comum em tempos pós-modernos, de perfis em redes sociais da Internet que atuam como bombas infladoras de egos.

Percival, a despeito de ser detalhista, perfeccionista, conciso, compenetrado, assertivo e generoso ao mesmo tempo, é sobretudo um domador de vaidades. Se não fosse assim, a Lafer não chegaria aos 90 anos de história.

Percival Lafer e sua esposa, Branca.
Percival Lafer e sua esposa, Branca.

A maioria das empresas familiares quebra na segunda geração. Um pai cria um negócio promissor, oferecendo um padrão de vida confortável para os filhos. Estes, quando assumem a firma, se desentendem ou retiram proventos da empresa acima de sua capacidade. Logo, com a má gestão dos recursos, as dívidas aumentam para manter o capital de giro e, em poucos anos, o empreendimento entra em falência. No caso da Lafer, isso não ocorreu.

A primeira loja de móveis Lafer foi fundada pelo patriarca Benjamin em 1927. Com seu precoce falecimento, os filhos Samuel, Oscar e Percival assumiram a condução dos negócios no limiar da década de 1960. Eles estabeleceram uma divisão de trabalhos onde cada um assumiu responsabilidades nas áreas em que eram mais eficientes. Ao invés de apenas vender móveis, eles se propuseram a desenvolver e fabricar as próprias criações.

A Lafer foi pioneira no conceito de reciclar e reusar, com a linha Woodstick.
A Lafer foi pioneira no conceito de reciclar e reusar, com a linha Woodstick.

Coube a Percival se concentrar nos projetos das mobílias, em tempo quase integral, pois era necessário se inteirar das outras atividades da empresa. Desde o primeiro móvel patenteado ele nunca assinou uma peça com seu nome completo. E foram centenas delas desde então. Ao invés disso, os móveis vinham apenas com a etiqueta da Lafer - um selo de qualidade.

Era a vaidade domada em nome de um objetivo maior, e deste modo a Lafer chegou a empregar simultaneamente 1.500 funcionários. A empresa incorporou o lançamento de um automóvel ao seu portfólio em 1972. Seus produtos alcançaram os mercados mais competitivos da América do Norte e da Europa, ocupando anúncios em grandes jornais e vitrines de lojas de departamento, como o Mappin. Enquanto isso, Percival trabalhava ininterruptamente. Era assim que ele faz seu mundo girar até hoje.

A poltrona Adele, da década de 2010, faz par com a MP-1 de 1961, diante do automóvel MP Lafer dos anos de 1970.
A poltrona Adele, da década de 2010, faz par com a MP-1 de 1961, diante do automóvel MP Lafer dos anos de 1970.

Talvez por isso, o reconhecimento por suas realizações está vindo de forma tardia, não por sua iniciativa, mas por causa dos admiradores que amealhou ao longo dos anos. E isso faz toda a diferença.

Os primeiros móveis da Lafer, que agregavam design refinado, conforto e produção em larga escala, foram se escasseando ao longo das décadas. Estes modelos se tornaram colecionáveis e entraram na mira dos antiquários, que lhe conferiram o status de peças artísticas. Ocorre que obras de arte não são assinadas por empresas, mas por artistas. Logo uma pergunta começou a circular entre os entusiastas de móveis modernistas: "Quem são os designers por trás das criações da Lafer?" - A resposta corrige a pergunta ao entregar um nome singular: Percival Lafer.

O marceneiro Doni Grandini inspeciona a poltrona Mirage, de aspecto futurista.
O marceneiro Doni Grandini inspeciona a poltrona Mirage, de aspecto futurista. 

Em 2017, os organizadores da Design Weekeend de São Paulo - o quinto maior evento do ramo no mundo e o maior da América Latina - finalmente reconheceram a trajetória deste designer com 81 anos de idade e mais de meio século de carreira. O arquiteto Felipe Hess e o restaurador Teo Vilela realizaram um trabalho inédito em menos de um mês: eles reuniram 50 peças de todas as décadas da Lafer em seu período como fabricante de móveis.

A reunião de dezenas de peças da Lafer, de diversos períodos, é algo inédito na Design Weekend.
A reunião de dezenas de peças da Lafer, de diversos períodos, é algo inédito na Design Weekend.

A Loja Teo, na Rua João Moura em Pinheiros, região nobre de São Paulo, abrigou inclusive um veículo MP Lafer em suas instalações. O espaço é minimalista, de paredes caiadas, piso em cimento queimado dividido em planos ligados por rampas e degraus em leque, cuja cobertura com tesouras de madeira aparente suporta um sistema luminotécnico pensado para valorizar os móveis expostos.

No dia 10 de agosto o próprio Percival Lafer esteve presente no recinto para uma conversa conduzida por Regina Galvão - curadora da Design Weekend - diante de arquitetos, designers, estudantes, colecionadores, jornalistas, escritores e entusiastas do MP Lafer, além de parentes e amigos.

