Ata de Fundação e Estatuto Precário do Movimento Slowfoot

O século XX viu o crescimento do esporte mais popular de todos os tempos: o Futebol. Suas regras simplórias e sua representação do embate sem armas entre etnias, cidades e nações, atiçam o inconsciente coletivo e contagiam milhões de pessoas ao redor do planeta. O Futebol é democrático e une antagonistas em torno de uma bola. Sua magia e seu encantamento são tão inegáveis quanto incompreensíveis.

Infelizmente a era romântica do Futebol acabou. Tudo o que é relativo a este jogo empolgante foi ganhando ares de profissionalismo. Vide as Copas do Mundo, que já foram disputadas em estádios com arquibancadas de madeira, mas que neste terceiro milênio exigem uma estrutura descomunal, tomando bilhões de dólares por parte da iniciativa pública e privada. Quando se fala em "bilhões" para qualquer assunto, estamos tratando de riquezas que dezenas de países, reunidos, não conseguem produzir em um ano.

Atualmente, jogadores medianos são promovidos ao patamar de craques. Craques são elevados à condição de semideuses, cujas opiniões ganham o peso que antes eram atribuídos aos cientistas e filósofos. Aos ídolos do Futebol se perguntam sobre tudo: política, meio-ambiente, cinema, religião. O culto a estas celebridades movimenta uma cadeia de contratos, patrocínios, espaço na televisão e nos jornais.

O Futebol, como um todo, tornou-se uma potência na indústria do entretenimento, uma atividade submetida à lógica de mercado, mas sem estar regulada por qualquer órgão chancelado pela ONU - Organização das Nações Unidas. Aliás, a FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) congrega mais países do que a própria ONU. Ninguém parece estar acima da FIFA, que não precisa de nenhum poço de petróleo para subjugar a vontade de uma fila sem fim de reis, ditadores e presidentes dispostos a alimentar sua sanha pelo dinheiro: todo mundo quer sediar uma Copa do Mundo.

O Futebol virou produto de consumo. Não obstante, uma rede de fastfood patrocina seus principais campeonatos. Chegamos ao ponto: o Futebol rendeu-se ao estilo de vida Fastfood: com seus jogos diários de satisfação momentânea, que deixam no consumidor uma sensação de vazio que o induz a consumir mais e mais. Sempre a próxima partida promete ser mais importante, assim como o sanduíche será servido cada vez mais rápido, com mais sabor e mais calorias.

Ocorre que, para o estilo de vida Fastfood, surgiu um movimento de contracultura denominado Slowfood, que prega um ritmo diário mais suave, que evite o estresse da correria, preparando com calma as refeições, retomando hábitos saudáveis de alimentação e o convívio social que isto implica.

É a partir do Slowfood que estamos criando uma variação denominada Slowfoot, com "t" no final, mesmo. Não custa lembrar que "foot" deriva de Football (Futebol em inglês). O Movimento Slowfoot surge para ser um contraponto ao Futebol "overdosado". O objetivo do Slowfoot é retomar os primórdios do Futebol, cuja magia foi diluída por doses cavalares de promoção mercantilista.

Requisito básico para ser um adepto do Slowfoot:

- Não praticar ou acompanhar o Futebol Profissional. O slowfooter (que é o adepto do Slowfoot) torce apenas por times de Futebol Amador - ou de Várzea, como queiram. Essa história de torcer por um clube que visa o dinheiro, antes de ser campeão, é um contra-senso. Sabemos que é difícil abandonar um time de coração, por isso tolera-se que o slowfooter mencione seu time de infância - desde que sua infância tenha sido antes de 1986, quando resquícios do Futebol Arte ainda podiam ser percebidos por alguns.

Material esportivo:

- Os times de Slowfoot não podem ter patrocinadores em suas camisas. As camisas devem ser livres inclusive das logomarcas dos fornecedores das malhas. As cores devem ser tradicionais, sem compor desenhos esdrúxulos. Admite-se o escudo no lado esquerdo do peito, e que os nomes dos clubes façam menções aos locais de trabalho ou estudo dos jogadores.

- A numeração das camisas deve se limitar à soma dos jogadores em campo, mais os reservas eventuais. Números como 99 e 47 estão fora de cogitação.

- É vetado o recebimento de camisas oriundas de candidatos à vereadores ou prefeitos. O mesmo se aplica para demais cargos políticos. Políticos eleitos também não podem colaborar por fora.

