Casa Grande e Capela de Santo Antônio em São Roque

A Casa Grande e a Capela de Santo Antônio: patrimônio arquitetônico tombado em São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba.
A Casa Grande, distante 30 metros da Capela de Santo Antônio: patrimônio arquitetônico tombado em São Roque, na Região Metropolitana de Sorocaba.

São Roque é conhecida entre os paulistas por suas vinícolas e roteiro gastronômico, mas a cidade guarda também resquícios da arquitetura do ciclo bandeirista, ocorrido há três séculos. 

Por Jean Tosetto *

Em 1996 estava no terceiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas, quando participei de uma breve excursão da classe para conhecer os únicos remanescentes da arquitetura praticada pelos bandeirantes no atual Estado de São Paulo, nos municípios de Cotia e São Roque, nas imediações da capital.

Passados vinte anos, retornei à cidade de São Roque para revisitar a Casa Grande e a Capela de Santo Antônio, no sítio de mesmo nome que virou parque público, já sem a necessidade de transitar por estrada de terra, mas com os olhos mais experientes para compreender a importância do local para a história do Brasil, que a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 passou a valorizar suas expressões artísticas genuínas.

A despeito da autoria desconhecida de seu projeto, a Capela de Santo Antônio tem claro partido arquitetônico baseado em volumes distintos e harmoniosos: alpendre, nave e torre.
A despeito da autoria desconhecida de seu projeto, a Capela de Santo Antônio tem claro partido arquitetônico baseado em volumes distintos e harmoniosos: alpendre, nave e torre.

A cobertura do alpendre já não existia quando a capela foi reconhecida na década de 1930 - a mesma foi reconstruída a partir de prospecções realizadas in loco.
A cobertura do alpendre já não existia quando a capela foi reconhecida na década de 1930 - a mesma foi reconstruída a partir de prospecções realizadas in loco.

Estas construções, redescobertas em 1937, apresentam características que permeiam os três primeiros séculos da colonização européia em terras brasileiras, especialmente no planalto paulista, quais sejam: paredes estruturais em taipa e pilão (espécie de barro batido sobre tramas de madeira) conformando larguras superiores a meio metro; cobertura com cumeeira e espigões formando duas a quatro águas, com telhas cerâmicas dispostas em capa e canal sobre ripas, caibros e vigas de madeira bruta, com beirais largos avançando sobre o perímetro das edificações; poucas e pequenas portas e janelas envoltas de batentes de madeira, com folhas de madeira afixadas por ferragens rudimentares; alicerce composto por plataforma de pedras irregulares que afloram em terraços mesclados com piso de solo-cimento ou terra batida em compartimentos internos.

Valendo-se das "peças escravas" (negros) e do "gentio da terra" (índios), a obra da Casa Grande remonta ao ano de 1650, por decisão do bandeirante Fernão Paes de Barros, descendente de Pedro Vaz de Barros, que fora governador de Capitania de São Vicente. Atendendo ao pedido de sua esposa, Dona Maria de Mendonça, inicia a construção da Capela de Santo Antônio em 1681, deixando para seus herdeiros a obrigação de rezar missas semanais em memória do casal - conforme rogava o "Morgadio", uma instituição de origem feudal abolida no Brasil somente em 1835.

Seguindo a tradição dos jesuítas, a nave da capela é separada do altar por uma passagem sob arco pleno.
Seguindo a tradição dos jesuítas, a nave da capela é separada do altar por uma passagem sob arco pleno.

O interior da edificação religiosa é separado do alpendre externo por um painel composto por peças de madeira que compõem um jogo de luz e sombras, revelando a influência mourisca trazida da península ibérica.
O interior da edificação religiosa é separado do alpendre externo por um painel composto por peças de madeira que compõem um jogo de luz e sombras, revelando a influência mourisca trazida da península ibérica.