Os admiradores de Percival Lafer se reúnem entre suas criações para ouvir o mestre falar.
Os admiradores de Percival Lafer se reúnem entre suas criações para ouvir o mestre.

Por quase duas horas o empresário falou sobre seu processo criativo, sua obstinação pelo aperfeiçoamento constante dos mecanismos que envolvem seus projetos e da importância de considerar os aspectos mercadológicos no desenvolvimento de produtos acima da mera especulação estética dos mesmos. Ele respondeu perguntas diversas e recebeu os merecidos elogios de seus pares.

A advogada Anna Figueiredo, especialista na área de direitos autorais, fez um testemunho a respeito da atenção que recebeu de Percival, que lhe concedeu uma entrevista para sua tese. A Lafer, desde a década de 1960, registra suas criações através de patentes, razão pela qual a sigla MP, que batiza grande parte dos modelos, significa "Móveis Patenteados".

O jornalista Wagner Gonzalez lembrou de outro automóvel apresentado pela Lafer nos anos de 1970, o LL, que tinha inovações tecnológicas que somente foram incorporadas por outras marcas no mercado nacional mais de uma década depois. Já o estudante de Arquitetura José Victor levou um exemplar do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone" para ser autografado pelo homenageado do dia.

O detalhe de um painel com imagens de acervo mostra o perfil do Lafer LL ao centro.
O detalhe de um painel com imagens de acervo mostra o perfil do Lafer LL ao centro.

Caminhar entre os móveis da Lafer é como ter uma aula de design. Existem pormenores de determinadas peças que são difíceis de assimilar somente por fotografias, como podemos verificar na poltrona do conjunto MP-13, na qual os componentes de madeira dos braços não se comunicam com a estrutura de mesmo material presente na base, a não ser por discretos perfis metálicos delgados, causando a impressão de flutuação de todo o volume estofado.

A princípio, você consideraria isso uma ousadia meramente estética, mas um olhar mais técnico revela que as peças metálicas, que unem as partes de madeira, permitem a desmontagem do móvel, tornando-o capaz de ser transportado em compartimentos menores. Multiplique isso pela produção em larga escala e pelo custo do frete para exportação, para constatar que a solução de apelo estético atende a uma demanda mercadológica de baratear a logística de armazenamento e distribuição do produto. Eis a arte a serviço da racionalização que está na essência das atividades industriais.

A poltrona do conjunto MP-13 da década de 1960: união de conforto, estética e racionalidade.
A poltrona do conjunto MP-13 da década de 1960: união de conforto, estética e racionalidade.

Poderíamos nos estender pelos comentários de cada projeto de Percival Lafer, e este artigo seria um livro de várias páginas. Um livro que poderá ser lançado um dia pelas filhas do arquiteto: Betina, Adriana e Paula, também presentes no evento.

Por ora vamos nos referir a esta retrospectiva da carreira de Percival Lafer como um evento histórico. O peso de tal afirmação não recai sobre nós, uma vez que a mesma partiu do escritor Ignácio de Loyola Brandão, o outro gênio da noite com 81 anos de idade, que esteve na celebração para reavivar um antigo sonho: em sua juventude ele se encantou pelo MP Lafer tanto quanto pelo modelo britânico MG TD, embora nunca tivesse aprendido a dirigir.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão ao lado de um fã. (Foto: Doni Grandini)
O escritor Ignácio de Loyola Brandão ao lado de um fã.

Um evento como este não fica restrito ao dia de seu acontecimento. Ele vai reverberar em desdobramentos e influenciar uma nova geração de designers. Portanto, cabe o agradecimento aos que tornaram isto possível.

A Loja Teo foi convertida numa sala de aula: aula magna.
A Loja Teo foi convertida numa sala de aula.

- Por Jean Tosetto

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4 comentários:

  1. Dia magno gostaria de estar presente ao evento ainda não tive o prazer de cumprimentar o Percival. O MP Lafer é tudo isto

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    1. Quando soube do evento, cancelei compromissos e liberei o dia só para ir até São Paulo. Cheguei mais cedo para fotografar os móveis e absorver conhecimento para o meu trabalho, pois também faço projetos.

      Do estudante de 21 anos ao escritor premiado de 81, todos estavam lá para prestigiar o criador dos móveis da Lafer. Este dia foi um marco.

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  2. Sem dúvida uma oportunidade única para conhecer um artista completo. A loja Teo merece os parabéns pela iniciativa de mostra a simplicidade e simpatia de um homem genial.

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    1. Caro Wagner, é a iniciativa privada que presta as melhores homenagens para os expoentes de cada profissão do livre mercado.

      Enquanto a Loja Teo disponibilizou um dos m² mais caros do hemisfério sul para realizar a mostra do arquiteto Percival Lafer, o CAU - Conselho de Arquitetura e Urbanismo - nunca soltou uma nota de rodapé sobre o seu trabalho.

      Conclusão: quem valoriza a profissão são os próprios profissionais. Façamos a nossa parte. Grande abraço!

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