- As bolas não poderão ser batizadas com nomes exóticos (como Mandibulator, Trattora ou Jabuletane), mas os apelidos tradicionais estão permitidos (como pelota ou gorduchinha).

- Caso um jogador se apresente na partida de pés descalços, todos os demais deverão tirar suas chuteiras, que serão apenas na cor preta.

- Na ausência de luvas, os goleiros podem proteger as palmas das mãos com chinelos de dedo.

Um slowfooter se prepara para bater com o peito do pé esquerdo na bola.

Esquemas táticos:

- Todos os times devem escalar ao menos um ponta esquerda e um meia de lança. Líberos são proibidos, bem como mais de um volante.

- A camisa 10 será dada sempre para o melhor jogador. A camisa 2 será sempre do lateral direito e assim por diante. Não será permitido inverter a ordem das camisas para confundir o time e a torcida adversária.

Estádios e campos:

- Os estádios, quando existirem, não poderão ter arquibancadas setorizadas e separação por torcida. Todos devem se acomodar sob as mesmas condições, seja num barranco ou no cimentado. Cadeiras cobertas e numeradas (acessíveis apenas por cartões de crédito) estão vetadas, bem como as bilheterias.

- Na ausência de grama, admite-se a terra batida ou areia compactada. As traves podem ser de madeira e as redes podem ser emprestadas por pescadores.

- Placas de publicidade na beira das quatro linhas estão, evidentemente, vetadas.

Cobertura da mídia:

- Nenhuma partida de Futebol será transmitida ao vivo pelas televisões. No máximo será permitido que os jogos sejam registrados em câmeras de Super 8.

- As transmissões radiofônicas estão restritas às rádios comunitárias (com raio de alcance máximo de dois quilômetros) desde que as mesmas não interfiram na escolha das datas e horários das partidas.

- Entrevistas coletivas repetitivas e enfadonhas estão proibidas, bem como entrevistas exclusivas nas casas dos jogadores.

- Serão permitidas entrevistas espontâneas nas portas dos vestiários ou no balcão da cantina mais próxima do campo.

- O Movimento Slowfoot não contará com site próprio. O mesmo se aplica à blogs e perfis no Twitter ou Facebook. Mas a propagação boca a boca será bem vinda, bem como a citação deste estatuto em qualquer meio de comunicação.

Exclusões sumárias:

- Serão excluídos sumariamente do Movimento Slowfoot todos aqueles que forem pegos usando camisas de times europeus.

- Todos aqueles que perderem seu tempo assistindo aos programas do tipo "mesa redonda" que debatem o Futebol Profissional, especialmente aqueles veiculados nas noites de domingo.

- Todos aqueles que brigam ou rompem amizades por causa de Futebol, seja Profissional ou Amador.

Conclusão:

O Movimento Slowfoot está aberto à colaborações. Sugestões de regulamentos são bem vindas, desde que não envolvam dinheiro e auto-promoção excessiva.

Pratique o Slowfoot e reviva a magia perdida do Futebol, mas não leve isso tão a sério. Existem "n" coisas mais importantes do que este esporte bretão.

Atenciosamente,
Jean Tosetto
Fundador, Presidente, Diretor, Secretário e Conselheiro Provisório do Movimento Slowfoot

Paulínia, São Paulo, 06 de dezembro de 2010.

Comente este artigo na coluna do jornalista Ricardo Setti em Veja.com

Visite o blog desenvolvido a partir desta proposta bem humorada.



Nhoque da boa fortuna
Paixão de quatro gerações
Salvatore Café Artesanal

4 comentários:

  1. Caro Jean,
    Via Blog do R. Setti (Veja.com),
    lí sua matéria.
    Brilhante. Apesar de aparentemente você ser jovem, tem as saudades que tenho do futebol verdadeiro.
    Parabens.

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    1. Obrigado, anônimo. Quem passou a infância jogando bola num campinho não consegue se empolgar com as novas arenas.

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  2. Francisco Paz11/06/2014 20:45

    Sensacional.
    Vou aproveitar que meu time está ruim demais e vou torcer para o Siri Babão FC.

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    1. Caro Francisco, fui goleiro dos Brejeiros do João Aranha. Um dia podemos marcar um amistoso com o Siri Babão!

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