Residência Pereira no Fontanário em Paulínia - 2008/2009

Simples sem ser simplória, a composição da fachada reflete o perfil da família em formação desta casa.

Aposto que suas músicas favoritas são fáceis de assobiar. Elas podem ser cantadas apenas com um violão de acompanhamento, ou talvez um piano, quem sabe uma caixinha de fósforo. Tais músicas muitas vezes não passam de três acordes, mas a melodia, o ritmo e a harmonia que as cercam, fazem elas colarem no seu ouvido. Elas soam agradáveis. Seus compositores fazem tudo parecer fácil. Simples, não? O desafio é compor uma música com tais características.

As vezes, na Arquitetura, ocorre algo semelhante. Casas com descrições simples - sobrado, telhado bi-partido, sacada, cobertura da garagem rebaixada, torre da caixa de água - produzem um encantamento que não se explica apenas com palavras. Como descrever o ritmo, a melodia e a harmonia de uma construção? Projetos que depois de prontos parecem simples, na verdade escondem muito tempo de dedicação e apuro de sensibilidade de seus arquitetos. É a diferença entre o simples e o simplório.

Quando o jovem casal resolveu procurar este arquiteto para realizar o projeto de sua futura residência, este conceito foi enfatizado. Eles não queriam uma opereta com prelúdios e interlúdios, que em Arquitetura se traduz em excesso de formas e materiais. Eles queriam uma canção que pudessem compartilhar - que pudessem cantar sem usar o esôfago. As primeiras conversas ocorreram em 2008, mas o projeto foi finalizado e aprovado em 2009. A obra se estendeu até 2010.

A sala de estar adjunta à sala de jantar, com visão privilegiada do quintal: iluminação e ventilação natural em abundância, sem perder a privacidade.

Quase um terço do terreno de 300m² ficou livre nos fundos. O gramado cumpre importante função de permeabilidade do solo, além de oferecer possibilidades para edificação complementar no futuro.

A seção transversal, reproduzida sem escala, revela um pouco do método adotado para representação do projeto em programa de CAD, onde as cores equivalem às diversas espessuras de penas, que outrora eram de nanquim ou grafite sobre folhas de papel manteiga.

Para economizar espaço na escada, admite-se a colocação de degraus em leque, desde que eles não tirem o conforto dos usuários. As sacadas são uma boa pedida para a disposição de vasos com flores ornamentais.

Detalhe da perspectiva do estudo de projeto, feita à mão livre , com lapiseira Pentel 0.9 - cujo pregador está devidamente enferrujado depois de mais de quinze anos de uso.

Fachada em ângulo que remete ao desenho acima. Outras mãos, as de pedreiros e serventes, trazem para a realidade o sonho dos proprietários, transcritos na prancheta do arquiteto.

Tobby toma conta da varanda, além de ser fonte de inspiração para o ofício de sua dona. Visite: Felinos & Cia.

Dica do arquiteto: ao contratar um empreiteiro para tocar a obra, utilize sempre um contrato por escrito, com as descrição de todas as etapas a serem executadas e acordadas verbalmente. Efetue os pagamentos atrelados à cada etapa e jamais faça adiantamentos. O que é tratado, não é caro.

Anterior - Próximo

Aço & construção racional

Mensagem recebida em fevereiro de 2011:

"Caro Jean, sou Rômulo de Macatuba (cidade paulista na região de Bauru, a cerca de 240 quilômetros de Paulínia), tenho 17 anos e curso o segundo ciclo do curso de técnico em edificações na ETEC.

Primeiramente gostaria de dizer que gostei muito do seu site e de suas obras, e gostaria de pedir ajuda com um trabalho escolar. Como todo curso, tenho que apresentar o TCC - Trabalho de Conclusão de Curso - e pensei em apresentar algo inovador ou inesperado. De início pensei em duas idéias, mas não sei se seriam viáveis e se trariam benefícios às obras.

Gostaria de saber o que você acha:
1) casas com estruturas metálicas.
2) reaproveitamento de restos de materiais de construção.

