Salvatore Café Artesanal

O sabor elevado à categoria de arte.

No bairro nobre do Cambuí em Campinas, há uma curta e estreita rua de nome histórico, a MMDC, que encerra um pequeno conjunto de residências austeras sobre porões, construídas nas primeiras décadas do século XX, e que a especulação imobiliária ainda não descobriu. Ao passar por este lugar, se um Fusca azul claro for avistado estacionado em frente a uma delas, é sinal de que o Café Salvatore está aberto.

Há um portão lateral que conduz ao quintal, por um corredor largo e adornado com vasos e flores. Junto aos fundos da construção, há uma varanda grande o suficiente para abrigar um velho piano de madeira e um balcão - de certa forma improvisado - em frente a uma mesa comprida de bancos corridos. Logo em frente há uma cobertura de sapé, com pequenas mesas para quatro cadeiras, eventualmente usada para aulas de tango e exposições de quadros e esculturas.

Uma edícula, de cunho lateral, esconde dois lavabos de pé-direito baixo, atrás da sala onde se descortina a vista do equipamento usado para torrar o café, manufaturado sob encomenda em Espírito Santo do Pinhal, utilizando tecnologia italiana de caráter ecológico, uma vez que o aparelho não produz fumaça, apenas vapor. Talvez por isso seu café não sairá em apenas trinta segundos, como nas grandes redes ao modo fast-food.

Em compensação, ele não será servido num copo descartável, mas numa xícara personalizada, de bordas gordas e arredondadas. Com um pouco de sorte, o próprio Salvatore Alfonso - um ítalo-brasileiro que durante vários anos rodou o mundo atuando no ramo do comércio exterior - poderá serví-lo, sem antes lhe brindar com um tratamento informal e atencioso, que raramente é dispensado nas franquias que funcionam na base da rotatividade.

Nesta montagem, o equipamento do Salvatore se funde com a asa da xícara. Imagens de Araceli Avelleda, publicadas separadamente na edição 183 da Gazeta do Cambuí, em 13 de outubro de 2006.

Quem sabe ele possa contar, também, que ele mesmo produz o café, numa fazenda de quinze mil mudas em Guapé, no sul de Minas Gerais. No processo os agrotóxicos não são utilizados, o que oferece ao paladar de quem aprecia, o sabor de um café orgânico. Melhor ainda se a trilha sonora da ocasião for regada à bossa-nova, MPB ou Beatles. No piano do Salvatore, há espaço para o bom gosto musical, que por si só já vale a noite.

Há também um violão disponível para acompanhamento, mas é necessário que o próprio cliente o dedilhe. Dessa forma, se você conhece alguém que se habilite, convíde-o para uma "jam-session", mas leve também boas histórias para contar, pois o local é um pólo gerador de grandes debates sobre os valores positivos da vida. Lá, você acaba sendo apresentado para outras pessoas, com diferentes origens e modo de pensar.

Só não espere por um cardápio fixo - ele não existe. Cada visita implica em saborear um prato diferente, dentro das opções oferecidas naquele dia. Num canto do quintal, cercado de edifícios de apartamentos por todos os lados, há uma pequena horta para o cultivo de ervas e temperos típicos da comida mediterrânea, que por vezes enriquecem as pizzas feitas da maneira italiana, com massa fina e sem enxertos de catupiry.

O fato a lamentar é que, a cada vez você vai a este quintal, fica a impressão de que pode ser a última. As metrópoles do novo milênio não se importam muito com os conceitos acima descritos. Quem sabe da próxima vez já não veremos, no local, os tapumes de uma nova empreitada, que estampará na MMDC mais um arranha-céu de sacadas néo-clássicas, com acesso fácil para um shopping-center e guarita exclusiva para entregadores de esfihas.

Embalado em pacotes dourados, o Café Gourmet da Fazenda Serrano pode ser encontrado na Panetteria Di Capri da Cidade Universitária, no distrito de Barão Geraldo em Campinas.

A história continua:

Nhoque da boa fortuna

4 comentários:

  1. Renato Martins14/05/2009 01:27

    Jean, o nome da rua MMDC, não é, nem tem nada a ver com Roma/Romanos. Pesquise a história do estado de São Paulo e aprenda quem são MMDC: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, que morreram em 1932.

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  2. Jean Tosetto14/05/2009 08:37

    Caro Renato Martins, leia novamente o texto e verá que não há menção à Roma ou aos romanos. O adjetivo "histórico" relativo ao nome da rua MMDC foi usado justamente pelo motivo que você comentou. Mas sua observação fica registrada, pela qual agradeço.

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  3. No link a seguir temos a página em cache do Google registrada em 03 de maio de 2009, para demonstrar que o artigo não foi alterado:

    http://74.125.47.132/search?q=cache:X1fGs5XQrRwJ:www.jeantosetto.com/2007/06/salvatore-caf-artesanal.html+caf%C3%A9+artesanal&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a

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  4. Este café é maravilhoso, para apreciá-lo em São Paulo vá até a Rua Pitangueiras, 66 quase esquina com a Av. Jabaquara no metrô Praça da Árvore. Lá, seu café serrano acompanhará um bolo caseiro à sua escolha: fubá com goiabada, coco, milho, nescau, limão, cenoura, laranja com gengibre, laranja, etc...
    Tomo este café há cerca de dez anos diariamente... Peça para o Américo ou sua esposa Sueli tirá-lo curto ou 3/4 e tome sem açucar, custa um pouco a se acostumar, mas depois que tomar o gosto nunca mais vai querer adoçá-lo.
    Digam que o Léo e a Fabi indicaram sua cafeteria, quem sabe eles não me dão um cafezinho de brinde (rsrsrsrs)
    Abçs

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