Em 1858, João de Deus, o único herdeiro do último descendente de Paes de Barros, começa a desmembrar a propriedade original. O sítio remanescente é adquirido pelo Barão de Piratininga em 1868, que além do conjunto arquitetônico tomou posse, também, das imagens de Santo Antônio, Santa Tereza e Nossa Senhora do Rosário, duas estátuas africanas (tocheiros antropomorfos), da mobília e dos quadros de então. O local foi usado pelo Barão como abrigo para recreação e caça, construindo ali outra residência que, no entanto, não sobreviveu aos anos posteriores.

Com a morte do Barão em 1886, as instalações do Sítio Santo Antônio foram abandonadas, passando por vários proprietários humildes, que destinaram o local meramente para a lavoura de cebolas e batatas. A Casa Grande e a Capela de Santo Antônio, ambas parcialmente arruinadas, receberam o tombamento pelo SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - somente em 1939, quando uma restauração foi iniciada sob a responsabilidade do arquiteto Luis Saia.

A fachada principal da Casa Grande revela a simetria da implantação quebrada apenas pela topografia do terreno, compensada com um terraço de pedras irregulares.
A fachada principal da Casa Grande revela a simetria da implantação quebrada apenas pela topografia do terreno, compensada com um terraço de pedras irregulares.

O oratório da Casa Grande fica anexo ao alpendre central da mesma, em oposição ao dormitório para hóspedes, isolado do ambiente social da edificação.
O oratório da Casa Grande fica anexo ao alpendre central da mesma, em oposição ao dormitório para hóspedes, isolado do ambiente social da edificação.

Poucos meses antes de morrer, em 1945, o escritor Mário de Andrade, expoente da já citada Semana de Artes Modernas de 1922, adquire a propriedade e a deixa em testamento para o próprio SPHAN - convertido posteriormente em Instituto (IPHAM). A restauração, que compreendeu a reconstrução parcial das paredes do conjunto, além dos telhados, só foi concluída em 1952.

O maior cômodo da Casa Grande, provavelmente o aposento do primeiro casal a ocupar o imóvel, é interrompido apenas por uma pilastra de madeira que sustenta um espigão da cobertura cujas telhas encaixadas sem precisão conferem alguma ventilação e iluminação natural ao ambiente.
O maior cômodo da Casa Grande, provavelmente o aposento do primeiro casal a ocupar o imóvel, é interrompido apenas por uma pilastra de madeira que sustenta um espigão da cobertura, cujas telhas encaixadas sem precisão conferem alguma ventilação e iluminação natural ao ambiente.

Na parte central da Casa Grande, a altura do telhado permitiu a instalação de um jirau sustentado por estrutura de madeira semelhante à que se vê no alpendre.
Na parte central da Casa Grande, a altura do telhado permitiu a instalação de um jirau sustentado por estrutura de madeira semelhante à que se vê no alpendre.

Desde então, obras pontuais vem sendo conduzidas, incluindo a restauração das pinturas do oratório principal, a recomposição da mata nativa do entorno, e construção de sanitários e portaria do parque, que funciona atualmente sob responsabilidade da Prefeitura da Estância Turística de São Roque, abrindo aos fins de semana e feriados, de modo alternado com períodos de manutenção.

A distância de quase dez quilômetros do núcleo urbano de São Roque foi um fator benéfico para a preservação destas edificações de taipa, que estariam sujeitas à sucessivas reformas ou demolição se não estivessem na zona rural.
A distância de quase dez quilômetros do núcleo urbano de São Roque foi um fator benéfico para a preservação destas edificações de taipa, que estariam sujeitas à sucessivas reformas ou demolição se não estivessem na zona rural.

Para o arquiteto e urbanista Lucio Costa, autor do plano piloto de Brasília e notório estudioso da produção arquitetônica brasileira, a Capela de Santo Antônio e a Casa Grande guardam parte das "mais antigas e autênticas expressões de arte brasileira". Razão pela qual recomendo a visita ao local, não só para os estudantes universitários, como para todos aqueles que alimentam o sentimento de brasilidade.


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