Se você puder me dar algum conselho ficaria muito agradecido.Abraço. Parabéns!"

Nossa resposta:

Caro Rômulo, é uma satisfação pessoal constatar que meu trabalho é apreciado pelos mais jovens - o que procuro retribuir, sempre que possível, compartilhando com um pouco de meu conhecimento e experiência.

O sistema construtivo com estruturas metálicas vem sendo usado largamente desde o fim do século XIX nos arranha-céus de Chicago, nos Estados Unidos, tendo se consolidado também na Europa e na Ásia. Como as estruturas metálicas conseguem vencer grandes vãos e sua montagem se dá em tempo reduzido - se comparado à outros sistemas construtivos - seu uso é aplicado em obras de grande porte, como hotéis, campus universitários, edifícios comerciais e apartamentos.

No Brasil, o uso da estrutura metálica ainda não é tão difundido, mas a cada década vem conquistando seu espaço de modo irreversível. Para obras de pequeno porte, no entanto, seu uso continua muito restrito, especialmente nas residências voltadas para as classes mais populares, onde o uso de alvenaria e concreto armado segue com grande predominância, devido ao perfil de nossa mão de obra.

A estrutura metálica para residências tem suas vantagens e desvantagens. O lado positivo, além da agilidade na obra, é que as peças metálicas - quando bem conservadas - podem ser reaproveitadas em outros projetos. No entanto, um problema para os brasileiros é a falta de mão de obra especializada. Vale lembrar também que estruturas metálicas tem pouca resistência ao fogo - em caso de incêndio elas entram em colapso bem mais rápido do que as estruturas mistas de alvenaria e concreto armado.

Em 2001 o Grupo Gerdau desenvolveu um kit de montagem de estrutura metálica para casas populares, com área projetada variando de 48 à 96 metros quadrados. Outra proposta interessante, da mesma época, era da Usiminas: seu programa denominado Usiteto chegou a ser adotado por prefeituras do interior de Minas Gerais, se valendo módulos ainda menores, de apenas 36 metros quadrados.

Entramos em contato com o Departamento de Marketing da Usiminas e fomos muito bem atendidos pelo Roberto Inaba, que gentilmente nos cedeu as imagens do modulo básico para casas populares da empresa. A construção é feita sobre um radier, que é uma espécie de laje de concreto armado no solo aplainado e compactado. 

Com relação ao reaproveitamento de restos de materiais de construção, devemos ter cuidado com a elaboração de propostas neste sentido, uma vez que seria mais racional propor meios para a redução de entulho nos canteiros de obras. Mas, como esta é uma realidade muito presente em cada cidade da América Latina, não seria má idéia pensar em reutilizar este volume considerável de componentes desperdiçados.

Existem diversos estudos para a reciclagem do entulho proveniente de obras mal geridas. Em geral se propõe fazer a trituração de cacos de tijolos, telhas e azulejos, restos de masseiras, respingos de reboco e concreto usinado não aproveitado nas concretagens de lajes e contra-pisos. Ferro, madeira, papelão e vidro costumam ser descartados pois deixariam o produto da reciclagem heterogêneo demais para ser usado como agregado ou componente de blocos de vedação, embora tais rejeitos podem ser reciclados para outras funções.

Como se trata de um trabalho escolar, pode-se ousar sem conseqüências financeiras, o que aliás é o grande barato das escolas. Então você pode propor um projeto que utilize a estrutura metálica mesclada com painéis de vedação oriundos de agregados reciclados de entulhos das construções. Seria um desafio e tanto estudar um modo de vencer as diferenças de dilatação entre os materiais, nas suas regiões de contato. Vá além e inclua conceitos como o aproveitamento de água de chuva e aquecimento solar da água.

Desejo boa sorte em seu Trabalho de Conclusão de Curso e espero receber boas notícias ao seu término!

Atenciosamente,
Jean Tosetto - Arquiteto

Veja também: